terça-feira, 19 de março de 2013

Confiar na fada?


As instituições europeias – do Banco Central Europeu à Comissão Europeia – acreditaram, acreditam e acreditarão na “fada da confiança”, para retomar a impagável expressão de Paul Krugman. Esta fada, invocada em todas as análises do Consenso de Bruxelas, seria responsável por tornar a austeridade e as “reformas estruturais”, mais tarde ou mais cedo, em sinónimos de expansão: os capitalistas ficariam tão impressionados e confiantes com políticas públicas “credíveis” de consolidação orçamental e de transformação estrutural regressiva para a maioria que desatariam a investir. O problema é que o mundo não se verga às fraudes classistas de gente com poder. A austeridade é profundamente recessiva, ainda para mais quando praticada ao mesmo tempo por tantos países e sem possibilidade de descer juros e desvalorizar moedas. A austeridade leva ao colapso da procura e logo obriga a uma revisão das expectativas por parte de muitos em relação a vendas futuras, fazendo com que as forças da desconfiança se adensem, levando ao colapso do investimento, no quadro de dificuldades financeiras, públicas e privadas, cada vez mais agudas. Para além disso, as tais reformas estruturais comprimem a procura de bens sociais, aumentam a insegurança laboral, tornando os despedimentos mais fáceis e baratos e dando incentivos pouco recomendáveis aos tais capitalistas. Depois de centenas de milhares de empregos destruídos, a troika acha que uma nova ronda de redução das indemnizações fará com que este país permaneça no “bom caminho” para encontrar a tal fada. Na realidade, esta ideologia inscrita nas instituições europeias trabalha para adensar as forças da desconfiança em relação ao futuro, em relação às instituições e em relação aos outros: depressão económica e aumentos da insegurança e desigualdade sociais criam todas as armadilhas socioeconómicas de que falam cientistas sociais que não acreditam em fadas, mas sim em mecanismos reais com consequências reais. De resto, os que mais invocam a confiança são os que mais têm feito para a destruir. Pode ser que acabem por ser as principais vítimas da desconfiança que cresce em relação ao Consenso de Bruxelas e às instituições que o suportam. Pode ser.

2 comentários:

Anónimo disse...

Desta vez parece não haver duvidas que os Eurocratas estão a brincar com o fogo.Por outro lado não deixa de se ter em consideração e considerar-se um facto importante que o característico Ministro das Finanças Português votou a favor da decisão sobre Chipre. Confirmou-se aquilo que todos nós já sabíamos , este Ministro é um colaborador entusiasta do eixo dominante Europeu.
Há também um dado importante que deve ser considerado . Qual vai ser a atitude da Rússia perante esta situação . Talvez a chanceler da Alemanha se tenha esquecido que a Europa necessita gás natural russo

D., H disse...

Para além dos sistemáticos “erros” do ministro das Finanças, “habilidade” a que ele já nos habituou, Gaspar mostrou claramente, e mais uma vez, estar SÓ preocupado em agradar ao seu amigo Schäuble…
Completamente desligados da realidade, e cegos pelo seguidismo, os membros do Eurogrupo mostraram toda a incompetência no seu esplendor. (E da fama de saqueadores já ninguém os livra…)