quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Cambiar


Os editoriais do Público têm sido demasiadas vezes demasiado complacentes com a política de austeridade. O de ontem não foi assim, estando mais alinhado com as notícias de economia: “a causa do arrefecimento do comércio externo explica-se com uma orientação de política que, baseando-se na austeridade, está a promover uma espiral recessiva no continente”. Juntem-lhe uma valorização do euro face ao dólar de mais de 10% desde o Verão e também face ao iene. Na realidade, uma desvalorização do dólar e do iene parece ser uma perspectiva mais adequada, até porque por lá há quem use a política cambial, como sublinha o indispensável Jacques Sapir. Já por Frankfurt temos um Constâncio em pose de falcão, preocupado com uma inflação residual, enquanto a taxa de desemprego bate novos recordes históricos. Assim, não é de admirar que as exportações nacionais de bens tenham caído cerca de 3,2% no último mês de 2012 em termos homólogos. Depois de terem recuperado da queda abissal de 2009, fruto da crise internacional, as exportações têm vindo a crescer menos em cada ano, desde 2010. Em 2012, já só a desvalorização do euro, entretanto revertida desde o Verão nos terá provavelmente valido. Em 2013, as exportações já não devem crescer de todo. Austeridade nacional e europeia e moeda forte são uma combinação letal para uma economia portuguesa muito debilitada por anos a fio entre a estagnação e a recessão.

4 comentários:

D., H disse...

“Austeridade nacional e europeia e moeda forte são uma combinação letal…”
Não é nada que aqui já não se tivesse lido, há muito tempo! Ladrões De Bicicletas, uma referência…O Constâncio, o Selassié e os outros, não passam de paus-madados do grande capital.

Anónimo disse...

"... até porque por lá há quem use a política cambial ..."
Defende portanto uma "corrida à desvalorização" por parte dos principais blocos económicos?

R.B. NorTør disse...

Torna-se complicado dizer qual o caminho. A certeza é que o actual apenas funciona para uma estreita franja de protegidos, e nao falo dos socialmente desfavorecidos.

Existem várias questoes no caso "cambial e monetário". Em tempos havia uma referencia, a quantidade de dinheiro em circulaçao tinha uma correspondência aproximada a algo de palpável, mas e hoje? Como em '29, as empresas "valem" o que nao sao, mas o que aparentam, sem qualquer correspondencia. Quando se fala de crise de divida, quem deve o quê e a quem? Será o problema actual uma questao de despesismo (cujo antídoto poderia talvez ser austeridade) ou de má gestao?
Que rigor e austeridade se possam confundir em alemao, ainda passa, mas em português nem sequer rimam. Acreditar e defender as medidas que têm falhado sistematicamente anda a roçar o idiota, a menos que se seja dono de um banco. A SIC mostrou porquê recentemente...

João Carlos Graça disse...

Aqui há tempos foi o BCE a descobrir a pólvora seca de que o "multiplicador da despesa pública" afinal, era (desculpem lá o ups...) bastante maior do que o supostamente previsto.
Agora vem o Sapir acrescentar, e bem, o "multiplicador da taxa de câmbio":

"Aujourd’hui, et compte tenu de ce que la zone Euro est en récession, le potentiel de croissance par les exportations est largement situé hors de la zone Euro. On peut donc penser que l’impact potentiel de cette hausse de l’Euro face aux autres monnaies aura des conséquences bien plus graves que ce qui avait été calculé en 2008, et l’on peut supposer que c’est à une contraction de -1,2% que nous serions confrontés dans le cas d’une appréciation de 10% de l’Euro".

E nós, pá: continuamos no Euro à espera de quantos mais pontapés no cu? (Sim, pontapés, que cá eu sou muito educado nas metáforas a que me autorizo a recorrer...)