sexta-feira, 1 de junho de 2012

Parcerias


É cada vez mais claro que este governo é uma parceria entre dois tipos de ministros: o dos negócios mais ou menos sórdidos e o que oscila entre o branqueamento ideológico desses negócios e a condução de uma política económica recessiva e regressiva definida pelo centro europeu.

Vítor Gaspar foi ontem à Faculdade de Economia da Universidade do Porto e, com Belmiro de Azevedo na plateia, decidiu elogiar o espírito santo empresarial desta burguesia dos hipermercados e a qualidade do jogo do ocasional parceiro de squash. Um aparte simbólico e cheio de potencial metafórico, um vislumbre de toda uma sociologia das elites.

Entretanto, um dia depois da apresentação em Portugal de um livro sobre a Goldman Sachs, o ministro-sombra para todas as idas ao pote, essa parceira público-privada entre Passos Coelho, Alexandre Soares dos Santos e Leonor Beleza que dá pelo nome de António Borges, é entrevistado pelo Económico. A linha está há muito definida e trata-se de a repetir com a clareza política e a mediocridade intelectual que só a actual correlação de forças permite: “Diminuir salários não é uma política, é uma urgência”.

Marc Roche, o jornalista do Le Monde que escreveu o tal livro, deu ontem a seguinte informação: “O FMI disse-me que se livraram dele porque não estava à altura do trabalho e agora chego a Lisboa e descubro que está à frente do processo de privatização. Há perguntas que têm de ser feitas”. As perguntas são muitas e poderão desde já ser feitas, mas julgo que as respostas só poderão ser dadas quando o país se tiver libertado das estruturas monetárias e financeiras que conferem poder a esta gente. Aqui está uma política urgente...

2 comentários:

D., H disse...

O António Borges não devia estar a referir-se ao salário dele…. A propósito, e por falar em parcerias, esta do Económico com a Ongoing parece talhada para o Poder.

Interessante a imagem de António Borges perante o consultor financeiro do Le Monde. Pelos vistos, só por cá se vende tal “peixe”.
Mais importante que a “truta” é o aviso deixado pelo consultor financeiro do “le Monde” : António Borges, que foi nomeado pelo Governo para gerir o programa de privatizações,” tem de explicar que tarefa tinha no banco norte-americano e não poderá entregar o mandato de privatizar as empresas públicas portuguesas ao Goldman Sachs”. Enfim, com tanta “engenharia jurídico-financeira” e pouca vergonha, tudo é possível…

Robin Hood disse...

Excelente artigo, do qual destaco a referência gaspariana ao ocasional squash com o proprietário da empresa falida que há mais tempo sobrevive das suas diatribes económicas, paradigmático da promiscuidade que nos afunda e que não faz as devidas parangonas neste nosso regime corporativo.