domingo, 7 de novembro de 2010

Contra os economistas austeritários

“De tudo o que se lê, ouve ou se tevê, fica a impressão de que Portugal seria governado por génios caso não houvesse eleições...”

José Medeiros Ferreira

Não se trata tanto de prescindir de eleições, mas sim de anular os seus efeitos, garantindo a adopção de políticas que dificilmente seriam aprovadas numa disputa democrática. É por isso que os génios da economia suspiram pelo FMI. Na realidade, hoje o FMI limita-se a dar cobertura à União Europeia, ou seja, ao eixo franco-alemão que comanda o fundo europeu. Muito conveniente politicamente para impor as chamadas “reformas estruturais”, de que fala o economista Pedro Santa-Clara (PS-C), detentor da cátedra Millenium-BCP de finança da Nova, um dos que anseiam pelo FMI, no Público de ontem. PS-C nem sequer apresenta ou defende as tais “reformas estruturais”. Não é preciso. Basta referir Borges e Blanchard do FMI. É o famoso argumento de autoridade.

As inanidades interesseiras do primeiro sobre o sistema financeiro são conhecidas e o Jorge Bateira já as escrutinou. Os resultados da sua vitória estão no gráfico: passagem de um sistema financeiro administrado para um sistema financeiro liberalizado igual a recomeço das crises financeiras. Uma maravilha da melhor economia ortodoxa. O segundo, que já aqui critiquei, defende cortes salariais profundos em Portugal, um país onde o salário mediano é pouco superior a 700 euros e onde a evolução dos salários reais tem estado, a custo, alinhada com a evolução da produtividade, não contando com as abismais desigualdades salariais que tornam isto enganador.

É para assegurar os cortes salariais continuados que serve a fraudulenta retórica da rigidez do mercado de trabalho: medo, desigualdades e maior poder patronal para transferir custos sociais para os trabalhadores da base. PS-C declara que o FMI anda muito preocupado com o crescimento desde a crise asiática. É verdade que a desastrosa realidade tem alguma força e que o FMI, perante o abismo económico, defendeu uma politica de estímulos para as economias dos seus principais accionistas e até, heresia, sugeriu que os controlos de capitais, que, felizmente, se generalizam, poderiam ter alguma utilidade para os países em desenvolvimento. Sinais contraditórios, como sublinha a economista Ilene Grabel num excelente artigo.

No entanto, não nos deixemos enganar pelos economistas austeritários. A Grécia é invocada. Da Grécia ao Leste Europeu, o FMI tem precisamente ajudado a UE a impor as mesmas receitas de sempre com os mesmos resultados de sempre para os países que não pesam na estrutura accionista do fundo: brutal austeridade assimétrica, desemprego de massas e captura pelo capital financeiro das partes apetecíveis da economia. Nada que já não esteja a ser posto em prática em Portugal com todo o afinco. Mas esta gente nunca está satisfeita. A chamada doutrina do choque quer trancar as conquistas orçamentais da economia do medo para sempre.

Que fazer? Resistir colectivamente, roubar a expressão reformas estruturais e passar à ofensiva à escala europeia e nacional: controlo público dos capitais e do crédito, política industrial, direitos laborais e poder para os sindicatos, maior progressividade fiscal. Há tanto a fazer para civilizar e modernizar a economia.

3 comentários:

salada religiosa disse...

controlo público dos capitais e do crédito, política industrial, direitos laborais e poder para os sindicatos, maior progressividade fiscal.

Não foi o que se fez na década de 70?

As gráficas ganhavam milhões de contos com a impressão de propaganda sindical


e os funcionários passamos a barreira dos 3 milhões para garantir o pleno emprego?

para não gastar $ com a impressão de notas novas
podiamos reciclar as do monopólio
ou estabelecer a carica
como moeda nacional

ou a laranja, há 20mil tones
ai uns 100 milhões de laranjas que irão cair das árvores ou apodrecer nelas sem serem apanhadas

burocratas

Anónimo disse...

"poder para os sindicatos"

isto e que nao.

Anónimo disse...

Ó salada não caia na tentação e/ou mistificação de que a social democracia é igual ao comunismo. Não foi isso que se fez nos anos setenta. Com certeza prefere o mais poder nos patrões que já têm o estado refem e desemprego em larga escala para baixar os salários? Então os sindicatos não têm de lutar pelos direitos dos trabalhadores que naturalmente estão em desvantagem quando tentam negociar em nome individual? Quer transformar portugal numa China? Ou numa Índia? Pelos vistos se há comunistas o senhor é um deles. Porque na China como na ex USSR quem manda é o dinheiro e o poder. E produz-se á custa da repressão social e laboral. Se é isso que pretende então estamos mal. Quanto á impressão de notas ela é de facto útil. E poderia perfeitamente ser feita. O euro no valor que está só benefecia duas ou três economias da UE e nós não somos uma delas. Esse discurso da inflação não tem fundamento teórico nem prático. O senhor deve é ser patrão ou banqueiro.