O imortal Aquilino Ribeiro terá dito, cito de memória: “o problema de Portugal não é aplicar-se o provérbio ‘em terra de cegos quem tem um olho e rei’, mas sim quem tem dois olhos furar um olho para poder ser rei”. Ou para poder ser um boneco televisivo.
Não tenho televisão desde 2022 e desde aí que praticamente não perco tempo com comentário político televisionado, mas o algoritmo quer que saibamos o que Francisco Mendes da Silva anda a dizer: “Na esquerda, o BE e o PCP são marcas que estão mortas, o Livre não vai dar muito mais do que aquilo. É preciso uma novidade rápida”.
Tenho duas coisas ou três coisas para dizer. A marca do apoio ao genocídio sionista não sai, Mendes da Silva. E vergonha, economizadora do dislate político na época da mercadorização total, onde tudo é marca, manifestamente não há.
Reparai como vivemos um momento de vivo confronto de classes, com capacidade de organização, resistência e resposta dos trabalhadores contra o pacote laboral. É também (e muito) nesta esfera que se afere da vitalidade (e validade ou reconhecimento) da esquerda e dos seus valores, com o trabalho no centro.
É exatamente neste momento que Mendes da Silva diz ser necessária “uma nova esquerda”.
Percebe-se: a esquerda que temos, sobressaindo aqui os que, por exemplo, organizarão de novo os piquetes de greve e lá estarão em maior número, não permitirá que o pacote laboral de patrões e Mendes da Silva vá por diante. Apoio ao genocídio, belicismo, exploração dos trabalhadores, isto está mesmo tudo ligado.
E se, por absurdo da história, a tradição comunista morresse em Portugal, seria preciso que se juntasse gente boa e subalterna para ressuscitar este iluminismo radical, tão indispensável em tempos que seriam ainda mais brutos e escuros.


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