Em reação a uma tese recente de Francis Fukuyama – “A Coreia do Norte teve razão em relação às armas nucleares” –, o indispensável Arnaud Bertrand comentou:
“A narrativa de Fukuyama sofreu uma verdadeira transformação: do ‘fim da história’ (ou seja, a democracia liberal venceu para sempre) ao ‘a Coreia do Norte tinha razão’. Como dizemos em francês, ‘il n’y a que les imbéciles qui ne changent pas d’avis’ [só os idiotas é que nunca mudam de ideias].”
Não creio que Fukuyama tenha mudado assim tanto, dada a subtileza da sua filosófica da história dita neohegeliana, em modo celebratório, neoconservador. Tenho respeito intelectual por Fukuyama, pela sombra intelectual que lançou, produto da grande derrota da esquerda internacional em 1989-1991.
Como o historiador marxista Perry Anderson nos ensinou, ele que escreveu maravilhosamente sobre os fins da história, incluindo o de Fukuyama, devemos sobretudo engajarmo-nos com os pensadores reacionários mais interpelantes. Para lá deste, o meu inimigo mais genial é F. A. Hayek.
Este último nunca mudou de ideias desde a juventude e infelizmente continua a desencaminhar muitos jovens, até dada a potência do dinheiro que está ao serviço da divulgação do seu pensamento. Penso sempre na comparação com o economista social-democrata Gunnar Myrdal, “Nobel” no mesmo ano que Hayek (1974), infelizmente hoje bem menos influente. Mas tudo muda.
Estou a pensar nesta questão da mudança e da influência e lembro-me de Bruno Maçães. A linguagem é agora assumidamente católica: será que anda a redimir-se pelos seus pecados colaboracionistas com a economia liberal que mata da troika, enquanto Secretário de Estado dos Assuntos Europeus? Houve “estruturas de pecado” que permaneceram por cá desde aí.
Sim, é uma redenção anti-imperialista rara no nosso país. Conheço outro liberal com um percurso assim, mas que vem de mais longe, tendo já sido um patriota durante a troika, bem me lembro, e um ecologista de sempre, por quem tenho grande admiração: Viriato Soromenho Marques, que ainda recentemente escreveu para a Vértice e participou num debate sobre paz do CPPC. Não conheço muito mais liberais vivos que, em Portugal, tenham feito este tipo de percurso luminoso, infelizmente.
Não escrevo com qualquer autossuficiência, note-se. Se todo o mundo é composto de mudança, não sou diferente, afinal de contas.


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