“Ser internacionalista é saldar a nossa dívida para com a humanidade”, já dizia Fidel Castro, cujos cem anos se celebram este ano. Se a coligação Epstein colocar o pé em Havana, graças ao crime contra a humanidade que está a cometer, será uma catastrófica derrota para o povo cubano, para o campo anti-imperialista mundial. Também por isso, Cuba não está só.
No domingo passado, na Voz do Operário, em Lisboa, muitas centenas de pessoas participaram num dia internacionalista. De manhã houve uma estimulante conferência, com cerca de uma dezena de intervenções, à tarde um concerto, com a presença entre outros, de Vitorino e do Quinteto Habanero.
Na conferência, numa intervenção realista utópica, o embaixador de Cuba em Portugal, José Ramón, afirmou: “Não se trata de repetir slogans de Fidel, mas de emular a sua capacidade de julgamento crítico, reconhecendo erros, estabelecendo metas de trabalho concreto, de modo a empurrar os limites do possível”.
Por sua vez, Paulo Raimundo fez a comparação que se impunha: “Enquanto outros distribuem bombas pelo mundo, Cuba distribui médicos e vacinas; enquanto outros impõem bloqueios, sanções, a guerra e a exploração, Cuba dá o que tem e não tem de solidariedade e cooperação aos povos, e se assim o é, então esta é a hora para que esses povos e todos os povos do mundo se mobilizem pelo povo Cubano.”
E deixou o apelo unitário: “A solidariedade com o povo cubano não é apenas um dever de quem se identifica com os valores e ideais da sua Revolução socialista, é um dever de todos quantos abraçam os valores da verdade, da liberdade, da justiça, da soberania, da democracia, da paz, desde logo dando ainda mais força e de forma clara à campanha nacional em curso ‘Por Cuba. Fim do Bloqueio’”.
Manuela Mendonça, da FENPROF, sublinhou o exemplo de Cuba na democratização da educação, centro de um projeto de desenvolvimento humano que começou nas campanhas de alfabetização logo nos anos 1960, circunstanciando os impactos brutais da cada vez mais criminoso bloqueio na erosão da base material do sistema educativo. Sim, também o melhor sindicalismo é solidário e logo internacionalista.
Finalmente, e para não me alongar mais, Raquel Ribeiro, professora de história ibero-americana na FCSH, centrou-se no pensamento crítico de Fidel, com uma comparação reveladora:
“Fanon que morreu antes da Argélia independente, Cabral morto antes da independência da Guiné-Bissau, Lumumba assassinado logo após tomar posse podem ser lidos, citados, canonizados pela academia liberal. Dirigentes que exerceram o poder com todas as suas contradições (como Lénine, Fidel, Mao ou Ho Chi Minh) tornam-se um problema, um inconveniente.
[Certa] academia ocidental (e grande parte da esquerda que dela se alimenta) deseja o revolucionário como mártir, não como aquilo que ele deve ser: actor e agente de uma revolução. Deseja o momento insurrecional como espetáculo, não como construção de um processo quotidiano. Precisa de heróis que não tenham governado, porque governar implica, inevitavelmente, errar. E porque tudo no poder é contradição é que parte da esquerda ocidental precisa de canonizar quem nunca o exerceu, pois, como diria Lénine, fora do poder tudo é ilusão.”


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