Uma leitura da biografia de AB [António Barreto] atenta aos pontos de contacto com uma série de figuras criadas por Eça de Queiroz pode ser discutível, mas tem a vantagem de alertar para a necessidade que existe de qualquer autor de uma narrativa, historiador de ofício ou não, conseguir controlar melhor o que escreve e os vários sentidos da sua prosa. É que a ingenuidade narrativa de MFB [Maria de Fátima Bonifácio] não resiste ao confronto com a escrita de um Eça, que sabe tirar partido da ironia, das ambiguidades e dos duplos sentidos. A falta de cruzamento de fontes, de instrumentos de prova, também debilita o livro. AB não tem responsabilidade, pois não escreveu, nem quis autorizar, apenas “deu sinais de que no essencial se revia no que eu escrevera” (MFB dixit, p. 19). Foi MFB, sem dúvida com boas intenções e com uma admiração genuína por AB, que alcançou um resultado inesperado, pois acabou por aproximar, injustamente, AB de Cornuski, Pacheco, Fradique e Sturmm.
Em jeito de singela homenagem a Diogo Ramado Curto, historiador e intelectual público, deixo um excerto de uma deliciosa recensão, uma das muitas que escreveu. No país da elite pequenita dos salamaleques, a que confunde, por falta de hábito, crítica com ataque pessoal, a sua contundência culta vai fazer falta. Concordando ou discordando, era sempre um prazer lê-lo, até porque aprendia. Até sempre.


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