terça-feira, 21 de outubro de 2014

O que nos espera no futuro próximo

A economia europeia está a caminho da terceira queda desde 2008. A tensão entre a Alemanha (presa à lógica da austeridade por motivos políticos, ideológicos e constitucionais) e o eixo Franco-Italiano (onde não se pretendem prosseguir políticas expansionistas, apenas ter mais folga para aplicar a contenção orçamental) sugere que não são de esperar grandes mudanças na estratégia europeia de lidar com a crise. Os ‘testes de stress’ do BCE ameaçam expor a fragilidade do sector bancário europeu. O crescente voluntarismo do BCE nos mercados de dívida pública está a acentuar as resistências na Alemanha e a pôr em causa a própria legalidade da intervenção protagonizada por Draghi. Face a tudo isto, os investidores internacionais voltaram a ficar nervosos e as taxas de juro ameaçam voltar a subir – apesar de uma política monetária voluntarista sem precedentes na zona euro e dos riscos de deflação (que levam habitualmente os investidores financeiros a aceitar taxas de juro mais reduzidas).

Os mais optimistas – que, geralmente, fazem tanta falta quanto os cépticos – vêm sinais de esperança nalgumas paragens. Na intenção declarada por Juncker de pôr em marcha um grande plano de investimentos de nível europeu. Na tendência para a desvalorização do euro face ao dólar (que poderia dinamizar as exportações europeias e contrariar a tendência de deflação). Na disponibilidade do Fed para adiar o aumento das taxas de juro nos EUA (o que ajudaria a manter os juros baixos também na zona euro). Ou, ainda, nas pressões que crescentemente são feitas sobre o governo alemão para que estimule o consumo e o investimento doméstico.

E, no entanto, o governo alemão mostra-se disposto a levar ao limite a sua intransigência quanto a aumentos de despesa pública, no que está limitado pela própria constituição e pela desaceleração da actividade económica. Os projectos de Juncker continuam à espera de uma fonte de financiamento. A desvalorização do euro tem poucos impactos no conjunto da economia europeia (que é relativamente fechada ao exterior), para além de acentuar as tensões internacionais relacionadas com os excedentes comerciais que a UE já hoje apresenta. O impacto de uma desvalorização do euro poderia ser maior em pequenas economias abertas, não fora o facto de estarem afundadas em dívida privada e pública (o que condiciona o investimento). E as baixas taxas de juro, bem como a liquidez quase ilimitada, que o BCE assegura aos bancos europeus há quase três anos, mostra-se cada vez menos eficaz no relançamento da economia.

Quem ainda acreditava que a partir daqui as coisas só poderiam melhorar vai ter de rever a sua posição. E nós todos teremos de nos preparar para escolhas difíceis.

6 comentários:

Rukka disse...

Só uma pergunta se me é permitido, Ricardo. Se os investidores ganham com altas taxas de juro, porque é que se diz que eles ficam nervosos ou instáveis, se afinal de contas tudo o que desejam é precisamente isso mesmo? Não entendo como é possível resolver um problema onde quanto pior, melhor(pra eles que afinal são quem manda)

R.B. NorTør disse...

Quer dizer... Ver esperança no mesmo Juncker que nomeia o Katainen para Vice-Presidente com a área do crescimento (ou o Tibor para a Cidadania, o Johnatan Hill para regular os mercados financeiros, o Canete para o ambiente, etc) é mais do mesmo surrealismo que acha que gente com menos dinheiro no bolso, vai gastar mais. Nada de novo, mas tudo alucinado.

Jose disse...

Dívida Pública da Alemanha 78,4% do PIB (2013).
É pouco?

Anónimo disse...

A questão central do post é a chamada à razão dos que auguravam a melhoria das condições económicas após o processo criminoso austeritário )que permitiu encher os bolsos aos credores e aos especuladores, mas que não resolveu nenhum dos nossos problemas).

Por mais que um ou outro germanófilo o queira não se trata duma ode a merkel ou à alemanha.

Por cá, em plena ditadura, alguns dos boçais companheiros ideológicos salazaristas cantavam as mesmas odes à alemanha.
E queriam seguir-lhe também o exemplar exemplo polítivo.

De

Antonio Cristovao disse...

Excelente conselho. Só não consigo acompanhar o raciocino de quem assaca as culpas do mau desempenho da França, Italia e acolitos á Alemanha. Ou de que força os outros a endividar-se e germanizar a UE.

Anónimo disse...

Mau desempenho da França face à Alemanha?

Há por aí blogs que não informam.Manipulam e mentem.Uma tristeza

Ora vejamos os dados reais pela boca do Alexandre Abreu:

" Se é certo que o desempenho económico da economia alemã é bastante superior ao das economias da periferia da zona Euro, a verdade é que, pelo menos na última década, não deixa de ser apenas sofrível: o crescimento económico real da economia alemã entre 2002 e 2013 mal ultrapassou, em media, 1% anual. A diferença face à economia francesa, em termos de taxa media de crescimento económico real nos últimos dez anos, é de escassas décimas de ponto percentual - mas poucos seriam aqueles que o adivinhariam tendo em conta o discurso habitual acerca da "robustez alemã e da esclerose francesa"

A "salada" está incompleta se não virmos que as oligarquias nacionais funcionam de acordo com os interesses próprios destas...que são os interesses comuns aos da alemanha e congéneres.

Outras palavras para a traição das ditas elites.Nada de novo à face da terra.

De