sexta-feira, 6 de setembro de 2013

A era dos investidores

Desde Junho de 2011 o governo tem promovido a desacreditação de todos os serviços públicos: da saúde à educação, da sustentabilidade da segurança social às “vantagens” da privatização da água. Já faltam menos de dois anos para as eleições e o governo ainda tem muito para fazer. Vai ser rápido.

Terão os dois anos anteriores sido suficientes para nos extenuar ao ponto de não reagirmos? As expectativas em relação ao futuro perderam-se tanto que a maior parte das pessoas nem ousa pensar em planos. Para todos nós, um ano passou a ser o longo prazo e cinco anos são o abismo. Até lá, quantos direitos e serviços perderemos, quantas mais pessoas da nossa família estarão a passar dificuldades, quantos amigos terão ido embora?

Gaspar tinha razão quando dizia que se estava a entrar numa nova fase da economia portuguesa, a que ele chamava a fase do investimento. De facto, haverá uma nova fase de investimento, mas não será o investimento de que precisamos. Será o investimento dos grupos económicos (essencialmente estrangeiros, mas também portugueses) a comprarem o que resta do setor empresarial do estado, a apoderarem-se de bens comuns e naturais, e a criarem sistemas para pobres e para ricos em todas as dimensões da nossa vivência coletiva.

Será o período em que nós próprios passaremos a vida a ser investidores. Investiremos na nossa educação ou na dos nossos filhos, para que um dia consigamos continuar a pagar por novos serviços. Investiremos na nossa saúde e em seguros, porque um dia eles poderão ser a forma de escaparmos a um setor público desprovido de condições de qualidade para servir todas as pessoas e de forma igualmente digna. Investiremos em seguros de poupança reforma para garantirmos que não ficamos na miséria que nos anunciam para a nossa velhice, esquecendo irresponsavelmente que a última crise financeira derreteu milhares de poupanças dessas, nos Estados Unidos e pelo mundo fora.

Até às próximas legislativas as classes altas terão a oportunidade de investir na privatização das águas, dos correios e da TAP, em cada vez mais escolas e clínicas privadas. As outras pessoas ganham o direito de lhes pagar por isso. E quanto mais o sistema privatizado for generalizado, mais fácil será no futuro o discurso de que o estado terá de proteger essas empresas para proteger o acesso aos serviços.

Enquanto isso, a maioria de pessoas com empregos precários ou sem emprego, que mal têm dinheiro para sobreviver, quanto mais investir (nem que seja na sua própria vida), serão cada vez mais, na vida económica e nos media, “os outros”.

Servir os interesses dos cidadãos é assegurar serviços públicos de qualidade que garantem igualdade entre todas as pessoas. Isso sim, é investir: na saúde, na qualificação e no bem-estar da população, que é muito mais importante para o desenvolvimento da sociedade (e da economia) do que proteger o investimento privado. Nos próximos meses, a luta pela sua preservação dos direitos e dos serviços públicos terá de ser mais dura do que nunca!

2 comentários:

democracia participativa disse...

Parabéns pelo post! É mesmo isso que terá de acontecer para nosso bem!

Alvaro disse...

"esquecendo irresponsavelmente que a última crise financeira derreteu milhares de poupanças dessas, nos Estados Unidos e pelo mundo fora"

É um dos temas que mais me chama a atenção.
Ainda noutro dia, no programa do impagável Medina Carreira, este referiu que a Segurança Social não tinha guardado o dinheiro dos descontos para as reformas. A Judite de Sousa ficou chocada e perguntou o que é que tinham feito ao "seu" dinheiro.
Medina Carreira respondeu "gastaram-no"!!!
Em nenhum momento se referiu que foi gasto a pagar as reformas dos nossos pais.
E, assim, vai fazendo caminho a ideia de que cada um deve ter a sua conta e será dos rendimentos dessa conta que a reforma será paga.
Nunca se fala do que tem acontecido por todo o lado, ou por fraude, Robert Maxwell ou Enron, por exemplo, ou por crise, em que estes fundos se evaporam deixando os seus contribuintes a arder sem reforma nenhuma.
No tempo de Pinochet, no Chile, creio que se privatizaram todas as reformas num processo muito gabado na altura. Outro dia vi referências a que estas reformas estão pela hora da morte e que o Estado está a ser pressionado para intervir. Como nunca mais ouvi falar disto não sei se é verdade, mas o que sei é que há muita gente em muitos países que descontaram a vida inteira e agora não têm reforma nenhuma. Era bom que se falasse um pouco mais deste tema.