quarta-feira, 24 de abril de 2024

Mitos do ensino privado com aparência de jornalismo

«Colégios privados sem vagas para novas inscrições», noticiava há dias o DN, acrescentando, em subtítulo, que a «falta de professores nas escolas públicas» seria uma das causas deste afluxo no privado e que o «perfil das famílias que recorrem a colégios tem mudado, havendo cada vez mais pais de classe média baixa a procurar alternativas ao público». Procura-se na notícia a origem da informação e percebe-se que a mesma se cinge a declarações de Rodrigo Queiroz e Melo, diretor da Associação do Ensino Particular e Cooperativo (AEEP) e a dirigentes de escolas privadas, sem que qualquer fonte ou série de dados estatísticos a sustente.

É sabido que Portugal, tal como muitos outros países, se confronta hoje com um problema de falta de professores. Mas daí a considerar que o ensino privado está a salvo desse défice, atraindo um número crescente de docentes, vai a distância de uma aldrabice. De facto, se o DN não se limitasse a servir de pé de microfone, no momento publicitário que generosamente concedeu ao ensino privado, constataria, numa simples consulta da página da DGEEC, que é nesse subsistema, e não na rede pública, que o número de docentes tem vindo a diminuir.


Com efeito, entre 2015 e 2021 o ensino privado perdeu cerca de mil docentes, tendo o seu número aumentado em quase 8 mil no ensino público no mesmo período, permitindo assim recuperar parcialmente o corte de 30 mil educadores e professores a que a maioria de direita da PAF o sujeitou, entre 2011 e 2015, com o argumento de que havia professores a mais.

E quanto à alegada alteração do perfil dos alunos do ensino privado, no sentido de haver «cada vez mais pais de classe média baixa» a tentar inscrever os filhos em colégios, faria bem Queiroz e Melo, e a associação que representa, em fornecer dados sobre o perfil socioeconómico dos seus alunos, de modo a fundamentar a sua afirmação. Porque o que sabemos, há muito, é que as escolas privadas não tornam pública essa informação, de modo a preservar a ilusão da sua supremacia em termos de resultados, contribuindo para a fraude dos rankings, nos quais ainda há quem acredite.

3 comentários:

José Cristóvão disse...

E assim o que outrora foi um jornal de referência se afunda mais um pouco...

Emilio Antunes Rodrigues disse...

Querem fazer-nos crer que foi a internet que liquidou os jornais em papel mas a verdade é que foi a sua descredibilização a falta de pluralismo, o afunilamento ideológico ao serviço exclusivo da ideologia neoliberal que levou as pessoas a deixar de os ler, deixámos de acreditar neles e mesmo não tendo a maioria consciência disso deixamos de comprar a informação que só interessa ao patrão.

Anónimo disse...

...e para quando uma analise quantitativa/qualitativa sobre os resultados escolares nos primeiros 2 anos da universidade, em cursos com media de entrada elevada, entre alunos com origem no ensino publico e no ensino privado?