quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Quem tem lucro não pode despedir


Foi o Bloco de Esquerda o partido que afixou um cartaz com esta frase. Dificilmente poderia ter sido mais certeiro.

Quem é capaz de discordar? Ao próprio Fancisco van Zeller parece que despedir com lucro “na situação actual [é] um bocadinho mais vergonhoso”. E parece bem.

Esta não é ‘apenas’ uma questão de moralidade, capaz de fazer corar um bocadinho o presidente da CIP. Despedir com lucro agora é um daqueles casos em que o zelo pelo interesse próprio degenera em tragédia colectiva. Despedir para o empresário individual pode parecer uma boa ideia. No entanto, para todos os empresários, cada trabalhador despedido é um cliente a menos.

Mas nem os donos empresa que compreendem esta ideia simples deixarão de despedir por isso. Eles estão trancados numa lógica da acção colectiva que os obriga a fazer o que sabem ser errado: se não forem eles a despedir serão outros.

Não despedirão com lucro se a isso forem obrigados e se souberem que a isso todos estão obrigados. Nesse caso, surpresa das surpresas, poderiam mesmo apoiar a legislação que os impedisse de despedir com lucro.

Coisas da acção colectiva porventura incompreensíveis para os nossos governantes.

17 comentários:

Anti PS Neoliberal disse...

É vergonhoso mas só um bocadinho, coisa sem importância, não são eles que vão deixar de pagar a casa o carro tirar os filhos do colégio ou tão somente comer.

Hevel disse...

As empresas não são sucursais da Segurança Social.

Miguel Fabiana disse...

Hevel,

Mesmo na defesa dos seus próprios interesses, se for "empresário", essa verdade de La Palice não consegue explicar nada de interessante, a não ser algum tique provinciano e ultramontano, fora de época. Caso seja empregado por conta de outrem...a sua afirmação explica-se per se, ie, não tem explicação.

Ainda não percebeu a responsabilidade social, de factu e não só de juris das empresas e organizações empresariais?!? Não é só quando estas pagam impostos ou quando "fogem" a eles... tem que perceber que a selvajaria do capitalismo de casino está morto e já cheira mal...agora... não vale a pena invocar Stalin e Mao para invocar velhos medos saloios.

Fique bem!

Miguel

João Pinto e Castro disse...

Eu discordo. Só quem não faz a mínima ideia do que é gerir uma empresa pode propor uma lei absurda como essa.

João Pinto e Castro disse...

Conviria notar que Van Zeller também disse o seguinte: "Tem de ser visto caso a caso e não se pode atirar pedras a empresas que estão muitas vezes a fazer o melhor que sabem e a tentar proteger os trabalhadores". Ele está certo, evidentemente.

Anónimo disse...

Isto de "quem" tem lucros não pode despedir só pode ser uma anedota. A seguir, seria: "quem tem lucros não vai contratar" e "quem tem lucros tem que deixar de ter lucros". Que ideia mais ridícula.

Anónimo disse...

Mas o que é a responsabilidade social? Onde está prevista? No Código das Sociedades Comerciais não está. Deve-me ter escapado.

Anónimo disse...

É preciso atirar de novo meio mundo para a miséria para se percber que o único sistema que, apesar dos enormes defeitos, enriqueceu povos e nações foi o sistema capitalista? Conhecem outro sistema que o tenha permitido? Tenham paciência...

Miguel Fabiana disse...

Caro João,

Eu não estava a falar sobre medidas à mão de um qualquer contabilista mangas de alpaca. Não quero aqui puxar dos meus galões (o Prof Coimbra de Matos tem uma frase muito interessante sobre "puxar dos galões") porque isso não nos leva a lado nenhum, mas a minha experiência profissional com mais de 19 anos a gerir equipas de alto rendimento e empresas da área tecnológica, levam-me a afirmar que o despedimento é a forma mais básica de destruir o principal activo (financeiro e não só) das organizações...é tão fácil faze-lo que qualquer um, sem experiência e sem formação pode faze-lo. Uma boa gestão foge dos despedimentos! Como estamos a falar de despedimentos fraudulentos ou despedimentos em empresas que apresentam lucros...não me parece absurdo o Estado Português intervir em casos de gestão danosa ( então os neoliberais da treta não andavam a dizer que estávamos na era do conhecimento e tal...) de uma organização!

Ainda não consegue aceitar que o padeiro do Senhor Adam Smith afinal andava a vender paposecos cheios de toxinas? os despedimentos fraudulentos são como as offshores: nem que se tenha que recorrer a leis, mas não se pode permitir mais o seu uso!

Afinal o regabofe acabou e não há volta para trás! Não estou sozinho quando afirmo que o regabofe neoliberal acabou! ...não sente o cheiro da decomposição (Madoff, BPP, BPN...)?!?

Miguel

Miguel Fabiana disse...

Caro Anónimo,

Gostava de trocar umas ideias consigo, mas como está anónimo na identidade, continua anónimo nas ideias - lamento, mas fico por aqui.

Miguel

Anónimo disse...

É sobretudo um cartaz estranho para um partido que se reclama da esquerda.
Quem tem lucro não pode despedir.
Quando? Agora, que chegou a crise, ou nunca?
E quem não tem lucro? Pode despedir?
Afinal, onde começa e acaba a esquerda? Ou será que, perante a crise, a direita e a esquerda podem andar de braço dado?
E que tal usar um pouco de rouge como van Zeller?

Carlos Santos disse...

Eu sugeria que se visse como o pior ainda pode suceder se a UEM implodir com o default do leste:
http://ovalordasideias.blogspot.com/2009/02/europa-de-leste-reforco-da-uniao-ou.html

GL disse...

Só num ex-país de leste como o nosso, com uma constituição que é motivo de festa para os comunistas, atrasado, com capitalistas da treta e toda a gente a depender do Estado é que alguém pode sequer supor propor uma lei estapafúrdia como essa.

José M. Sousa disse...

Eu pergunto-me se a maior parte das pessoas que manifestam tamanha indignação com esta proposta do Bloco já se aperceberam realmente da dimensão e natureza da crise que se está a desenvolver pelo mundo fora. Estamos numa espiral deflacionista que tem que ser rompida, a lógica individual das empresas agrava ainda mais o problema. Esta espiral descendente significa menos procura, mais desemprego, menos procura. Sem procura, as empresas não se aguentam. Se aquelas que têm lucro desatam imediatamente a despedir, só agravam a situação geral e, a prazo, a sua própria. Cabe ao Estado uma visão sistémica que previna efeitos ainda mais perversos, rompendo o círculo vicioso.

D., H disse...

A proposta do Bloco está a incomodar algumas pessoas, como se se tratasse de uma ideia insensata. Nestas questões percebe-se a contradição, as diferentes perspectivas sobre desenvolvimento.

José M. Sousa disse...

Vejam só que heresia, o Bispo do Porto parece estar de acordo com esta proposta:

aqui e e aqui

Miguel Fabiana disse...

Caro GL,

"Reductio ad Sovietum" = bullsheet !

Sem mais comentários.
Miguel