segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Afinal não era assim tão boa ideia flexibilizar a economia

Andaram nas últimas três décadas a tentar convencer-nos que a flexibilização das economias - ao nível dos salários, das relações laborais, da fixação dos preços, etc. - era a melhor receita para o crescimento económico. Toda a Estratégia de Lisboa foi construída seguindo essa mantra: economias mais flexíveis conseguem aproveitar melhor as 'oportunidades da globalização'. Ironia da história, hoje percebe-se que os países que menos cederam ao discurso da flexibilização são aqueles que estão em melhor posição para resistir à crise actual.

Paul De Grauwe, reputado economista monetário, explica-nos porquê, num artigo publicado hoje pelo Financial Times. Estamos hoje perante um problema de 'deflação da dívida': se por um lado assistimos à queda do valor dos activos (acções e outros títulos), dos preços e dos salários (directamente ou através do aumento do desemprego), as dívidas acumuladas pelos agentes económicos são fixas em termos nominais. Ou seja, tanto as empresas como as famílias têm dificuldades cada vez maiores em pagar as suas dívidas, o que leva à contracção maior do consumo e do investimento. O resultado é uma espiral descendente de procura, salários, emprego e preços, que promete arrastar as economias para uma crise prolongada. A espiral é tão mais acelerada quanto mais flexíveis forem as economias - os salários descem mais rapidamente, o emprego contrai-se mais rapidadmente, os preços caem mais rapidamente, e os agentes económicos mais rapidamente se encontram numa situação de incumprimento no pagamento das dívidas contraídas, o que resulta em maior quebra de preços, salários, emprego...

Pelo contrário, em países onde é mais difícil 'ajustar' os salários às condições correntes, onde há mais entraves ao despedimento, onde os mercados de produtos são menos flexíveis - e, já agora, onde o acesso a subsídios de desemprego generosos e prolongados é mais favorecido - a espiral descendente da dívida será menos acentuada e a crise menos feroz. Vai-se tornando cada vez mais claro que não é assim tão mau introduzir alguns justos e saudáveis elementos de 'rigidez' nos sistemas económicos.

4 comentários:

João Marco disse...

1. Claro que o índice de citações de artigos do FT neste bolg aumenta a olhos vistos. Digamos que entre os dois órgãos de gestão da crise capitalista se formou uma relação que diria... simbiótica.

!Os Ladrões querem tanto salvar o Capitalismo, como o quer o FT! Que tirada demagógica, a minha!

!Pois, qual quê! Estes são mas é economista eclécticos, afinal o FT também lhes ensina economia; tal e qual como aos mandantes das finanças. E depois o argumento envolve "espirais" e "rendimentos nominais" e "flexibilidades" e, imaginem "deflação da dívida" ---- é melhor deixar isso aos peritos! Aqueles que o FT afinal congrega, selecciona e distribui na arena das ideias onde naturalmente se inclui a blogosfera!

2. Agora tudo é mau! O NEOLIBERALISMO, coisa em que muita boa gente ainda não acredita, é uma coisa mesmo nefasta! Acreditem-se pois neste artigo, a "flexibildiade dos salários" é danosa e perniciosa; vem no FT, é transposto para aqui! TODA A RIQUEZA DO ECONÒMICO ESPREMIDA .... .. dá,dá origem a umas duas boas doses de sumo de laranja.

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A PARTIR DE 2005 DEVEM SER RESULTADOS AINDA MAIS VERGONHOSOS!

Carlos Santos disse...

Caros,

Sendo os ladrões um blogue de referência, este post é uma boa razão para isso. Parabéns.

Modestamente propus-me um exercício diferente: bater no neoliberalismo usando os argumentos que eles usam. A quem quiser fica o convite:
http://ovalordasideias.blogspot.com/2009/02/defesa-dos-estimulos-publicos-no.html

Wegie disse...

Admirem a prosa deste imbecil:"O que é que podemos então fazer? A alternativa é aproveitar a maior flexibilidade que a crise nos irá proporcionar..".Público 20/02

jopms disse...

Infelizmente, parece que a posição das grandes economias e das pequenas economias abertas é distinta. Para uma pequena economia aberta as vantagens da rigidez são menores (devido à fuga pelas importações) e as desvantagens maiores (perda de competitividade). Além disso mesmo para uma grande economia essa mesma rigidez torna-se uma desvantagem quando surgir a retoma.