domingo, 22 de fevereiro de 2009

Não só preocupados, também perplexos.

Pedro Lains anda preocupado com a possibilidade de as ideias (em geral) dos Ladrões de Bicicletas chegarem ao poder. Só posso dizer: ainda bem! É sinal de que as nossas ideias fazem sentido, o que só pode dar esperança ao País. As que dominaram as políticas das últimas décadas deram nisto, na pior crise desde 1929.

Sim, esta não é uma crise localizada e específica, como sucedeu na Rússia e outros países na sua órbita com uma transição selvagem (‘big-bang’) para o capitalismo. De facto, há na presente crise mecanismos análogos aos da Grande Depressão iniciada em 1929 que têm sido objecto de análise por alguns académicos (ver este).

Um aspecto que tem recebido pouca atenção é a crise da mundividência neoliberal na opinião pública. Ao mesmo tempo que a Nova Depressão mostra o seu rosto, toda uma constelação de ideias, narrativas, valores, crenças que organizavam e davam sentido à vida dos cidadãos vê a sua legitimidade desfazer-se. E um temor religioso toma conta de alguns economistas que, vendo a crise como uma ‘força da natureza’ que estilhaça os seus modelos, ficam desconcertados, perplexos, à espera de “sinais de esperança”.

Em Março do ano passado, um ‘Professor Emeritus’ da Universidade de Toronto referia-se a este aspecto da crise (ver artigo aqui): “Agora, como nos anos 30, o estado tem de intervir para nos proteger a todos da devastação causada pela ganância e incompetência. O mundo dos negócios tem de ser salvo de si mesmo… Tal como nos anos 30, a consequência deste terrível fracasso da livre iniciativa vai levar a uma rejeição generalizada da fé na capacidade e na competência do sector privado. …Muitos porta-vozes dos negócios assistirão a estes acontecimentos com grande frustração e tentarão prevenir-nos contra os perigos da mão pesada, dos controlos sufocantes e dos abusos do poder público e regulador. Lamentavelmente, tal como nos anos 30, ninguém acreditará neles. Se tivessem credibilidade não teríamos esta crise de liquidez.”

Pois … em Março do ano passado parecia ser apenas uma crise de liquidez! Hoje estamos a resvalar vertiginosamente para uma recessão global, insolvência generalizada do sistema financeiro nos EUA, Reino Unido e Irlanda, elevado risco de incumprimento do Estado na Irlanda e outros países (a Islândia foi apenas o primeiro), e uma quebra do nível de preços que ameaça tornar-se deflação.

O que diria, um ano depois, o (insuspeito de esquerdismo) Prof. Michael Bliss? Não vale a pena procurar saber porque Pedro Lains já deu a resposta: “O regime económico – se é que isso existe – não vai mudar. Vai haver ajustes mas não vai mudar.” Agora sou eu que fico perplexo.

6 comentários:

F. Penim Redondo disse...

Já se percebeu que Jorge Bateira, pelo número de professores eméritos que cita, está convencido de que a economia, quiçá o mundo, é uma questão académica.

Acho que nunca foi e parece-me que nunca vai ser.

Os cartógrafos não substituíam os navegadores.
Recebiam as informações da viagem anterior e reordenavam-nas para facilitar a viagem seguinte.

Mas não eram eles que navegavam os mares.

José M. Sousa disse...

Em relação a este último comentário:

“The ideas of economists and political philosophers, both when they are right and when they are wrong, are more powerful than is commonly understood. Indeed the world is ruled by little else. Practical men, who believe themselves to be quite exempt from any intellectual influence, are usually the slaves of some defunct economist.”

ou

“Ideas shape the course of history.”

John Maynard Keynes

Wegie disse...

É muito lindo ser um liberal quando se recebe uma tença do Estado para se estar de cú para o ar (ICS). Assim tambem eu era liberal, sei lá, neocons...

Olho de Lince disse...

As questões económicas são aquelas que suscitam as posições e crenças mais reaccionárias possíveis e até hoje nunca consegui perceber o fenómeno. Por mais que se ateste a falência de determinados modelos de todas as formas trágicas possíveis, ninguém parece disposto a abandoná-los e procurar modelos mais justos, éticos e sensatos. Esta àrea não tem ética, o que é bizarro. Por isso, e por muito custoso que possa ser, o tal saenhor tem razão; não vão haver mudanças no regime económico. Valores mais altos se levantam. Literalmente.

L. Rodrigues disse...

Valores mais baixos se levantam...

Miguel Fabiana disse...

"...devastação causada pela ganância e incompetência. O mundo dos negócios tem de ser salvo de si mesmo… " - é o Capitalismo na sua mais pura e selvática autofagia!

Mas relembro uma frase de Medeiros Ferreira. "Esta crise do capitalismo em nada se deve à luta de classes. Pelo menos do lado do proletariado...".

Os "muros de berlim" do capital caíram com um imenso estrondo, enterrando para sempre a loucura intelectual dos neo-clássicos!

Agora...aos orfãos de Milton Friedman, deseja-se que aprendam que a Economia é mais do que a matemática da econometria e que afinal o Homo Economicus nunca excistiu - era uma fantasia do capitalismo de casino...a mais pura bullsheet!