quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

O inimaginável em vias de se tornar inevitável?

No passado dia 15 Matthew Richardson e Nouriel Roubini, professores na escola de negócios da New York University, argumentavam no Washington Post, a propósito dos maiores bancos dos EUA, que já é tarde demais para não usar a arma letal: nacionalizá-los. Nesse artigo explicam os detalhes de um processo controlado de nacionalização da banca.
Hoje, o mesmo jornal relata afirmações do presidente da Reserva Federal, Ben Bernanke, e do Presidente dos EUA, Barack Obama, que vão exactamente no mesmo sentido. Parece que não é apenas Alan Greenspan que perdeu a fé. A descrença na 'economia de mercado' alastra, agora não só em alguns círculos académicos mas também na alta administração dos EUA.

É bem provável que a equipa de economistas de Obama comece a tomar consciência, embora com relutância, que a salvação de bancos falidos à custa do contribuinte não só é moralmente indefensável como nem sequer é financeiramente viável. E, mesmo que esse caminho fosse tentado, o mais certo seria lançar os EUA (e o mundo) numa 'década perdida' como aconteceu ao Japão.

Também no Reino Unido, face à continuada retracção do crédito, a nacionalização da banca (ao preço actual no mercado, claro) é uma opção abertamente discutida (ver esta posta referida pelo Nuno Teles e este artigo).

No coração do capitalismo neoliberal, o inimaginável estará em vias de se tornar inevitável? Imagino os pesadelos de José Manuel Fernandes, director do Público.

5 comentários:

Ana Paula Fitas disse...

Esclarecedora síntese do problema... um bom contributo para quem quem resiste à interpretação objectiva da crise...

Carlos Santos disse...

O Nouriel Roubini acrescenta hoje que o laissez faire morreu. Com argumentos contundentes. Uma amostra:
http://ovalordasideias.blogspot.com/2009/02/roubini-o-fim-do-laissez-faire-nao-e-o.html

Anónimo disse...

faz-me lembrar o personagem Homer Simpson que enfia o próprio dedo no respectivo olho e ...grita de dor...e torna a enfiar o próprio dedo no respectivo olho e ...torna a gritar de dor...e repete este gesto e o grito de dor....até perceber a relação entre o gesto dele e a dor que sente...

Só que a dor de todos os Homer Simpson neo-liberais está a contagiar a economia, à escala planetária!!!...e o pior é que isso não tem piada nenhuma!

João Marco disse...

Grande prazer orgásmico que deve ser ouvir dizer ao Bernanke, ao Roubini e ao Obmama que a Banca tem que ser nacionalizada!

Como se isso mudasse assim tanto! A transferir a propriedade de Capitais Próprios negativos de privados para o Estado não é lá grande negócio da China. O contribuinte paga na mesma; espera é que não venha a ter que pagar tanto como na alternativa.

Claro que isso é tudo um grande gozo! Pq o sistema financeiro está toda a ir a ZERO! Maus dias para todos os aforradores. Mas meus caros, se a solução é patente, não está no rentier, está onde?


"O Zimbabwe é o país do futuro."
Cortesia socrática.

Anónimo disse...

Antes de ler o comentário que antecede o que escrevo pensei em usar a palavra "orgásmico" também.

É ou não verdade que um ser humano não se importa de ver toda o mundo a desfalecer na vertigem do neoliberalismo para que possa afirmar que, afinal aquilo em que acreditava, não foi uma teoria derrotada? Até onde pode ir o egoísmo de um homem: viver curvado com a derrota de que aceditou em teorias falhadas e vamos todos sobrevivendo, ou explodir em gozo quando os outros falharam, mesmo que isso custe a fome de muita gentinha do mundo, por quem não se consegue nutrir sequer aquilo a que chamamos pena?

E tudo isto me faz ainda uma vertigem maior de pensar em todas as possibilidades históricas que se abriam caso o comunismo soviético tivesse prevalecido sobre o capitalismo.

Isto porque numa febre que trago comigo tenho vontade de ver em que poderia falhar o comunismo e hoje ver-me a mim, geralmente do contra, a pedir mercados desregulados face ao cinzento do Estado enorme. E aflige-me que pudesse não perceber que a alternativa não esteja obrigatoriamente no outro extremo.

Meus amigos, eu, anónimo, não sei em que acredito. Se tenho convicções, tenho esperança; se tenho certezas, tenho vergonha e quero perdê-las.

Este blog tem muita pinta.