segunda-feira, 23 de março de 2026

Quem ganha e quem perde com a crise energética - e como redistribuir a fatura?

Os ataques dos EUA e de Israel ao Irão reacenderam o debate sobre o risco de uma nova crise inflacionista, discutido no último post. A subida do preço do petróleo e do gás natural, desencadeada pelo conflito no Médio Oriente e pelo fecho do estreito de Ormuz, tem efeitos que rapidamente atingem a carteira da maioria das pessoas. Além do impacto direto no custo dos combustíveis, que voltam a aumentar hoje pela terceira semana consecutiva, os impactos indiretos são significativos: quando a energia se torna mais cara, tudo o que depende de energia fica mais caro. Isso é especialmente visível no caso dos bens alimentares, dependentes de fertilizantes produzidos a partir do gás natural e de combustíveis para os tratores e outros equipamentos agrícolas, bem como para o transporte dos produtos.

Neste contexto, vale a pena olhar com mais detalhe para as possíveis medidas de resposta à crise energética. Há três questões que se colocam: como amortecer o impacto da subida de preços no curto prazo, como evitar que as ondas de choque se propaguem e como reduzir a exposição das economias a choques futuros. Além disso, é preciso perceber como se distribuem os custos da crise: quem é mais afetado, quem beneficia e que opções determinam esse resultado. A experiência dos últimos anos fornece-nos pistas para responder a estas questões.

Combustíveis: lançar foguetes e apanhar as… penas?

Existe uma relação direta entre o custo do petróleo e o preço da gasolina ou do gasóleo, que incorporam petróleo refinado. Contudo, essa relação não é simétrica. Quando o preço do petróleo sobe, os preços nas bombas tendem a acompanhar a subida quase imediatamente. Quando o petróleo desce, a descida costuma ser mais lenta. Este fenómeno é conhecido como “rockets and feathers”: os preços sobem como foguetes, mas descem como penas.

Um dos fatores avançados para o explicar tem a ver com os padrões do consumo: quando os preços sobem, as pessoas costumam procurar ativamente os postos mais baratos; quando descem, essa procura tende a diminuir, o que reduz a pressão sobre as empresas para baixar os preços. No entanto, o motivo mais vezes identificado é o que se prende com a estrutura do mercado: num setor dominado por um número reduzido de grandes empresas, há mais margem para aumentar preços em momentos de crise e para os manter elevados durante algum tempo após os custos voltarem a descer.

O resultado é que o choque energético acaba por traduzir-se em margens mais elevadas ao longo da cadeia de distribuição. Durante o último surto inflacionista, essa dinâmica coincidiu com lucros recorde das grandes petrolíferas, que registaram lucros de $281 mil milhões e alcançaram recordes na distribuição de dividendos aos acionistas. Com a atual subida dos preços dos combustíveis, é expectável que as principais petrolíferas voltem a registar lucros extraordinários.

A experiência da crise energética de 2022-2023 deixa poucas dúvidas sobre quem beneficia quando os preços dos combustíveis disparam. Durante o choque gerado pela guerra na Ucrânia, as grandes empresas de petróleo e gás obtiveram lucros recorde, e a principal fatia dos ganhos foi captada pelo 1% mais rico da população, o que essencialmente compensou o efeito da inflação sobre os seus rendimentos. Por outro lado, o agravamento do custo de vida é maior para quem ganha menos e gasta uma parte maior do salário ou da pensão em bens essenciais como a energia. Em Portugal, de acordo com os dados mais recentes, o peso das despesas com eletricidade, gás e combustíveis no orçamento dos 20% com menos rendimentos era quase o dobro do peso para os 20% mais ricos.

O conflito atual no Médio Oriente coloca-nos diante de um cenário semelhante: os preços do barril de petróleo já ultrapassaram os 100 dólares em vários dias, a cotação bolsista das petrolíferas disparou e as margens de refinação - isto é, a diferença os custos de aquisição do petróleo e o preço de venda dos produtos refinados - voltaram a subir a pique. À semelhança de 2022, a subida dos combustíveis vai afetar os preços da maioria das atividades, uma vez que são necessários para todo o tipo de veículos, desde os tratores usados na agricultura às carrinhas e camiões que transportam matérias-primas e mercadorias. Além disso, uma nova vaga de lucros extraordinários vai traduzir-se numa transferência de rendimento de quem gasta mais em energia - sobretudo quem ganha menos - para o topo da distribuição.

 
Fonte: Bloomberg

Não dar gás aos preços da eletricidade

Um segundo aspeto, menos visível mas igualmente relevante, diz respeito à forma como se formam os preços da eletricidade. O mercado elétrico europeu funciona com base num sistema de preços marginais. De forma simplificada, isto significa que o preço da eletricidade é determinado pela última central necessária para satisfazer a procura em cada período do dia (o que, muitas vezes, corresponde a uma central a gás), como se vê no gráfico abaixo.

 

Isto implica que mesmo quando uma parte significativa da eletricidade é produzida por fontes mais baratas, como a eólica, a solar ou a hídrica, o preço final pago pelos consumidores acaba por ser definido pelo custo do gás natural. Em períodos de forte volatilidade do gás, este mecanismo amplifica o impacto das crises energéticas (e gera ganhos extraordinários para as empresas que produzem a custos mais baixos, sobretudo nas energias renováveis). Foi precisamente isso que aconteceu na Europa após a invasão da Ucrânia em 2022: a subida abrupta do preço do gás propagou-se rapidamente aos preços da eletricidade, mesmo em países com uma produção significativa de energias renováveis.

À semelhança do petróleo, o mercado do gás natural também viu os preços disparar nos últimos dias, visto que os países do Golfo pérsico concentram uma parte significativa da oferta mundial de gás. Os ataques recentes de Israel ao campo de South Pars - o maior campo de produção de gás do mundo, partilhado pelo Irão e pelo Catar - e do Irão à instalação de Ras Laffan no Catar - por onde passa um quinto do gás natural liquefeito mundial - estão a ser descritos por especialistas em energia como um cenário preocupante para a produção de gás natural. A Agência Internacional de Energia (AIE) já alertou que este é um choque sem precedentes e que poderão ser necessários vários meses para reverter os danos.

A experiência do último choque energético também nos dá algumas pistas sobre possíveis respostas. No caso de Portugal e Espanha, o “mecanismo ibérico” desacoplou o impacto do preço do gás na formação do preço da eletricidade. Este mecanismo reduziu o impacto da volatilidade do gás nos preços da eletricidade. Apesar dos custos para compensar os produtores, a medida contribuiu para uma redução significativa das faturas da eletricidade nos dois países, como sugerem alguns estudos publicados recentemente (aqui ou aqui).

Além disso, um outro fator importante é o peso crescente das energias renováveis na produção elétrica da península Ibérica. Nos últimos anos, sobretudo em Espanha, a expansão da energia solar e eólica tem contribuído para reduzir a dependência do gás natural. De acordo com um relatório do think tank Ember, “o crescimento da energia eólica e solar em Espanha reduziu a influência dos produtores fósseis mais caros sobre o preço da eletricidade em 75% desde 2019”, um ritmo muito superior a outros países europeus, o que ajuda a explicar porque é que a o país tem registado preços da eletricidade muito mais baixos do que no resto do continente (e que também contribui para o desempenho recente da economia espanhola).

 
Fonte: Ember

O peso crescente das renováveis funciona como um amortecedor em períodos em que os preços do gás disparam. Esse tem sido um dos motivos avançados para explicar o facto dos preços da eletricidade na Europa estarem, até agora, muito longe da subida registada na última crise energética. Ainda assim, os países não estão livres de risco caso o conflito se prolongue e o gás continue a encarecer.

É preciso subir as taxas de juro?

Face ao risco de propagação dos custos da energia a toda a economia, os bancos centrais começam a discutir a necessidade de voltar a aumentar as taxas de juro. A lógica é conhecida: assumindo que as pressões inflacionistas resultam de uma economia “sobreaquecida”, a subida das taxas de juro tem como principal objetivo arrefecê-la, tornando mais caro o recurso ao crédito e reduzindo o investimento. A ideia passa por comprimir a atividade económica para estancar a pressão sobre os preços. Desde o início da guerra, o Banco Central Europeu reviu em alta as projeções sobre a inflação e os mercados passaram a antecipar uma nova subida das taxas de juro por parte dos bancos centrais.

O problema desta abordagem é que não distingue as origens da inflação. Quando os preços sobem porque o petróleo ou o gás encarecem, a pressão inflacionista surge do lado da oferta. Foi isso que se verificou nos últimos anos: tanto nos EUA como na Zona Euro, a subida dos preços em 2022 resultou sobretudo de constrangimentos da oferta provocados pelas medidas de confinamento e pela guerra na Ucrânia, que fez disparar os preços dos combustíveis fósseis.

Aumentar as taxas de juro não tem nenhum efeito óbvio sobre os preços da energia. Apesar da maioria dos países ter seguido esta linha de atuação nos últimos anos, houve casos como o do Japão, onde o banco central não aumentou a taxa de juro diretora e isso não impediu que a inflação descesse, o que levanta dúvidas sobre a eficácia da política monetária.

O que se sabe é que a subida das taxas de juro afeta de forma diferente grupos diferentes: tende a prejudicar quem tem dívidas e paga juros, penalizando sobretudo os que se encontram nos escalões de rendimento mais baixos, e a beneficiar os credores e/ou detentores de ativos financeiros, tipicamente nos escalões mais altos. A subida recente das taxas de juro, que fez aumentar as prestações dos empréstimos à habitação, levou a uma perda de poder de compra que atinge sobretudo as famílias mais endividadas. Em vez de atuar sobre a origem do problema, acaba por redistribuir os seus custos.

Há ainda um outro efeito contraproducente da subida das taxas de juro: o impacto sobre o investimento na transição energética. Projetos de energias renováveis, eficiência energética ou eletrificação são intensivos em capital e requerem grande investimento inicial, o que significa que dependem das condições de financiamento. Ao encarecer o crédito, a política monetária dificulta estes investimentos e pode adiá-los, precisamente quando são mais necessários para reduzir a exposição a choques energéticos.

Como distribuir a fatura da crise?

O debate sobre a resposta à crise energética tem-se centrado quase exclusivamente nas medidas de alívio imediato. A descida dos impostos sobre os combustíveis é vista como solução para conter o impacto da crise na carteira das pessoas. Embora uma medida deste tipo possa ser importante no imediato, não garante necessariamente uma redução significativa dos preços nas bombas de gasolina e não resolve os problemas de fundo.

No atual contexto, há quatro tipos de medidas que ganham relevância:

1. Voltar a desacoplar o preço da energia renovável do gás, caso os preços deste último se mantenham elevados, para evitar que as faturas da eletricidade disparem.

2. Recuperar a experiência de controlo temporário dos preços do gás, que funcionou em países como a Alemanha, onde o governo definiu um sistema com dois níveis, com um preço mais baixo para o consumo considerado essencial e preços de mercado para o consumo acima desse valor, protegendo quem ganha menos.

3. Tributar os lucros extraordinários para impedir o aproveitamento da crise e financiar as restantes medidas de apoio. Novamente, é importante aprender com a experiência recente ao definir a base de incidência e o limiar a partir do qual o imposto se aplica, de forma a garantir que é eficaz.

4. Planear a redução coletiva do consumo num cenário em que a escassez de combustíveis a torne necessária. O incentivo ao teletrabalho recomendado pela AIE pode ser útil para reduzir deslocações, mas arrisca-se a criar clivagens entre quem pode ficar em casa e quem trabalha presencialmente em serviços essenciais. Reforçar a frequência dos comboios, metro e autocarros e torná-los gratuitos no atual contexto é socialmente mais justo.

A médio prazo, a resposta mais eficaz passa por reduzir drasticamente (e eventualmente eliminar) a dependência dos combustíveis fósseis. Sendo certo que o aumento do preço dos combustíveis representa um agravamento do custo de vida para quem precisa de se deslocar de carro para o trabalho todos os dias, o que significa que atinge particularmente quem vive nas periferias de Lisboa e Porto e em cidades médias como Leiria, Coimbra ou Braga, o que isso reflete é o subinvestimento na rede de transportes públicos e a ausência de alternativas confiáveis para as deslocações diárias.

À semelhança de Espanha, Portugal tem condições geográficas e climatéricas bastante favoráveis para a produção de eletricidade a partir de fontes renováveis. Ainda assim, embora o país tenha aumentado de forma considerável a produção de eletricidade a partir de fontes renováveis (que representam cerca de 80% da produção total), boa parte da energia usada no dia a dia continua a ser proveniente de combustíveis fósseis e, em particular, de petróleo importado, sobretudo para o setor dos transportes e para algumas indústrias, o que sugere que o caminho passa não apenas por aumentar a capacidade de produção de energia solar ou eólica, mas também por reduzir as necessidades de consumo de combustíveis.

 

Resolver os problemas de fundo requer um papel ativo do setor público. Na transição para os carros elétricos, há lições a retirar do sucesso de países como a Noruega, onde o Estado tem uma estratégia de incentivos que inclui impostos mais altos na compra de carros movidos a combustíveis e uma série de benefícios para quem adquire carros elétricos (não só por via fiscal, mas também através de estacionamento gratuito, redução de portagens e possibilidade de usar as faixas de autocarros). No entanto, esta transição é insuficiente, tendo em conta os custos ambientais envolvidos na produção das baterias. O investimento nos transportes públicos, especialmente nas ligações entre as áreas metropolitanas às zonas periféricas, é uma condição necessária para reduzir as deslocações em veículos individuais.

Além disso, o financiamento público também é necessário para expandir a produção de renováveis. Apesar dos custos das energias renováveis terem caído significativamente nos últimos anos, a volatilidade da produção e dos preços da energia eólica ou solar, mais expostas às condições meteorológicas, tornam difícil garantir retornos previsíveis, o que cria uma tendência para o subinvestimento pelo setor privado. Neste aspeto, o setor público tem de assumir um papel de coordenação e investimento direto.

O investimento público tem sido sucessivamente adiado com base numa lógica de contenção de gastos. No entanto, há motivos para crer que se paga um preço mais caro pela inação. Um relatório recente do Climate Change Committee britânico conclui que o montante de investimento necessário para o país atingir a meta de zero emissões líquidas de carbono até 2050 seria inferior ao custo económico de uma crise energética como a que atravessamos em 2022-2023. Em média, o investimento adicional necessário rondaria £4 mil milhões por ano, um valor inferior aos custos que os choques de preços do petróleo e do gás têm imposto às economias europeias nos últimos anos. Por outras palavras, investir na transição energética compensa não apenas do ponto de vista ambiental, mas também do ponto de vista económico.

A crise atual coloca pressão sobre os governos para apresentar medidas de alívio imediato. Essas medidas são importantes para proteger as pessoas mais expostas ao aumento do custo de vida, mas não resolvem os problemas de fundo. A guerra no Médio Oriente demonstra novamente o preço que pagamos pela dependência de combustíveis fósseis importados e pela exposição da economia a choques da oferta. Acelerar a transição energética é a forma mais eficaz de reduzir a fatura a prazo.

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domingo, 22 de março de 2026

É só imperialismo, realmente


O bloqueio a Cuba é quase tão antigo como a revolução cubana. Entrou em vigor a 7 de Fevereiro de 1962, pouco mais de 3 anos depois da vitória dos rebeldes e dura até hoje. Houve flutuações na sua violência, mas o lastro das consequências económicas e sociais é avassalador e constitui uma das mais dramáticas e duradouras agressões alguma vez concretizadas contra um país, por meios predominantemente não-militares.

Para lá da divergência e da convergência políticas, está a amizade para a vida. Não sou neutro, mas tento ser objetivo. Se José Gusmão não vem ao blogue, o blogue vai até ao seu excelente artigo sobre Cuba já com umas semanas: é só imperialismo (e logo anti-imperialismo), realmente, sem adversativas, como a situação exige. Já agora, aproveito para perguntar e a pergunta não é mesmo retórica: em Portugal, fora da área do PCP, conheceis outro artigo do mesmo calibre?

sábado, 21 de março de 2026

Maravilhosamente simples


A música não constava do alinhamento do concerto de ontem no Campo Pequeno. 
Ela não faz mais nada e envia uma mensagem à banda. E eles tocaram. Maravilhosamente simples.

Dia 23, debate Práxis sobre participação na governação das empresas

«A democracia não deve ficar à porta das empresas, públicas, privadas e da economia social. A Constituição e a legislação laboral estabelecem importantes direitos de informação, participação, consulta e controlo de gestão, mas é generalizado o seu não reconhecimento e incumprimento, total ou parcial, pelos empregadores.
Os trabalhadores devem ter voz nas decisões estratégicas da governação das empresas, onde investem as suas vidas e o seu trabalho. Em 13 países da UE é reconhecido o direito de os trabalhadores participarem nos conselhos de administração ou supervisão das empresas públicas e privadas. (...) O modelo de co-determinação praticado na Alemanha é reconhecido como um dos sistemas de referência quanto à participação dos trabalhadores na governação das empresas».

Em mais uma videoconferência promovida pela Praxis, a oportunidade de conhecer melhor o modelo alemão de participação dos trabalhadores nas empresas, com o testemunho qualificado de Flávio Benites, presidente do sindicato IG Metall de Wolfsburgo/Alemanha. Integralmente em português, a videoconferência, com início às 21h00, conta ainda com Rogério Nogueira (coordenador da Comissão de Trabalhadores da Autoeuropa), que introduzirá o tema, e Henrique Sousa (presidente da Mesa da Assembleia Geral da Práxis), que moderará o debate. A sessão é aberta a todos os interessados, mediante inscrição prévia aqui.

sexta-feira, 20 de março de 2026

Ler, ler, ler sempre


Se este espectáculo fosse realmente pensado para aqueles portugueses que vivem nesses bairros onde a convivência com a imigração é diária – e onde muitas vezes germina um ressentimento que não é difícil de compreender – talvez fosse necessário acrescentar mais algumas camadas à conversa. Para quem espera meses por uma consulta no centro de saúde, para quem não encontra vaga na creche para os filhos ou para quem atravessa situações de pobreza sem ver chegar apoios sociais minimamente dignos, o mal-estar não nasce do nada. E nesse caso talvez fosse preciso explicar melhor a quem serve afinal a importação de mão-de-obra imigrante, que ao mesmo tempo a intimida e a mantém num estado de permanente vulnerabilidade: para que tenha mais medo, para que aceite salários mais baixos e menos direitos, e para que, através desse mecanismo, também arraste para baixo os trabalhadores portugueses numa espiral de exploração cada vez mais generalizada. No fim de contas, uns e outros são exactamente a mesma coisa: pessoas que vivem de vender a sua força de trabalho. Se este espectáculo fosse realmente para esses, talvez tivéssemos de nos dar ao trabalho de os ouvir.

Partindo de um espetáculo teatral no CCB, o corajoso artigo de Sofia Lisboa no AbrilAbril tem tudo o que é necessário: cultura, política, cultura política, incluindo economia política, revelando sentimentos morais.

quinta-feira, 19 de março de 2026

Brutalmente simples


“Há um poço muito fundo de dinheiro para a guerra, mas não há para trazer condições de vida às pessoas”. Sim, é brutalmente simples, Vanessa

Mas há carradas de ideologia a obscurecer o que é simples, na realidade: numa economia monetária de produção capitalista há sempre dinheiro para aquilo que as classes dominantes querem fazer. 

O resto é a sua mobilização de recursos ao serviço da pulsão de morte. E só a luta organizada dos subalternos, incluindo pela paz, pode colocar recursos ao serviço da pulsão de vida. 

E há três tipos de pessoas: as que sabem isto, as que virão a saber isto e os economistas convencionais...

Justa homenagem


Ontem, o corredor entupiu à porta da sala 308, onde durante anos trabalhou Lucinda Silva. Fomos muitos, incluindo naturalmente familiares, a dizer presente na justa homenagem. Não sei se já houve muitos reconhecimentos assim noutras faculdades, mas devia haver, porque o valor social é criado por trabalhadores em relação, sejam não-docentes ou docentes. 

Houve lágrimas de tristeza e de esperança vivificantes numa comunidade de trabalho com memória que perdura e que se quer fraterna, como ela foi, como elas são. E uso a terceira pessoa do plural no feminino de forma muito deliberada, porque, no seu melhor, o Estado social, de que a universidade pública faz parte, é o principal igualizador também nesta crucial dimensão.

quarta-feira, 18 de março de 2026

Sábado, em várias cidades do país


Num contexto de agravamento consecutivo da crise habitacional, em que desde o primeiro pacote de medidas do governo «os preços das casas já subiram 27% e continuam a acelerar, com Lisboa acima dos cinco mil euros por metro quadrado», a plataforma Casas para Viver promove mais uma manifestação nacional pelo direito à habitação, subscrita por mais de 80 organizações.

Entre outras, já aderiram à iniciativa as cidades de Lisboa (Marquês de Pombal, 15h00), Porto (Praça da Batalha, 15h00), Coimbra (Ponte de Santa Clara, 15h00), Leiria (Fonte Luminosa, 17h00), Barreiro (Terminal Fluvial, 10h30), Covilhã (Praça do Município/Pelourinho, 11h00) e Viseu (Rossio, 15h00). Apareçam.

Defender Cuba


Se a coligação Epstein colocar o pé em Havana, graças ao crime contra a humanidade que está a cometer, será uma catastrófica derrota para o povo cubano, para o campo anti-imperialista mundial. Daí a necessidade de defender Cuba, de mostrar toda a solidariedade. E quem escolher ficar calado já escolheu objetivamente o campo imperialista. 

Entretanto, não fosse o criminoso bloqueio, descrito nos seus perversos traços essenciais por Cristina Cardoso, já há muito que Cuba podia ter desenvolvido uma economia mista de orientação socialista moderadamente próspera, dada o desenvolvimento humano que alcançou, a sua população relativamente saudável e educada. 

Não podeis esperar que ideólogos pagos para branquear o capitalismo fóssil e o imperialismo, como Luís Ribeiro, reconheçam estes padrões básicos de história da economia política. A comparação com a China é totalmente desadequada, incluindo porque esta conseguiu obter várias décadas de situação geopolítica relativamente distendida em relação ao sistema imperialista.

O Governo, o povo, cubano está hoje confrontado com escolhas trágicas, dado o nível de coerção imperialista sem precedentes e logo no contexto internacional mais duro das últimas décadas. Reconhecer isto é o que distingue gente decente de gente indecente. 

Como se fosse uma nota de rodapé 

Sabeis o que mais enoja intelectualmente? Nem são os mercenários fascistas que celebram o crime contra Cuba, esses combatemos bem por cá, mas sim os liberais dos silêncios pagos. Eles pensam mesmo que as pessoas são estúpidas e que perderam a capacidade de fazer distinções.

terça-feira, 17 de março de 2026

Os amanhãs não cantam


No final de 2020, um estudo da consultora imobiliária CBRE sobre o mercado residencial português concluía que a pandemia travara a tendência de subida dos preços, prevendo quebras de transações em Lisboa e no Porto. O efeito, porém, seria efémero, com os preços da habitação e o número de transações a recuperar já em 2021 e a subir de modo expressivo em 2022 (sendo necessário recuar a 1991 para encontrar uma variação anual de idêntica grandeza).

Tal não impediu, contudo, novas previsões de estabilização de preços em 2023. Para a Confidencial Imobiliário era «evidente que num contexto de maior constrangimento do poder de compra» - em resultado da crise inflacionária gerada pela invasão da Ucrânia pela Rússia - havia «pressão para uma estabilização dos preços». Para o BPI, os preços da habitação iriam mesmo sofrer uma «correção do mercado», estimando um recuo de 1,5%. O Índice de Preços da Habitação (IPH), todavia, acabaria por revelar um aumento de 7,6% entre 2022 e 2023.

Já com mais cautela, economistas ouvidos pelo Negócios previram, em 2023, que os preços apenas desacelerassem no ano seguinte, aumentando de forma mais moderada, num valor médio a rondar os 3%. Uma estimativa que ficou muito aquém da evolução registada, com IPH a crescer 9,8% entre 2023 e 2024. Para 2025, a Standard & Poor's admitiu que os preços das casas tinham margem para continuar a subir até 2027, mas a um ritmo inferior ao de 2024. Contudo, a variação do IPH atingiria um aumento de 17,7% entre 2024 e 2025.

Alinhado com Pinto Luz - para quem «é o incentivo de mercado» que fará descer o preço das casas - coube ao também ministro Castro Almeida, em outubro passado, renovar a profissão de fé na redução dos custos com a habitação, declarando que - graças às medidas da AD - a mudança nos preços e nas rendas ia «começar a sentir-se» no final de 2026. Ou seja, ignorando desde logo que os incentivos ao mercado já adotados apenas agravaram o problema, como evidencia a aceleração do IPH, acima da média da UE, desde que o governo de direita tomou posse.

É por isso mais plausível a previsão da Fitch, que vê os preços das casas aumentar 15% em 2026, assumindo que «não haverá inversão no curto prazo». O oposto é que seria, de facto, improvável. Enquanto a atual crise continuar a ser interpretada como o resultado de uma mera falta de casas - ignorando o papel das novas procuras na formação dos preços e recusando medidas tendentes à sua regulação - não vale a pena insistir em amanhãs que cantam.

Menos Habermas, mais Streeck


Habermas, que descanse em paz. Deve ser elogiado pelos seus primeiros trabalhos críticos, de inspiração marxista, sobre a esfera pública e pelo seu firme antifascismo. Mas a sua viragem para o patriotismo constitucional, a recusa da luta de classes e a sua adesão fatalista ao liberalismo lançam certamente uma sombra sobre o seu legado. Na verdade, foi o seu apoio ao genocídio israelita em Gaza que se revelou trágico e tornou a sua obra tardia irrelevante e autodestrutiva enquanto filosofia política liberal coerente. 

Nem mais, nem menos, Daniel Tutt. Li o suficiente de Jürgen Habermas, um par de livros, um quando ele era quasi-marxista e se preocupava com a crise de legitimidade nos anos 1970 e outro quando já era federalista liberal pelos anos 2000 e defendia a famigerada Constituição para a UE, bem como um par de artigos (sim, literalmente dois de cada, se a memória não me falha). 

Francamente, não tive vontade de ler mais, sendo de resto daqueles pensadores tantas vezes referidos que uma pessoa até se ilude em relação ao conhecimento que dele tem (ficaram-me na memória as críticas assertivas do historiador Perry Anderson às suas derivas, por exemplo). Nunca o usei em qualquer trabalho.

Tomando apenas em conta o pouco que conheço, entre o seu federalismo liberal e o soberanismo socialista de um Wolfgang Streeck, num debate alemão que continua relevante para o resto da UE, a escolha é clara: menos, muito menos, Habermas, mais, muito mais, Streeck. 

E a disputa não é sobre a Europa, mas sim sobre a UE, a sua natureza e trajetória. Um foge à economia política, o outro mobiliza-a, a de Marx, Keynes e Polanyi. A UE não é a Europa, mas a esquerda italiana, com honrosas exceções, comete este erro tão revelador que chego a pensar que é mais definidor do que qualquer outro nesta área. A esquerda italiana é uma ruína romana já com décadas, lembrai-vos.

Como se fosse uma nota de rodapé

O artigo de Martin McManus, apesar de conter uma ou outra informação relevante sobre a obra, revela bem os impasses do socialismo dito liberal, com uma apologia desfasada: da catastrófica minimização do compromisso sionista de Habermas à ocultação das suas posições de compromisso com as derivas pós-democráticas da UE, por exemplo aquando do referendo francês à chamada Constituição. Nos EUA, a UE é muitas vezes um objeto político não-identificado. Não se compreende que uma revista jacobina tenha publicado originalmente este artigo...

segunda-feira, 16 de março de 2026

Só o anti-imperialismo para a espiral da guerra


Hoje irei à sessão para parar a espiral da guerra, a partir das 21h00, na Cantina Velha da Cidade Universitária, em Lisboa. 

Irei relutantemente, dada a presença de figuras como Francisco Pereira Coutinho: em pleno genocídio na Palestina chegou a negar este facto, alinhou pela propaganda, já negada, de que o Governo da Venezuela era um cartel da droga e assim sucessivamente. 

Felizmente, pessoas como Nuno Ramos de Almeida salvarão a honra anti-imperialista.

Resposta


Daniel Oliveira respondeu à minha crítica e cometeu três erros. Em tão pouco espaço é obra.

Em primeiro lugar, insulta a inteligência e a consciência democráticas dos leitores, sendo incapaz de aceitar que o confrontem quando compara nazismo a uma versão do socialismo que realmente existiu, como se faz na pior União Europeia ou na pior literatura liberal de Guerra Fria, a do totalitarismo. Oliveira tem de compreender que quando se desloca para a direita fica mais difícil cumprir o seu objetivo desmedido de fazer uma espécie de pleno que vai da esquerda ao extremo-centro. 

Em segundo lugar, o sectário Oliveira sabe que eu não me chamo a “nova versão ultrassectária dos Ladrões de Bicicletas”. Chamo-me João Rodrigues. O texto só a mim compromete, como é evidente. No fundo, ao diluir-me num coletivo parece achar que enquanto apoiante do PCP não tenho pensamento próprio. Imaginai o que pensará dos militantes. 

Em terceiro lugar, parece achar que não li o artigo dele. É verdade que há muito que deixei de acompanhar as suas obras completas, mas li e reafirmo: na imprensa internacional escreveu-se sobre a Anthropic e logo sobre a distopia da IA. 

Sim, a originalidade está sempre sobrestimada, mas não me vou meter a escrever sobre um assunto de que pouco ou nada entendo, não era esse o ponto. Devia aprender a fazer o mesmo ou, pelo menos, a escolher títulos rigorosos, o mais revelador de tudo: CIA global, por exemplo. Creio que sei porque não o fez.

Entretanto, a Palantir foi assumidamente criada para matar comunistas, vejam bem. Os democratas no fundo sabem isso. É que é tudo brutalmente claro e simples.

domingo, 15 de março de 2026

José Barata Moura


Vale mesmo a pena assistir à entrevista que Fátima Campos Ferreira fez a José Barata Moura. Está na RTP Play, a plataforma que prova que, se o deixarem, o setor público consegue inovar de forma socialmente inigualável. 

A entrevista passa mesmo num instante, mas fica na memória, questão de ontologia. Afinal de contas, que outro filósofo público tem ido de Hegel a Olha bola, Manel, de Joana come a papa à tradução completa de O Capital? Habermas não foi certamente.

sábado, 14 de março de 2026

Pleno antifascista


O sindicalismo de classe consegue fazer o pleno antifascista: 
luta pelos direitos laborais, parte do Estado social e das liberdades democráticas, e luta pela paz. 
Está tudo tão ligado.
Uma grande lição na grande manifestação de hoje, no Porto, pela paz, soberania e solidariedade.

Dever antifascista


À luz do que se escreve na imprensa anglo-saxónica sobre a Anthropic e as eventuais contradições do capitalismo da vigilância, o facto mais relevante deste artigo é mesmo o seu título inadmissível. Confirma-se o destino fatal desta forma de sectarismo: quem começa no anticomunismo só acaba na relativização liberal do nazifascismo. E bastaria um título factual: CIA global.

Lamento, assim isto está ao nível de Rui Tavares, o que decide apodar de “estalinistas” as tendências fascizantes de um Moedas alinhado com Chega-IL. A comunista Rita Rato foi saneada do Museu do Aljube (onde estiveram presos sobretudo comunistas), tendo feito um trabalho que granjeou grande reconhecimento. 

Nada disto é sério, mas tudo isto tem de ser levado a sério. Eles sabem o que fazem com analogias históricas espúrias, comparações desmemoriadas e confusões conceptuais. E nós também sabemos. 

E, sabemos da história, o inimigo primeiro quererá levar os comunistas. Por isso, combater o anticomunismo é um dever do antifascismo.

Segunda-feira, em Lisboa


A partir das 21h00, na Cantina Velha da Cidade Universitária. Com intervenções de Cecília Honório, Francisco Pereira Coutinho, Joana Seixas, José Manuel Rosendo, Frei José Nunes, José Pacheco Pereira, Mariana Vieira da Silva e Nuno Ramos de Almeida.

sexta-feira, 13 de março de 2026

Socialismo, Avelãs Nunes


É verdade, Flávio Gonçalves: “António Avelãs Nunes tem uma vasta obra, mas é um intelectual praticamente ausente do espaço público”. Entre os seus primeiros livros e alguns dos seus últimos, medeiam exatamente 52 anos de trabalho. 

A razão para ausência é simples e expõe-se em três passos: permaneceu marxista, denuncia o “capitalismo do crime sistémico” e considera fundadamente que a alternativa ao socialismo é a barbárie. 

É autor de uma obra que cresceu desde a jubilação, mostrando que todas as idades são produtivas, sobretudo quando se leva a sério a injunção do Padre António Vieira (de memória): “que o entendam os que não sabem, que tenham muito que entender os que sabem”. 

Acabou de sair um livro de textos, escritos por outros ao longo do tempo, sobre a sua vida e obra – Retratos escritos de António Avelãs Nunes. Tenho a honra de participar, com um artigo que escrevi para a Vértice. Destaco a presença aí de intelectuais brasileiros de nomeada, de Celso Furtado a José Paulo Netto. 

Entretanto, aposto que Avelãs Nunes sabe melhor do que eu o que teria de pensar e de escrever para ter uma forte presença no espaço mediático que passa por espaço público. Ser-lhe-ia demasiado fácil, no entanto, alinhar pela sabedoria convencional, ele que sempre a estudou. 

Como disse memoravelmente Carmo Afonso: “A desdramatização daquilo que é dramático é uma modalidade nacional. Escrever deve servir para o contrário: dramatizar problemas para que outros sintam a energia que é precisa para os resolver”. 

 É de facto necessário dramatizar e ligar problemas, expondo um quadro geral, para que todos tenhamos a energia e a argúcia para ir dando os toques de política nos sítios que podem eventualmente ter impactos sistémicos. 

Assim, um intelectual honestamente comprometido que se preze, que tome partido, não anda cá pelas facilidades, mas sim pela descoberta e sobretudo pela socialização das verdades simples, a que estão cada dia mais prenhes de implicações revolucionárias.

Como se fosse uma nota de rodapé
 
Em conjunto com o texto anterior sobre Vital Moreira, pretendo singelamente homenagear dois intelectuais públicos da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, professores catedráticos jubilados, com quem tenho aprendido. 

Vêm de longe, com percursos intelectuais e políticos convergentes, incluindo na Vértice no tempo do fascismo e na revolução democrática e nacional, e divergentes a partir de certa altura, na contra-revolução neoliberal, como lhe chamou e bem Avelãs Nunes. Cada um à sua maneira, continuam a trabalhar afincadamente.

Até amanhã, anti-imperialistas

quinta-feira, 12 de março de 2026

Debater quando tudo arde


Todavia, a cultura crítica permite a construção de um rico espaço de conteúdos e de formas de comunicar. Escapando, como Gramsci sugeria, aos territórios da cultura moderna, condicionados por interesses materiais – já denunciados pela «teoria crítica» proposta desde a década de 1920, pelos pensadores da Escola de Frankfurt –, mas fugindo igualmente aos da cultura popular, também esta manipulável.


Desculpai, temos de continuar a debater, mesmo quando tudo arde, sobretudo quando tudo arde. Outros o fizeram antes de nós. Quando penso em muito do que está mal na esquerda brâmane, penso em intelectuais públicos do Livre como Rui Bebiano. Não é implicação, é representatividade. 

De facto, tem a virtude de ser um repositório de alguns gestos que se repetem ao longo do tempo, incluindo a fuga ao debate frontal e transparente, racionalizada por uma espécie de altivez aristocrata, a da cultura acantonada na “teoria crítica”. 

Ao contrário do que parece sugerir, Gramsci era, como criativo continuador dos bolcheviques, mas num contexto de intenso refluxo, um modernista, um marxista, que por isso partia dos interesses materialmente ancorados, do momento “corporativo”, para tentar chegar ao verdadeiro momento “ético-político”. Esta passagem exigente só podia, segundo ele, ser operada pelo “novo príncipe”, pelo Partido Comunista, eventualmente aliado a outros. 

E Gramsci muito menos fugiu da cultura popular, pelo contrário, já que a considerava um rico e contraditório repositório dos trabalhos materiais e espirituais das classes subalternas, a ser retrabalhado e desenvolvido no quadro da laboriosa criação de uma vontade coletiva, a que chamou, precisamente, “nacional-popular”. 

E ele pagou o preço mais elevado no combate ao fascismo. Mas há uma indústria académica liberal com décadas, apostada em furtar Gramsci à rica tradição leninista, casando-o, por exemplo, com a chamada Escola de Frankfurt, a que, por vezes com ligações muito suspeitas e cada vez mais investigadas, terminou em Habermas e na legitimação do genocídio colonial sionista. Essa adulteração faz com alguns à esquerda, injustamente, tenham passado a olhar para Gramsci de soslaio. 

Felizmente, há intérpretes de Gramsci que resistiram até ao fim, de Carlos Nelson Coutinho, no Brasil, a Domenico Losurdo, em Itália, lutando sempre contra diluições indevidas. 

Creio que é necessário sermos diretos nos debates públicos, incluindo na academia. E assertividade não é desrespeito, antes pelo contrário, já que implica, para começar, reconhecimento do outro e logo “risco” de sermos refutados e de termos de conceder e assim sucessivamente, em aprendizagem recursiva.

A guerra no Irão vai trazer de volta a inflação?

Nas últimas duas semanas, a inflação voltou a tornar-se um tema de abertura dos telejornais. Depois de um período em que deixou de estar tão presente no debate público, as notícias sobre a inflação voltaram a ganhar destaque. O motivo é a guerra mais recente: desde o final de fevereiro, os ataques aéreos dos EUA e de Israel sobre o Irão desencadearam um conflito cujo impacto já se faz sentir nas bombas de gasolina e que pode alastrar-se.

O impacto prende-se sobretudo com as consequências da guerra para os mercados energéticos. Embora o Irão seja responsável por apenas 4,5% da produção mundial de petróleo, o país controla o Estreito de Ormuz, por onde passa um quinto do petróleo e do gás natural comercializado a nível global. Ao impedir a passagem de navios pelo estreito, em resposta aos ataques, o Irão tem capacidade para provocar uma disrupção significativa na oferta de energia mundial.

Estreito de Ormuz. Fonte: The Guardian

Os impactos não demoraram a sentir-se: num mercado particularmente propenso ao pânico e à especulação, o preço do barril de petróleo (Brent), que rondava os $70 no início do ano, disparou em poucos dias e superou a barreira dos $100, tendo chegado a aproximar-se dos $120 antes de recuar parcialmente. Quanto ao gás natural, o preço de referência na Europa quase duplicou após o início do conflito, tendo subido de €30/MWh para cerca de €50/MWh. A subida foi alimentada pela decisão de suspender a produção em instalações no Catar (um dos países aos quais a União Europeia recorreu quando quis cortar as importações de combustíveis da Rússia).

Este episódio traz à memória a experiência da última crise energética, em 2022, quando a invasão da Ucrânia pela Rússia fez disparar os preços do petróleo e do gás nos mercados internacionais. Na verdade, este está longe de ser um fenómeno novo: antes disso, a última grande crise inflacionista na Europa, registada na década de 1970, também esteve ligada a choques do preço do petróleo. Como o petróleo é a principal fonte de produção de energia e a energia é um produto indispensável para alimentar a maioria das atividades económicas, um aumento do preço do petróleo repercute-se de forma significativa nos custos (e nos preços) da maioria dos produtos e serviços que consumimos.

Atualmente, o debate tem-se centrado na questão de saber se a guerra no Irão vai provocar uma crise inflacionista comparável à que atingiu as economias ocidentais após a guerra na Ucrânia. Tendo em conta a impossibilidade de prever a duração do conflito, há demasiada incerteza para fazer projeções sobre a evolução dos preços. Ainda assim, há um conjunto de lições a retirar da última crise inflacionista que ganham relevância no contexto atual, sobretudo tendo em conta que os riscos não se resumem aos conflitos militares.

Energia e não só

A subida dos preços do petróleo tem um efeito imediato sobre a carteira da maioria das pessoas. Isso acontece porque a cotação do petróleo influencia diretamente os preços dos combustíveis. Nesta semana, os preços da gasolina e do gasóleo subiram 4,3% e 11,5%, respetivamente, e receia-se que a próxima semana traga novos aumentos de preços. Ainda assim, é preciso ter em conta que os preços ainda se encontram longe do pico registado em 2022.

Nos preços do gás natural, verifica-se a mesma tendência. Embora o preço tenha aumentado de forma significativa, atingindo os €50/MWh, ainda se encontra bastante longe do pico registado em 2022, quando chegou aos €350/MWh. Javier Blas, analista da Bloomberg, nota que ao contrário de 2021-22, quando o petróleo, o gás, o carvão e a eletricidade encareceram em simultâneo e de forma acentuada, o conflito atual afeta um conjunto mais restrito de mercados e os aumentos registados (ainda) são bastante menos pronunciados. Ainda é cedo para saber se estamos perante oscilações temporárias ou uma tendência persistente de subida dos preços dos combustíveis, que será mais provável quanto mais tempo durar o conflito no Médio Oriente.

Ainda assim, além dos preços da energia, há outros impactos menos discutidos (mas não menos relevantes). É o caso dos fertilizantes: a produção dos produtos químicos usados na agricultura também está a registar uma quebra na produção face à escassez de gás natural (indispensável para a produção de amónia, o ingrediente base de muitos fertilizantes). Os preços dos fertilizantes já começaram a reagir nos mercados internacionais. Em Portugal, a dependência de importações de fertilizantes deixa o país inevitavelmente exposto à subida dos preços, com potencial repercussão nos custos agrícolas e, a prazo, nos preços dos alimentos.

Fonte: Bloomberg

Choques da oferta há muitos

A possível crise energética soma-se a outros choques que atingiram a economia portuguesa no início deste ano. A sucessão pouco comum de tempestades que assolou Portugal recentemente, com destaque para a depressão Kristin, acrescenta uma segunda dimensão a este quadro. Além da destruição de casas e das dificuldades para as pessoas nas regiões mais afetadas, as tempestades arrasaram estufas, pomares e olivais, destruindo colheitas de hortícolas e frutos. Várias culturas ficaram debaixo de água e, embora não se antecipe uma rutura de stocks, rapidamente se alertou para o risco de enfrentarmos preços mais altos nos supermercados, devido às necessidades de importação. As tempestades também abateram mais de 100 mil galinhas poedeiras, podendo provocar uma quebra significativa na produção de ovos.

Os danos provocados pelas tempestades são apenas o exemplo mais recente do impacto económico das alterações climáticas. Os fenómenos meteorológicos extremos - precipitação intensa, cheias ou secas prolongadas - têm-se tornado mais frequentes nos últimos tempos, com consequências diretas sobre a produção agrícola e, consequentemente, sobre os preços dos alimentos. Um estudo publicado por investigadores do Banco Central Europeu concluiu que, em 2022, as temperaturas-recorde do verão europeu aumentaram a inflação dos alimentos entre 0,43 e 0,93 pontos percentuais. Os investigadores alertam para que estes impactos se acentuem nas próximas décadas, com o aquecimento projetado para o continente a poder elevar a taxa de inflação dos alimentos até 3,2 pontos percentuais.

Fonte: BCE

Um outro estudo publicado em julho do ano passado, que analisou variações de preços em 18 países entre 2022 e 2024, concluiu que “os picos de preços estiveram associados a fenómenos extremos de calor, seca ou precipitação intensa, vários dos quais tão extremos que ultrapassaram todos os precedentes históricos anteriores a 2020”. Os períodos de seca extrema contribuíram para disrupções na produção e na oferta de vegetais nos EUA, do café do Brasil ou do azeite de Itália e Espanha. Já as ondas de calor atingiram de forma severa a Índia e os grandes produtores de cacau (Gana e Costa do Marfim), ao passo que a precipitação intensa e as cheias tiveram impactos que vão desde a produção de batatas no Reino Unido à de alfaces na Austrália.

Em todos os casos, os preços dos produtos dispararam na sequência destes fenómenos. Na mesma linha, as tempestades recentes em Portugal geram riscos de aumento dos preços de vários alimentos, numa situação paralela à experiência dos preços do azeite, que dispararam em consequência dos períodos de seca intensa que assolaram o país em anos recentes.

O que aprendemos desde um Inverno passado

Embora o desfecho do conflito no Médio Oriente esteja envolto em grande incerteza, a experiência do último surto inflacionista, que começou em fevereiro de 2022, fornece-nos pistas sobre o que podemos esperar caso a crise energética se prolongue. Há pelo menos três lições a retirar: primeiro, os choques da oferta podem ser amplificados pelo poder de mercado das empresas; segundo, a política de subida das taxas de juro tem pouca utilidade para resolver as pressões inflacionistas; terceiro, a forma como medimos a inflação subestima o impacto na carteira das pessoas e, em especial, de quem ganha menos.

Começando pela primeira: durante o choque energético desencadeado em 2022, as cinco maiores petrolíferas cotadas do mundo – BP, Shell, Chevron, ExxonMobil e TotalEnergies – registaram lucros de $281 mil milhões e os dividendos distribuídos aos acionistas bateram recordes. Em Portugal, os lucros da Galp contrastaram com a crise do custo de vida que atingiu a maioria.

No artigo “Sellers’ inflation, profits and conflict: why can large firms hike prices in an emergency?”, Isabella Weber e Evan Wasner descrevem o papel das empresas no fenómeno inflacionista. Em condições normais, as empresas evitam aumentar preços de forma unilateral devido ao receio de perder clientes para vendedores que concorrem no mesmo mercado. No entanto, há períodos em que este cenário se altera. Quando um choque num período específico gera um aumento dos custos das empresas num determinado setor, se estas quiserem manter as taxas de lucro inalteradas, terão de aumentar os preços que cobram em simultâneo.

Neste contexto, como todas as empresas do mesmo setor aumentam os seus preços, nenhuma corre o risco de perder clientes para a concorrência. Além disso, o tipo de constrangimentos da oferta que se registaram nos últimos anos, amplamente noticiados pelos meios de comunicação e referidos pelas empresas, contribuem para a sensação de “legitimidade” das subidas de preços. Desta forma, estes choques acabam por aumentar de forma temporária o poder das empresas para aumentar os preços sem afastar clientes. Weber e Wasner resumem o surto inflacionista em três fases:

· Impulso: constrangimentos da oferta de matérias-primas essenciais para muitas atividades económicas dão às (grandes) empresas desses setores um poder temporário para aumentar preços;

· Propagação e amplificação: as empresas dos restantes setores procuram proteger (ou aumentar) as margens de lucro, aumentando os preços em simultâneo;

· Conflito: os trabalhadores procuram recuperar, pelo menos em parte, o poder de compra através da negociação dos salários.

Num contexto em que as taxas de sindicalização caíram para mínimos históricos e que a precariedade se generalizou, os trabalhadores têm muito menos poder para tentar proteger o seu poder de compra, ao passo que o poder das maiores empresas tem vindo a aumentar. A crescente concentração dos mercados num pequeno conjunto de grandes empresas, que facilita a coordenação (mesmo que implícita) dos aumentos de preços em contextos em que há constrangimentos na oferta, o que ajuda a explicar porque é que os lucros extraordinários se verificaram sobretudo em setores com características oligopolistas (energia, produção agro-industrial, grande distribuição, etc.).

Isso leva-nos à segunda lição: a experiência dos últimos anos sugere que, quando a inflação é gerada por este tipo de choques do lado da oferta, a política monetária tem pouca utilidade. Aumentar as taxas de juro, como aconteceu em 2022 e 2023 após o surto inflacionista, não só não resolve os problemas da oferta de matérias-primas como tende a penalizar sobretudo quem se encontra nos escalões de rendimento mais baixos (com maior peso da dívida sobre o rendimento) e a beneficiar credores e/ou detentores de ativos financeiros.

Por fim, os últimos anos também deixaram claro que os indicadores que tradicionalmente usamos para medir a inflação subestimam o impacto real sobre o custo de vida de quem ganha menos. Ao usar um cabaz que representa o padrão de consumo médio no país, o Índice de Preços no Consumidor não capta as diferenças nos padrões de consumo que variam consoante o rendimento. Assim, a inflação acaba por subestimar o peso maior que os bens essenciais (energia e alimentos) têm no orçamento das famílias de menores rendimentos. Além disso, ao não incluir custos como as prestações dos empréstimos à habitação, deixa de fora uma parte importante do custo de vida para muitas pessoas.

Independentemente do desfecho do conflito no Médio Oriente, o início de 2026 tem sido marcado por uma sobreposição de choques energéticos e alimentares que nos obriga a revisitar as principais questões que a última crise inflacionista já tinha colocado e para as quais a política económica continua sem dar resposta adequada.

O que se segue?

O cenário atual envolve riscos relevantes. Se os preços do petróleo se mantiverem elevados e se os danos provocados pelas tempestades se traduzirem numa subida do preço dos alimentos durante os próximos meses, Portugal pode enfrentar novas pressões sobre o custo de vida. E, como aconteceu nos últimos anos, os efeitos não se distribuem de forma uniforme: quem ganha menos e gasta uma percentagem maior do rendimento em bens essenciais paga um preço mais elevado.

A estratégia de combate à inflação tem de ser pensada em função das suas origens e não apenas dos seus sintomas. Propostas como a criação de stocks de reserva de bens alimentares e matérias-primas à escala internacional, que permitam aos países estabilizar a oferta e evitar oscilações excessivas dos preços, voltaram a estar em cima da mesa. Este tipo de reservas existe em vários países: além da conhecida reserva estratégica de petróleo dos EUA, países como a China ou a Índia possuem reservas de cereais (no caso chinês, existem também reservas de fertilizantes), enquanto o Japão possui reservas de arroz e a Polónia de manteiga. A constituição de reservas estratégicas permite aos países mobilizá-las em períodos de crise para estancar a escassez da oferta e mitigar o impacto sobre os preços de produtos essenciais.

No caso do petróleo, a Agência Internacional da Energia anunciou ontem a maior libertação de reservas de petróleo da sua história: 400 milhões de barris, mais do dobro dos 182 milhões libertados em 2022 após a invasão russa da Ucrânia, numa clara tentativa de conter os preços. Já em relação ao gás natural, os dados sugerem que as reservas europeias se encontram em valores bastante baixos, à semelhança do que já se tinha verificado em 2022 quando o conflito na Ucrânia gerou receios de que houvesse escassez e necessidade de racionamento.

Em todo o caso, a instabilidade recente reforça a ideia de que é necessário repensar o combate à inflação. Medidas que desincentivem práticas especulativas, como a introdução de impostos sobre lucros extraordinários, podem ajudar a impedir situações de aproveitamento por parte das grandes empresas, além de compensar os grupos mais afetados pela inflação. Além disso, acelerar a transição energética, através de investimentos nos transportes públicos e na melhoria da eficiência energética dos edifícios e da indústria, contribui para reduzir a vulnerabilidade à próxima crise energética. No caso de Portugal, além de reduzir a exposição a choques de preços, permite reduzir importações e melhorar o saldo externo. A sobreposição de choques neste início de ano é um bom pretexto para recordar que adiar respostas estruturais aumenta os custos que enfrentaremos na próxima crise.

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quarta-feira, 11 de março de 2026

Aprendei, opinion takers

Vós, opinion takers, não tendes a oportunidade de ir a Bruxelas aprender. Mas tendes a oportunidade de pensar a partir desta periferia e deste facto bruto de economia política: isto já não é bem um país, já não é bem uma democracia. 

E tendes ademais a oportunidade de tirar a seguinte conclusão de política económica, sem a qual a esquerda não sairá da sua rematada impotência: isto terá de voltar um dia a ser um país e para isso terá de voltar a ter uma economia mista, como a Constituição prescreve, incluindo um Banco mesmo de Portugal.

terça-feira, 10 de março de 2026

Antifascismo, Vital


Quem lê este blogue desde 2007 sabe que sempre polemizámos com Vital Moreira, que se tornou o melhor representante que conheço do ordoliberalismo alemão em Portugal. A polémica nasce da intensa divergência doutrinária, que não impede o apreço intelectual, incluindo pelo profundo conhecimento de história da economia política, naturalmente. 

Hoje, quero antes sublinhar convergências em quatro planos.

Na política externa – o caso das Lajes configura “um patente caso de ‘frete’ político a Washington contra o interesse nacional”, sem qualquer base legal. 

Na questão constitucional original, o que só por si lhe garante um justo lugar na história nacional – “É o momento de recordar o exaltante tempo do nascimento da Constituição. Pela primeira vez na nossa história constitucional, há deputados constituintes que podem celebrar meio século de vida da sua obra!”. 

Na admiração pela corajosa vida intelectual e política no fascismo, exemplo para tempos sombrios de resistência, tão bem rememorada – “Entrei na redação da Vértice na renovação da revista promovida por Joaquim Namorado – o seu principal animador nessa época – a partir do final de 1969”. 

E na partilha de pelo menos um escritor de referência – Carlos de Oliveira. Só no final do ano passado é que visitei a sua casa, em Febres, e pude ler ali um excerto, logo na entrada, de um informativo artigo, que depois li na íntegra na Vértice, da autoria de Vital Moreira. 

Este escritor neorrealista fez das relações sociais de produção e reprodução numa certa Gândara a sua geografia sentimental, destilada num texto onde não há uma palavra a mais, reescrita até à perfeição, como se tal fosse possível. 

Foi parte da descoberta integral: A Casa na Duna – edição original de 1943, mas reescrito posteriormente, como tanto do que escreveu – tornou-se desde o ano passado um dos meus romances de eleição. A prova é que já o ofereci mais do que uma vez desde aí, incluindo a um primo-melhor-amigo e a uma amiga que vivem em Salvador da Bahia, onde a comparação com Graciliano Ramos de Vidas Secas já foi feita. 

Haja economia política, cultura, antifascista. Haja Vértice, que continua a ser bem editada pela editora Página a Página, não se desiste, nunca se desiste.

segunda-feira, 9 de março de 2026

Parabéns, Adam Smith


Haja simpatia com quem cria a riqueza da nação, haja Teoria dos Sentimentos Morais
Haja “poderes produtivos do trabalho”. 
Haja clássicos da filosofia moral e da economia política contra os liberais até dizer chega, 
incluindo o imortal 
Inquérito sobre a natureza e as causas da riqueza das nações que hoje faz 250 anos.