«Se a História serve para alguma coisa é para nos tornar conscientes de que nenhum avanço social se conseguiu sem luta»: li no Twitter esta sábia formulação de um historiador chamado Josep Fontana, infelizmente por traduzir.
Tenho Josep Fontana «catalogado» como o Eric Hobsbawm catalão, até dada as suas duas histórias do século XX, a última das quais publicada em 2017, um ano antes do seu falecimento, destilação de décadas de investigação e reflexão, onde a história política não passa sem a história económica e social.
Não por acaso, termino assim o último artigo no AbrilAbril:
Num gesto de que Eric Hobsbawm foi o pioneiro, logo em 1990, e que se tornou um marcador da visão crítica do «breve século XX», o historiador Josep Fontana, no livro El siglo de la revolución: Una historia del mundo desde 1914 (2017, Editorial Crítica), cita Karl Kraus traduzido diretamente do alemão, num texto de 1920, aparentemente de homenagem a Rosa Luxemburgo, assassinada um ano antes:
«Que Deus preserve o comunismo para sempre, para que esta ralé — os capitalistas — não se torne ainda mais desavergonhada (...) e para que, pelo menos, tenha pesadelos ao irem dormir.»
Fontana defende que, desde os finais dos anos 1970, «a ralé pode dormir tranquila, sem medo da revolução, decidida a recuperar tudo o que havia cedido»: «o resultado foi este mundo em que vivemos hoje, onde a desigualdade cresce desenfreadamente, com a estagnação económica como dano colateral».
Mas a história está cheia de contradições e de lutas que necessariamente irrompem: «o apogeu da desigualdade significa necessariamente o começo do fim do sistema que a engendrou», defendeu. A escolha luxemburguista continua diante de nós: «socialismo ou barbárie». A ideologia dominante faz gala de ofuscar esta escolha, mas aqui estamos.


2 comentários:
Caro João Rodrigues,
A citaçao «a ralé pode dormir tranquila, sem medo da revolução, decidida a recuperar tudo o que havia cedido» coincide com tese do historiador Perry Anderson, que defende que em 1945, Espanha não era ainda "segura para a democracia" (i.e., para o capital). Deixo aqui um excerto:
The Spanish dictatorship was the product of a bitter civil war, pitting class against class, social revolution against counter-revolution, which the Nationalist crusade had needed German and Italian help to win. There were still a few guerrillas in the mountains resisting the regime in 1945. After the war democratisation was an unthinkable option for Franco: it would have risked a political volcano erupting again, in which neither army nor church nor property would have been secure.
Thirty years later, his regime had accomplished its historical task. Economic development had transformed Spanish society, radical mass politics had been extinguished, and democracy was no longer hazardous for capital. So completely had the dictatorship done its work that a toothless Bourbon socialism was incapable even of restoring the republic it had overthrown.
https://www.lrb.co.uk/the-paper/v30/n18/perry-anderson/after-kemal
PS: encontrei esta referência no livro The Racket, de Matt Kennard, de que lhe falei aquando da sua apresentação de um livro, em Braga, há alguns meses atrás.
Muito obrigado, Óscar Pereira, pela referência adicional: Les beaux esprits se rencontrent... Ainda não li o The Rackett que me tinha recomendado, mas vou fazê-lo.
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