Em Janeiro de 2021, enquanto as medidas de confinamento voltavam a apertar, a The Economist anunciava o fim de uma era de pessimismo económico. Tal como na década de 1920, quando a gripe espanhola deu lugar à era do consumo de massas, a pandemia poderia desencadear um ciclo de inovação e melhoria dos níveis de vida, de acordo com a revista. Os avanços da inteligência artificial, o investimento privado em tecnologia e software e a rapidez com que o mundo adotou o teletrabalho e o comércio eletrónico eram vistos como sinais de que a crise podia funcionar como motor de progresso e fonte de otimismo generalizado: uma espécie de novos “loucos anos vinte”.
Ultrapassada metade da década, é justo dizer que o cenário é bastante diferente. O índice de sentimento dos consumidores dos EUA caiu a pique a partir de 2022 e atingiu o valor mais baixo de sempre desde que o inquérito começou a ser realizado, primeiro em Junho de 2022, no pico da inflação, e novamente em 2026, após o início da guerra no Médio Oriente. O mais surpreendente é que este pessimismo reverte uma tendência de décadas em que a confiança dos consumidores acompanhava de forma previsível os principais indicadores económicos, como o desemprego, a inflação ou o valor das ações nos mercados financeiros. Desde a pandemia, essa relação deixou de se verificar e a generalidade das pessoas passou a estar mais pessimista do que os indicadores convencionais sugeririam.
Em 2022, a economista Kyla Scanlon cunhou o termo vibecession, numa combinação dos termos “vibes” (sensações) e “recession” (recessão), para descrever este aparente paradoxo: uma situação em que os indicadores apontam para um bom desempenho da economia, mas a perceção das pessoas é a de uma crise. O conceito ganhou tração e entrou no debate público no contexto das eleições norte-americanas de 2024. No New York Times, o economista Paul Krugman, vencedor do Nobel da disciplina, garantia que “todas as boas notícias económicas validam [o governo de] Biden”. Na The Economist, chegou a ler-se que os eleitores estavam a demonstrar um “pessimismo irracional”.
Uma das explicações avançadas, tanto nos EUA como na Europa, foi um fenómeno a que os economistas dão o nome de “ilusão monetária”: a tendência que as pessoas têm para avaliar o rendimento em termos nominais (o salário que aparece no recibo de vencimento) em vez de reais (o que esse número consegue efetivamente comprar, tendo em conta a evolução dos preços). A presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde, tocou neste ponto numa entrevista ao Financial Times, argumentando que os dados indicavam uma recuperação do poder de compra, mas que muitas pessoas não a reconhecia. O pessimismo seria, por isso, resultado de uma perceção errada. No entanto, há motivos para pensar que o problema está nos impactos desiguais da inflação, que são negligenciados pelos indicadores normalmente utilizados.
O problema é a perceção ou a distribuição?
Nos primeiros anos após a pandemia, a recuperação da economia teve características particulares. Com a reabertura da maioria das atividades a acelerar a procura das empresas por trabalhadores, o desemprego diminuiu de forma acentuada e muitos setores começaram a falar em escassez de mão-de-obra. Isso deu origem ao que o economista Arindrajit Dube classificou como a “compressão inesperada”: a redução do desemprego reduziu o poder dos empregadores e forçou-os a pagar salários mais altos nos setores onde estes eram mais baixos à partida, reduzindo a diferença entre o fundo e o topo da distribuição.
A trajetória de recuperação salarial foi mais intensa entre os escalões de rendimento mais baixo, o que contribuiu para a ideia de que a maioria das pessoas deveria estar satisfeita com o desempenho da economia. Contudo, as pistas para compreender o descontentamento começam a surgir quando se parte para uma análise mais detalhada.
O economista Servaas Storm e o cientista político Thomas Ferguson publicaram um par de artigos (aqui e aqui) em que procuram explicar o desempenho da economia norte-americana até 2024, com base numa análise exaustiva dos dados disponíveis. As conclusões são diferentes: não só não se verificou uma recuperação do poder de compra para a maioria das pessoas após o choque inflacionista de 2022, como o crescimento salarial ficou aquém do que se tinha verificado no primeiro mandato de Trump (ainda que os ganhos de 2017-2020 não se devam necessariamente à política económica deste).
Por um lado, o salário mediano, que representa o que é ganho pelo trabalhador típico, praticamente estagnou desde 2021 e a maioria das pessoas perdeu poder de compra face ao período pré-inflação. Por outro lado, embora o salário por hora tenha registado um aumento considerável, o número de horas trabalhadas por semana diminuiu de forma persistente desde a pandemia. Resultado: entre 2021 e 2023, 9 em cada 10 pessoas perderam poder de compra apesar dos aumentos salariais.
A isto junta-se um problema de distribuição. O índice de preços convencional calcula-se com base num cabaz de consumo médio, mas os padrões de consumo variam muito consoante o rendimento. Os 20% mais pobres dos americanos gastam quase um terço do seu rendimento em alimentação, muito acima da média. Como a subida dos preços foi mais intensa precisamente nos bens essenciais - os que pesam mais no orçamento de quem ganha menos -, a inflação real sentida pelas famílias de rendimento mais baixo foi superior à inflação oficial, de acordo com uma análise dos dados do Instituto de Estatísticas do Trabalho dos EUA.
O próprio Dube regressou ao tema recentemente, reconhecendo que, se analisarmos o poder de compra dos diferentes escalões de rendimento com base na respetiva taxa de inflação, em vez de usar o indicador agregado, as conclusões alteram-se. Corrigindo para a inflação desigual por decil de rendimento, a compressão salarial entre 2019 e 2025 passa de 8,4 para 4,8 pontos percentuais. Por outras palavras, a redução da desigualdade foi bastante menor do que parecia.
E isso é apenas uma parte da história, porque há outras dimensões que escapam a esta análise. Um estudo de Evan Wasner, que analisa dados sobre compras de supermercado de cerca de 200.000 famílias nos EUA, apresenta taxas de inflação específicas para cada família (baseadas nos produtos que cada uma efetivamente compra). Conclusão: no pico da inflação pós-pandemia, menos de um quarto das famílias experienciou uma taxa de inflação próxima da oficial. A dispersão foi significativa e alargou-se precisamente nos momentos em que a inflação era mais elevada. Para os trabalhadores do decil mais baixo, quase metade viu o seu poder de compra alimentar cair entre 2019 e 2023, apesar de os dados agregados indicarem ganhos.
Finalmente, o indicador usado para medir a inflação subestima o custo de vida ao não incluir no seu cálculo as prestações do crédito à habitação ou ao consumo, o que faz com que deixe de fora uma parte importante da despesa mensal das pessoas. No caso dos EUA, até 1983, estes custos eram incluídos no cálculo, tendo sido removidos no contexto do choque de Volcker, o que mascarou o efeito que a subida agressiva dos juros tinha sobre a inflação que supostamente se destinava a combater. Um estudo publicado por Larry Summers (ex-secretário do Tesouro dos EUA) e co-autores demonstrou que, se a metodologia anterior ainda se aplicasse, a inflação teria atingido 18% no pico de 2022, em vez dos 9,1% oficialmente registados.
Para além dos dados sobre os rendimentos, os padrões de consumo confirmam a experiência desigual nos últimos anos. Desde 2023, o crescimento do consumo privado tem sido impulsionado sobretudo pelos mais ricos, de acordo com um estudo da Reserva Federal de Nova Iorque. Os autores identificam dois motivos principais: a inflação, que pesou desproporcionalmente sobre quem ganha menos, e a valorização dos ativos financeiros, que beneficiou quase exclusivamente o topo da distribuição.
A bolha da inteligência artificial ajuda a explicar este padrão: o investimento massivo e o aumento das cotações das multinacionais tecnológicas, que são responsáveis por quase toda a subida da bolsa norte-americana, beneficia essencialmente os 10% mais ricos do país, que detêm 87% das ações, enquanto os 50% mais pobres detêm apenas 1%. No outro lado do espetro, 43% das famílias no país não ganham o suficiente para conseguir suportar os custos com a habitação, alimentação, saúde e transportes, de acordo com uma análise do Brookings Institute.
O custo de vida é um problema novo?
Embora o período pós-pandémico tenha sido marcado pelo regresso da inflação a valores que já não eram observados há várias décadas, é preciso ter em conta que a crise do custo de vida tem raízes profundas e é o culminar de uma longa trajetória de estagnação dos rendimentos. Entre 1979 e 2019, a produtividade da economia norte-americana cresceu 73%, mas os salários medianos cresceram apenas 23%. No mesmo período, os rendimentos do 1% mais rico subiram 169%.
O mecanismo desta transformação foi a financeirização da economia. Desde a década de 1980, grande parte da atividade económica passou a girar em torno da valorização de ativos financeiros, que substituiu o investimento produtivo. A desregulação financeira e a expansão acelerada do crédito fizeram disparar o preço dos ativos (ações, obrigações, imóveis) e estabeleceram as bases para um sistema em que a extração de lucros se desligou da produção real. Acumular riqueza através da valorização de ativos passou a ser muito mais rentável do que acumulá-la através do trabalho.
Ao mesmo tempo, fatores como a queda das taxas de sindicalização, a erosão da negociação coletiva, a facilitação do recurso à contratação precária ou ao outsorcing e a globalização (com a possibilidade de deslocalização das empresas) funcionaram como instrumentos de supressão salarial. A maximização do retorno para os acionistas tornou-se o objetivo fundamental das empresas e os ganhos de produtividade foram canalizados para os dividendos e a recompra de ações, em detrimento dos salários.
Storm recupera o conceito de economia dual, formulado nos anos 50 para descrever países em desenvolvimento, e aplica-o aos EUA: de um lado, um setor dinâmico (tecnologia, finanças, serviços profissionais) com produtividade elevada e a crescer; do outro, um setor estagnante (restauração, limpeza, cuidados, retalho) com produtividade baixa que absorve os trabalhadores que saem do setor dinâmico à medida que este se automatiza. O diferencial salarial entre os dois setores passou de 35% em 1950 para quase 60% em 2015. À medida que o setor dinâmico automatiza, os trabalhadores acumulam-se no setor estagnante, onde o excesso de mão-de-obra deprime os salários e comprime ainda mais a produtividade.
Ainda assim, existe uma pressão para que os salários subam nos setores de menor produtividade, sob pena de ninguém aceitar trabalhar neles. Existe, por isso, uma tendência para que os serviços intensivos em trabalho e difíceis de automatizar se tornem mais caros, como se tem verificado em áreas como a saúde, a educação ou os cuidados. Uma consulta médica continua a exigir um médico; uma creche precisa de educadoras por cada grupo de crianças, uma universidade (ainda) não funciona sem professores. Durante grande parte do século XX, os países ocidentais lidaram com este problema socializando os seus custos, através do investimento nas creches, escolas e hospitais públicos ou da subsidiação do acesso à universidade. Nas últimas décadas, a privatização progressiva destes setores e o desinvestimento público traduziram-se numa transferência progressiva dos custos para as famílias, degradando as condições de acesso.
Além dos serviços de educação e saúde, o acesso à habitação também se deteriorou de forma significativa, devido ao processo de financeirização que a tornou um ativo particularmente apetecível para grandes investidores. Como estes serviços são precisamente os que mais pesam no orçamento das pessoas e aqueles em que houve maior desinvestimento do Estado nas últimas décadas, facilmente se percebe que a crise do custo de vida tem raízes mais profundas do que o choque inflacionista de 2022.
Portugal: crescimento para quem?
O debate sobre o os indicadores convencionais e a experiência concreta das pessoas também chegou a Portugal. No verão de 2024, uma reportagem do Expresso aludia à vibecession de características portuguesas, sublinhando o “desfasamento entre os indicadores e a perceção pública” num contexto em que “o consumo dos portugueses está a recuperar para níveis pré-pandemia [e] os salários estão novamente a ganhar a batalha à inflação”.
O caso português é especialmente merecedor de análise, uma vez que o país tem sido repetidamente apontado como um caso de sucesso económico. Há pouco mais de dois anos, Paul Krugman classificou a experiência portuguesa como “uma espécie de milagre económico”. Dois anos antes, Adam Tooze, historiador económico da Universidade de Columbia, já tinha afirmado que “Portugal era o modelo para manobrar de forma muito inteligente dentro do sistema da UE” e que “ninguém o fez como os portugueses”. No final do ano passado, a The Economist distinguiu Portugal como a “economia do ano”, o que não impediu os portugueses de continuar a referir o custo de vida como a principal preocupação nos inquéritos mais recentes.
No caso português, o desempenho da economia e a crise do custo de vida são duas faces da mesma moeda: o modelo de crescimento das últimas décadas. Desde a adesão ao euro, que desencadeou uma apreciação real da taxa de câmbio e prejudicou a competitividade da indústria, o peso da indústria foi sendo progressivamente reduzido enquanto a economia se especializou em setores de baixo valor acrescentado: primeiro a construção e o imobiliário, depois o turismo e os serviços associados. O crescimento deste tipo de setores intensivos em trabalho é determinante para os elevados níveis de emprego que o país regista atualmente, mas o emprego gerado é maioritariamente precário, sazonal e de baixos salários. Portugal também exibe características de uma economia dual, com um peso crescente do emprego no “setor estagnante” composto pelo turismo, restauração e serviços de baixa produtividade.
Além disso, a expansão do turismo levou a uma recomposição da oferta de casas para satisfazer a procura externa, através do crescimento dos hotéis e do alojamento local, que contribuíram para alargar o fosso entre os preços das casas e o rendimento dos residentes. Essa é uma conclusão a que a própria Comissão Europeia chegou no relatório Housing in the European Union, publicado recentemente, onde Portugal é destacado como “o país da UE onde o turismo teve maior impacto sobre os preços das casas”.
Tendo em conta que o indicador usado para medir a inflação não inclui as despesas com prestações, que duplicaram entre 2021 e 2024 com a subida das taxas de juro, percebe-se que dê uma ideia muito incompleta da evolução do custo de vida no país. Um estudo de economistas do FMI estimou que Portugal foi o país onde as famílias tiveram o maior aumento anual da despesa com juros após 2022, correspondendo a cerca de 1,2% do PIB. Não é possível avaliar o poder de compra de quem tem crédito à habitação sem ter em conta este custo. Como, além disso, o indicador da inflação atribui um peso muito reduzido às rendas (dada a baixa percentagem de arrendatários no país), também acaba por subestimar o custo de vida de quem arrenda a casa.
Mesmo usando este indicador, se olharmos para a inflação por escalão de rendimento, o que vemos é que o surto inflacionista de 2022 não afetou todos da mesma forma. No pico do surto, a inflação sentida pelos 20% com rendimentos mais baixos foi sobretudo determinada pela subida dos preços dos alimentos e da energia, ou seja, bens essenciais dos quais não é possível abdicar. Para os 20% com rendimentos mais elevados, a inflação teve um contributo maior de categorias como o alojamento e a restauração, que são despesas mais facilmente substituíveis ou adiáveis. O mesmo choque inflacionista produziu experiências muito distintas.
Para lá das vibes
Há uma tendência na análise económica convencional para olhar mais para a média do que para a distribuição, colocando o foco em questões como o crescimento do PIB e a evolução da inflação sem prestar atenção suficiente à forma como diferentes tipos de crescimento e diferentes preços afetam diferentes grupos. Com a desigualdade a crescer há décadas, as médias são um indicador cada vez mais incompleto. Uma economia em que os ganhos se concentram no topo e os choques de preços afetam sobretudo quem ganha menos pode crescer enquanto o custo de vida se deteriora para a maioria.
Utilizar a taxa de inflação para avaliar o poder de compra de todos os escalões de rendimento implica uma escolha sobre o que se mede e o que é excluído. Essa escolha tem consequências na determinação dos aumentos de pensões e apoios sociais, nas negociações de salários entre sindicatos e empresas e nas conclusões que se retiram sobre o grau de sucesso das políticas públicas adotadas para lidar com a inflação.
Em vez de tratar a preocupação das pessoas com o custo de vida como irracionalidade ou ilusão monetária, procurando responsabilizá-las por não “lerem corretamente” indicadores que não representam a sua experiência efetiva, o debate económico tem de ser feito com instrumentos que reflitam a heterogeneidade existente: índices de preços desagregados por nível de rendimento e relação com a habitação e maior foco na forma como os ganhos (e os custos) do crescimento são distribuídos.
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