terça-feira, 5 de maio de 2026

Haja visão


Foi no terreno, contactando com comunidades devastadas pela violência, que Traoré terá consolidado a sua visão política, assente num diagnóstico simples: a independência política, conquistada em 1960, nunca foi acompanhada de uma verdadeira independência económica. 

Tenho comprado a Visão com alguma regularidade, depois ter contribuído para o projeto de controlo da publicação pelos próprios trabalhadores, uma luta meritória em curso. Esta semana fi-lo sobretudo por causa de uma excelente reportagem, da autoria de José Rodrigues, sobre o Burkina Faso e sobre o corajoso Ibrahim Traoré, discípulo do imortal Thomas Sankara. 

O jornalista foi lá e apreciou a reconstrução de uma nação digna nas mais duras, mas também esperançosas, circunstâncias, incluindo graças à conquista do controlo público de setores estratégicos. Ir e ver acaba por ser um antídoto em relação às campanhas imperialistas contra Traoré a que uma certa esquerda eurocentrada é absolutamente vulnerável. O jornalismo deve ser mesmo a primeira versão da história.

2 comentários:

José A. Costa disse...

Caro camarada, a questão, quanto a mim, não é tanto que «uma certa esquerda eurocentrada [seja] absolutamente vulnerável» ao discurso e à praxis do Imperialismo, é que seja com ele absolutamente cúmplice. Aliás, precisa dele para se manter.

Carlos Antunes disse...

Ibrahim Traoré, com a sua Revolução Popular Progressista rompeu a aliança com a França, substituindo-a pela aliança militar com a Rússia, com o apoio do Africa Corps (sucessor do Grupo Wagner e que passou a ser liderado pelo Ministério da Defesa Russo, após a morte de Prigozhin), que estabeleceu uma base militar em Loumbila a nordeste da capital de Burkina Faso, Ouagadougou, e é o garante da continuação de Ibrahim Traoré no poder.
A Aliança dos Estados do Sahel (AES), formada por Mali, Burkina Faso e Níger, rompeu com a França e os EUA, substituindo-a pela influência russa na protecção dos governos em troca do acesso e exploração dos minerais críticos, nomeadamente ouro, urânio e lítio.
No fundo, ao contrário da visão soberanista/nacionalista e anti-imperialista apregoada por Ibrahim Traoré, aquando do golpe de estado, trata-se da substituição do imperialismo ocidental pelo imperialismo russo.
Trata-se de mais um triste exemplo no continente africano, segundo a qual a democracia é retratada como secundária ou mesmo perigosa (“a democracia mata”, nas palavras de Ibrahim Traoré) e a justificação para a manutenção de regimes ditatoriais, de cariz militar, duradouros.
No fundo, sob a capa do pan-africanismo (“o de libertar Africa e o seus povos”), Amílcar Cabral já tinha advertido que a maioria dos dirigentes nacionalistas "libertaram o povo pra benefícios pessoais", "abocanharam o poder para a partilha de bens entre os grupos de influência”.
Infelizmente, após quase um século do início da libertação e da liberdade africanas, Amílcar Cabral estava cheio de razão, uma vez que ainda hoje a maioria dos países africanos continua a pertencer aos seus "donos", aqueles que se intitulam de "libertadores", mas que, mesmo sem qualquer legitimidade popular, se apoderam e se perpetuam no poder em regimes autocráticos e ditatoriais.