sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Preocupações soberanas


No Público, de Vicente Jorge Silva a Manuel Carvalho, notou-se nos últimos dias uma surpreendente preocupação com a soberania nacional na relação dita assimétrica com a China. Trata-se de uma preocupação assaz selectiva. Afinal de contas, estamos perante apoiantes da mais significativa perda de soberania democrática, a que esteve e está associada a uma integração europeia que também fragilizou brutalmente as possibilidades de uma política externa digna de um Estado a sério num mundo felizmente mais multipolar. Basta pensar, e só para dar um exemplo, nas privatizações impostas pela troika e no reforço do controlo estrangeiro de recursos estratégicos, incluindo por parte do Estado chinês.

Entretanto, alguns intelectuais do eixo político euro-atlântico têm-se manifestado preocupados com o potencial desalinhamento com Washington e com Bruxelas que se pode gerar num contexto de ascensão da China e de aumento da sua influência. Em Portugal, uma certa reflexão sobre as relações internacionais parece ser feita a partir do que se imagina ser o centro e os seus interesses.

A multiplicação das dependências económicas, e logo políticas, externas é o melhor que as elites nacionais conseguem fazer, com alguma venalidade à mistura. Só consigo lembrar-me de uma analogia impertinente: é uma espécie de versão suave da política de porta aberta que a China desgraçadamente conheceu tão bem no seu século de humilhações, algures entre a primeira guerra do ópio e a fundação da República Popular. Diz que os comunistas chineses são nacionalistas. Pudera. Mao bem dizia que “em última análise, a luta nacional é uma questão de luta de classes”.

Enfim, no campo exclusivo do controlo nacional, ou seja, público, de sectores económicos estratégicos e de instrumentos de política económica relevantes, é caso para dizer, atirando barro à muralha: aprendamos e façamos o que o regime chinês ainda faz em domínios como o sistema financeiro ou a electricidade. Esta seria a base material, o ponto de partida popular, para a saudável reciprocidade, de que tanto se tem falado, nas necessárias relações.

8 comentários:

Manuel Galvão disse...

até já deixei de ir passar férias a São Torpes, não vá a situação política deteriorar-se de repente e a minha tenda de campismo ser visitada por um míssil tomahawk - amaricano, pá!

mesmo ao pé da central da EDP...

Jose disse...

Para além dos chineses quem mais está capaz (vontade e dinheiro) de investir neste circo?

Jaime Santos disse...

O João Rodrigues a deixar que o pé lhe fuja para a chinela... Não tanto por este artigo mas pelo link para o outro, que por qualquer razão me tinha passado. Muito interessante.

Se a soberania que nos propõe é aquela de que goza o povo chinês, tragam-me já, encarecidamente, as grilhetas de Bruxelas.

Alguns Marxistas continuam a considerar (quando muito) a democracia como uma mero instrumento. Já a conquista do poder, essa é absolutamente fundamental. Deveria, claro, ser o contrário.

Só faz sentido falar em soberania, João Rodrigues, se ela residir no povo, que muito naturalmente a exerce através dos seus representantes e de acordo com a Constituição, como está bem patente na CRP em que o PCP diz que se revê, e ainda bem, a acreditar no João Ferreira naquele debate em que cilindrou o Mesquira Nunes, não numa vanguarda de iluminados que ainda por cima se tem revelado (a China é uma exceção, mas afinal porque adotou um capitalismo selvagem, não sem antes nos ter dado pérolas como o Grande Salto em Frente e a Revolução Cultural) francamente incompetentes na gestão da coisa pública (quando não sangrentos).

O ponto de vista de quem defende um nacionalismo progressista é perfeitamente respeitável, em princípio. Mas deve explicar como pretende atingir esse estágio primeiro e como manter a independência deste pequeno País depois, que nunca poderá passar sem outros (nem o fez quando tinha um Império) e sem sacrificar a Democracia. A ideia de uma comunidade de Estados Independentes é naturalmente conversa para enganar meninos, porque todos sabemos que as nações cuidam antes de tudo dos seus interesses, com ou sem ONU, UE, NATO, etc, etc.

Mas, sobretudo, não deve andar a tecer loas a sistemas passados ou presentes de que qualquer democrata deveria fugir a sete pés. E refiro-me concretamente à URSS e à China, pois claro.

Sempre gostaria de saber se João Ferreira secunda a sua opinião...

Manuel Silva disse...

João Rodrigues:
Devia ter vivido no tempo da soberania plena de Portugal, quando não só mandávamos completamente em nós, como até tínhamos debaixo das patas povos desde África ao Extremo-Oriente.
Lembro-me de comer pratadas de soberania às 3 refeições, até ficava com indigestões por comer soberania demais.
Se o sectarismo ideológico pagasse imposto, você andava todo carimbado.

S.T. disse...

Passo por aqui só para deixar um linkezinho.

Desta vez é Coralie Delaume no jornal de direita Le Figaro:

http://www.lefigaro.fr/vox/politique/2018/12/06/31001-20181206ARTFIG00209-gilets-jaunes-macron-a-les-pieds-et-les-poings-lies-par-l-union-europeenne.php

Boas leituras

S.T.

Anónimo disse...

Excelente, João Rodrigues. Excelente.

Francisco Dias disse...

Manuel Silva: se, há 50 lhe perguntasse, você diria que uma côdea e uma azeitona chegavam e sobravam.

Francisco Dias disse...

O Jaime Santos afinal não leu o taxto linkado e sobretudo não reparou que as grilhetas já cá estão. Coisas de elite compradora.