sábado, 22 de dezembro de 2018

Coletes amarelos: Fracasso apesar do "apoio" da PSP

A iniciativa que tentava reproduzir os acontecimentos em França com os coletes amarelos redundou em fracasso. E isso aconteceu apesar da promoção feita, consciente ou inconscientemente, pela própria Polícia de Segurança Pública (PSP).

Com vários dias de antecedência, o comando da PSP informou a agência Lusa em que previa "manifestações de grande dimensão em todo o país".  

"Vamos ter manifestações de grande dimensão em todo o país e mandam as regras do bom senso ter pessoal operacional", disse à Lusa o porta-voz da Direcção Nacional da PSP, intendente Alexandre Coimbra, adiantando que a preocupação neste momento se prende com a dimensão do evento e não com qualquer informação de possíveis confrontos.  

Como se já não bastasse, a PSP informou a comunicação social de que iria chamar os seus agentes que estivessem em folgas e créditos de tempo, dando uma imagem de emergência. Era preciso mobilizar 20 mil polícias, algo semelhante à proporção da mobilização da polícia francesa.   Como foi dito, era um "dispositivo adequado", mas pedia-se que tudo fosse pacífico.

Dois dias antes do dia de protesto, a PSP - de novo - divulgou o mapa das manifestações programadas, com locais e horas previstas. Previa-se que as tais manifestações de grandes dimensões ocorressem em 17 pontos do país: Lisboa, Porto, Aveiro, Braga, Viseu, Viana do Castelo, Setúbal, Coimbra, Santarém, Castelo Branco, Bragança, Évora, Faro, Guarda e Leiria. Também foram formalmente comunicadas manifestações nas regiões autónomas dos Açores e da Madeira. Com base nessa informação, o JN até fez uma infografia:


Publicado no JN


Houve mesmo sites que usaram uma expressão equívoca, mas que até correspondia à realidade: "PSP divulga locais de manifestações".

E não fez só isso: previu que a maior manifestação seria no Marquês de Pombal em Lisboa, onde estão previstas “centenas de pessoas” e - pasme-se! - que é de lá que deverá partir um desfile em direcção à Assembleia da República durante a manhã. O que nunca veio a acontecer, talvez por desorganização.



Estas informações foram prestadas - parece - depois de contactos entre a PSP e os organizadores das manifestações (este link foi desactivado). Mas fê-lo no Porto e Braga e estava programado reunir-se com os promotores em Lisboa, o que deve ter acontecido. 

Ao contrário do que se disse depois - que se tratava de um movimento convocado nas redes sociais, inorgânico - afinal havia organizadores e até um auto-proclamado Movimento dos Coletes Amarelos de Portugal (MCAP). Sabia que as movimentações programadas estavam a ser aproveitadas para o lançamento de iniciativas da extrema-direita. Como escreveu o Expresso, citado pela radioalfa:

O movimento tem várias faces e perfis no Facebook, mas tanto quanto é possível perceber terá começado em novembro através de um grupo de camionistas, que lançou a ideia de um protesto nacional nas redes sociais. A ideia terá ganho força própria e, paralelamente ao Mcap, surgiu também o “Vamos parar Portugal”. Os dois movimentos começariam a ‘agir’ em conjunto nas redes sociais até que, na semana passada e depois de terem sido noticiadas as ligações do “Vamos Parar Portugal” a grupos da extrema direita, “cortaram relações”, diz a fonte contactada pelo Expresso.

A PSP estava no meio deles, para melhor os seguir através de agentes infiltrados, foi a informação prestada oficialmente. Mas havia uma mensagem: o MCAP nada tem a ver com a extrema-direita:

A PSP tem debaixo de olho, há mais de duas semanas, todos os grupos organizadores do protesto "Vamos parar Portugal", que começou a ser preparado nas redes sociais há mais de quatro semanas e pretende replicar, sexta-feira, por cá, os efeitos dos "coletes amarelos" de França. A monitorização está a ser feita através de grupos no WhatsApp, em redes sociais e pequenas reuniões que têm sido realizadas nos últimos dias, apurou o JN junto de elementos da força de segurança - que tem este protesto sob sinal vermelho sem o "tentar desmobilizar". O país pode parar amanhã. Ou não. Para já, uma das principais conclusões da PSP é que não se confirma a alegada ligação à extrema-direita dos mentores do Movimento Coletes Amarelos Portugal (MCAP) - que organiza o protesto. "Aquilo que tem sido identificada é uma militância organizada, sem ideologia e muito populismo", apurou o JN.


Todas estas informações oficiais da PSP - como era de esperar - espalharam-se como fogo pelo feno.

Os meios de comunicação social reproduziram estas informações oficiais e - consciente ou inconscientemente, sob a pressão da concorrência e da informação - acabaram por participar maciçamnte na convocação das manifestações. Foi mesmo como que um programa lançado com a sustentação da totalidade comunicação social. Foi na rádio, nas televisões (RTP ou  TVI), até nos bombeiros e aos confins da lusofonia. Depois da PSP, divulgar o mapa das manifestações, cada órgão nas referidas localidades e cidades e estradas amplificavam o que se passava na zona. As autarquias criavam novas notícias ao reagir ao anunciado. Difundiam-se conselhos para evitar os protestos. Até as que ficavam de fora do protesto, difundiam a novidade. Até se difundia o escudo da PSP na promoção das manifestações.

O plano era já dado como adquirido. Veja-se o Expresso, citado pela radioalfa, com a descrição de algo que parece uma operação militar:


Uma marcha lenta e buzinão na ponte 25 de Abril e no IC 19, que permite o acesso dos automóveis vindos da linha de Sintra para Lisboa. No Marquês de Pombal, nas portagens de Alverca da Autoestrada do Norte e nas da A8 que recolhe o trânsito da zona do Oeste que vem para a capital ou na entrada da Ponte Vasco da Gama no sentido Sul/Norte. A partir das sete da manhã da próxima sexta feira, todas estas vias de acesso a Lisboa vão ser alvo de ações do “Movimento Coletes Amarelos de Portugal”.

Esta propagação era mais do que expectável. Era previsível. Se o objectivo era evitar que se desse um evento de elevadas proporções, então a estratégia adoptada foi a contrária. Porque a PSP é uma fonte oficial, policial e com contactos com outras formas de segurança, por isso tida como credível. Era com se houvesse um apoio informal de elementos da PSP à manifestação, algo que transparece de mensagens na internet que eram lhe eram dirigidas (ver Movimento da PSP apoioa manifestações dos coletes amarelos?).

Dada a dimensão e velocidade da propagação, a situação começou inquietar politicamente. Membros do governo estavam a ficar "muito preocupados". Como se afirmava no Público:

Um membro do Governo admitiu ao PÚBLICO a sua preocupação com a possibilidade de os protestos virem a ter uma adesão significativa, nomeadamente na sequência da revolta dos "coletes amarelos" em França e com a reacção de Macron. Ou seja, o facto de o Presidente francês ter cedido a algumas das revindicações feitas pelos manifestantes, nomeadamente o aumento de 100 euros no salário mínimo, pode eventualmente levar os portugueses a acharem que vale a pena protestarem porque há exemplos de governos a cederem sob a pressão da rua.

A revista Sábado fazia eco dos receios do Governo de que as "manifestações possam ser infiltradas por movimentos extremistas e por criminosos comuns, que provoquem violência, destruição e roubos". O presidente da república foi apaziguar os camionistas antes da manifestação. o poder político alertou para populismos. As duas centrais sindicais desmarcaram-se da convocação.


Depois de tudo, o resultado final foi um autêntico fiasco. Para uma manifestação altamente promovida pela comunicação social, o desfecho foi risível. Em muitos locais, como em Lisboa e Coimbra, havia mais polícias do que manifestantes. De onde tinha vindo a informação inicial de que se realizariam "manifestações de grand dimensão em todo o país"? Marcelo Rebelo de Sousa elogiou "a maturidade, sensatez  bom senso" dos portugueses".

Dito isto, há uma questão que não se deve afastar:

Há razões para o surgimento de um movimento popular de coletes amarelos em Portugal. E mais tarde ou mais cedo isso pode acontecer.

A desvalorização continuada do trabalho, a desarticulação do aparelho de Estado (na Saúde, na Justiça, etc.), a desarticulação e progressiva desvalorização pela lei das formas regulares de representação sindical, a atomização da relação cívica, a corrupção larvar que se pressente nas relações financeiras com o Estado, a cobertura oficial do que se passa no sistema financeiro, a injustiça que representa o actual sistema judicial, a ampliação das desigualdades sociais, etc., etc., tudo isso está a cavar um fosso enorme entre a classe política e o povo. A social-democracia está a suicidar-se. Veja-se o que foi recolhido pela JN:

Ao JN, Hirondino Isaías, membro do PS de Lisboa, que faz parte da organização, garantiu que o MCAP começou na Região Oeste, com "gente simples, trabalhadora, sem ligações à extrema-direita". "Há uma insatisfação geral e queremos mostrar à classe política que o sistema tem de mudar e responder a uma necessidade de credibilidade", disse. Num encontro em Setúbal, terça-feira, entre as 20 pessoas, estavam casais com filhos, trabalhadores portuários e jovens. Não há só uma razão: "É tudo: salários baixos, reformas pequenas, a corrupção...". O sucesso do protesto pode depender da adesão de camionistas. Para já, nenhuma associação do setor participa.
Recorde-se que, quando se deram os movimentos em França, a reacção oficial do governo Macron foi - como forma de desmobilização - alertar de que se tratava de um movimento da extrema-direita. E que "profissionais do distúrbio" viriam dos bairros periféricos "partir tudo". E que iria haver mortos.

Se desta vez parecia haver em Portugal uma tentativa de aproveitamento por parte da extrema-direita, possivelmente a esquerda deveria começar a pensar se não quer estar nesse movimento. Porque todas as razões que levaram franceses à rua, existem em Portugal. Resta saber se a esquerda quer a direita e a extrema-direita a capitalizar esse movimento de descontentamente geral contra uma certa forma de governar - à direita, sulinhe-se - que se tem vindo a verificar durante décadas, independentemente de quem está no poder. Mas isso fica para outro post. 

8 comentários:

Manuel Galvão disse...

Portugal, nem na temporada 3, tem direito a uma primavera árabe...

Unknown disse...

700 euros de sal.mínimo? quando a esmola é muita o pobre desconfia...

Além disso Portugal não tem riquezas cobiçáveis que justifiquem a trabalheira (e o custo) de promover por cá uma primavera árabe...

Geringonço disse...

Se a social-democracia ainda estava viva, em 2008 cometeu o suicídio quando os partidos ditos sociais-democratas escolheram salvar os bancos, os “investidores”, a Goldman Sachs...

A agitação social que se tem vindo a assistir é o resultado dessa escolha.
A “recuperação” económica não é sentida pela larga maioria mas os baixos salários, a precariedade e a sensação de regressão são...

O declínio do padrão de vida é tão evidente ao ponto que nos EUA e outros países ricos a esperança média de vida está a diminuir.

“Isto não acontecia há décadas, e as recentes quedas (da esperança média de vida) são maiores que quedas anteriores”

https://www.reuters.com/article/us-health-lifeexpectancy/life-expectancy-declines-seen-in-u-s-and-other-high-income-countries-idUSKCN1L723R

Mas quando olhamos para a comunicação social dominante a realidade que nos conta é que a economia vai de vento em popa, logo, não se queixem…

Se acontecer aquilo que suspeito que vai acontecer, ou seja, se o/ a adversário de Trump for (mais uma vez...) um/ uma neoliberal Trump ganha novamente as eleições.

A minha opinião é que movimentos como os “Indignados” e “Occupy Wall Street” têm que voltar mas desta vez as exigências tem que ser mais concretas, na altura destes movimentos havia vontade de mudança (prontamente descredibilizada pela comunicação social) mas não se sabia muito bem como e o que mudar…
Eu não estou a ver o Partido Socialista a pregar o último prego no caixão do Neoliberalismo...

Unknown disse...

A manifestação não chegou a sair do Marquês de Pombal não se percebe muito bem poquê.

Até porque estavam lá meia-dúzia de taxis parados à espera de cliente. Os manifestantes podiam ter aproveitado, e iam todos de taxi...

Konigvs disse...

Depois de 2005 este foi o segundo Arrastão.
Se o primeiro foi de 500 pretos que limparam a praia de Carcavelos, este foi de dois milhões de pessoas que pararam completamente o país.
Ambos Arrastões foram criados pelos média, pela polícia e pela ridícula extrema-direita.

Raposo Tavares disse...

O protesto saiu abafado. Os pobres manifestantes, mesmo com os chalecozitos amarelos vestidinhos, não conseguiram sobressair na multidão de jornalistas e de polícias presentes.
Coitados.

esteves, ayres disse...


Boas Festas e Um Próspero Ano Novo, com saúde e alguma alegria.
Por hoje é tudo!

Anónimo disse...

Essa historia dos coletes amarelos é muito instigante. Ela assume características e posições diametralmnete opostas no conteúdo, mas exprime a meu ver um desejo comum: as pessoas desorganizadas, isoladas, querem ser ouvidas, e usam para se organizar as redes sociais. Ora as redes sociais tiveram exito sobretudo porque as pessoas emigram, ou seja abandonam as suas comunidades de base, por várias razões. Sobretudo para ter uma vida mais digna, ou ganhar mais. Se cada um continuasse morando junto da família ou integrado no trabalho tradicional ou na sua aldeia como antigamente será que as redes teriam tanto sucesso? Eu tenho uma amiga brasileira que passa o dia falando de Lisboa com mãe em Fortaleza por WU, mas não lhe passa pela cabeça voltar para Fortaleza. Ora não era o neoliberalismo que dizia que as pessoas deveriam estar sempre prontas a mudar de residência para progredir na vida? Nesse sentido os coletes amarelos não pode ser um resposta au "esfacelamento" da sociedade, e por isso mesmo, independentemente do conteúdo das reivindicações uma resposta ao neoliberalismo?
Acho que as redes sociais destroem a democracia ao usar os dados contra ela e por outro pondo em contato pessoas com ideias semelhantes, mas são dois movimentos distintos. O primeiro é um atentado à democracia voluntário. O segundo pode ser um atentado à democracia se as ideias forem fascistas. Mas se as ideias forem revolucionárias pode ser um ataque ao neoliberalismo. No meio desta tripla tenaz vejo mal as democracias liberais sobreviverem.