quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Venezuela


 
Enquanto as atenções se viram para a Ucrânia, o resto do mundo vive em convulsão de que não será isenta de responsabilidades a recente instabilidade financeira que afectou os países em vias de desenvolvimento. Na Venezuela, os confrontos entre apoiantes do governo e oposição estão em plena escalada. Depois de ter ganho as eleições presidenciais em Abril de 2013 e reforçado a sua legitimidade democrática nas eleições municipais de Dezembro, Nicolás Maduro enfrenta uma oposição, apoiada pelos EUA, que procura derrubar o presidente eleito através do caos no país. Claro está que olhando para a comunicação social parece que a oposição luta pela democracia contra a tirania dos chavistas. O Público escreve pérolas como esta – “onde há duas semanas a população se manifesta contra o regime chavista” –, não dando conta das muito maiores manifestações de apoio a Maduro ou da disputa em curso na oposição venezuelana entre o “putchista” Lopez e o ex-candidato Capriles.

No entanto, a recente mobilização da oposição não pode ser desligada da crise que o país hoje atravessa (não que a amálgama feita pelo Público sirva para entender a situação económica). Este texto do economista Jacques Sapir fornece algumas pistas interessantes. A Venezuela impôs uma taxa de câmbio fixo do bolívar em relação ao dólar, com controlos cambiais, há muitos anos atrás por forma a impedir a fuga de capitais. No entanto, foram muito raras as actualizações do valor da taxa (apoiada nas receitas de petróleo e empréstimos internacionais), permitindo a emergência de um mercado "negro" de bolívares contra dólares, onde o primeiro estava mais desvalorizado. Ora, este mercado afirmou-se cada vez mais como o mercado de facto de bolívares por dólares para todos os agentes económicos domésticos e como uma oportunidade de lucro fácil para quem tem acesso a dólares à taxa oficial (por exemplo importadores ou turistas).

Os esquemas de dinheiro fácil multiplicaram-se, com importadores a fazerem transitar o mesmo camião de mercadorias várias vezes na mesma fronteira - por forma a pedir licença de acesso a dólares à taxa oficial – ou aviões com lugares esgotados, mas que só viajam com metade dos lugares ocupados – o bilhete de avião é suficiente para se pedir dólares à taxa oficial. Com estas oportunidades de lucro fácil, o mercado paralelo criou uma bolha especulativa onde o bolívar se transacciona a um valor muito mais baixo do que a taxa oficial. Esta crescente diferença explica parcialmente o aumento da inflação no país e a especulação em torno de determinados bens, num resultado contrário ao que se pretendia com a taxa de câmbio fixa. O Governo venezuelano anda por um caminho estreito. Por um lado terá de dar passos na unificação da taxa oficial com a taxa da “rua”, desvalorizando a primeira e causando assim o colapso da especulação na segunda. Todavia, num contexto de inflação elevada esta terá de ser uma operação acompanhada de uma vigilância apertada dos sistemas de provisão e de preços e uma reforma fiscal, como também aponta Sapir. Não será fácil, mas uma coisa é certa: a maioria dos venezuelanos não se esqueceram do que foram décadas de neoliberalismo e taxas de pobreza de 60% da população para quererem voltar ao ponto de partida.

9 comentários:

meirelesportuense disse...

É simplesmente inaudito o que se vê na Ucrânia.

Jose disse...

A especulação sobre a moeda só explica que há uma falsidade estrutural na economia.
A corrupção fica garantida e segue-se a desordem.
O que fica por explicar é a incapacidade do governo de formular uma política que não seja uma verborreia inconsequente e que sempre invoca 'forças do mal' para justificar a sua inconpetência.

D., H disse...

Um ataque cerrado a Maduro. A nacionalização dos sectores estratégicos está-lhes atravessada. Pois é, "a democracia é quando eu mando em você, quando você manda em mim é ditadura"...

Anónimo disse...

José, a sua cegueira leva-o a não compreender o que está acontecendo com o bolivár - moeda da Venezuela. Vou tentar explicar doutro modo.

A especulação ilegal sobre a moeda, só se explica por intervenções externas interessadas em desvalorizar cada vez mais o bolívar.
Com a especulação ilegal feita, há gente que se aproveita.

A corrupção quer regressar em força a este país, aonde como diz e bem o texto, há anos antes de Chaves, a pobreza era 60% da população.
Para haver 60% de pobreza, era porque muita corrupção existia... mesmo que alguma fosse legalizada.
Como é que um país com tanto petróleo, tinha tanta pobreza ? Corrupção. É um facto, embora desagrade ao José, que essa pobreza tem sido enormemente reduzida.

Parece que este lider da oposição que faz estas coisas todas, é na vida..... negociante de petróleo.


Moreno tem ganho as eleições todas, o que irrita ainda mais certa gente.

Anónimo disse...

De resto, parabens por este blogue, que é dos melhores da net, e deve ser obrigatório dar a conhecer.

Jose disse...

«...embora desagrade ao José, que essa pobreza tem sido enormemente reduzida.»
Sempre acontece que a pouca convicção nos argumentos procure refugio na desqualificação do opositor.
Releia o que escreveu e verá a inconsequência dos seus argumentos para justificar que 50% de inflação não seja a medida da governação bolivariana!
A pretensa revolução criou uma clientela que não consegue sustentar sem destruir a economia!

Anónimo disse...

"Sempre acontece que a pouca convicção nos argumentos procure refugio na desqualificação do opositor."
É precisamente o que você está a fazer comigo. E com Chavez ou Moreno.

Releia o que escreveu, e negue novamente que grande parte da desvalorização bolieveriana é devido a especulação de Bolsa e outros?
Será que tais coisas não existem, josé?

Escusa de inventer números e dizer que a desvalorização não é devido a Bolsa e actividades de "casino".

Quanto a clientela, porque não diz que era precisamente com clientela que um país com tanto petróleo , tanto, tivesse tanta pobreza na ordem dos 60%.

Ahhh, era tudo contratos justos, e que traziam beneficios para as populações.
Só a esquerda é que tem corruptos. Percebido, josé. É tanta a cegueira...




Anónimo disse...

Face a um artigo destes não sei quem estará mais a leste da realidade se Vitor Gaspar e os arautos da austeridade expansionista ou se os autores deste blogue sempre a procura do "neoliberalismo".
O problema da Venezuela é uma política económica que simplesmente não funciona. É possível mudá-la sem recorrer a extremos.

Anónimo disse...

Temos nestes comentários mais uns bons exemplos desta gente ranhosa cuja opinião é só uma: O socialismo não funciona. E vêm falar como senhores doutores que são ou queriam ser, do caso da Venezuela. Não se esqueçam que mesmo existindo esta tão clamada "crise" na Venezuela, a SAÚDE E A EDUCAÇÃO continuam gratuitas para TODOS. Por isso percebam espantalhos, o atraso é onde nós estamos. A Venezuela representa o progresso, representa a realidade do Socialismo moderno. Se contra tudo e contra todos consegue resistir, imaginem então um mundo de Socialismos em cooperação com o objectivo de dar o salto civilizacional que a Humanidade desesperadamente necessita.