quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Delírios, farsas e ilusões

O Ricardo Paes Mamede já se referiu, aqui e aqui, ao irrealismo perverso que povoa os cenários macroeconómicos resultantes das recentes avaliações da Troika. Nesses termos, para que Portugal possa reduzir o peso da dívida pública no PIB entre 2014 e 2019 é necessário, entre outras condições: alcançar um crescimento nominal na ordem dos 3,6% ao ano (2013 fechou com uma contracção de 1,6%); obter um saldo orçamental primário de cerca de 2% em 2015 e em torno dos 3% em 2019 (foi de -1,6% em 2013); fixar a procura interna entre 0% e 1,4% (foi de -1,1% no final de 2013); e garantir a descida das taxas de juro da dívida pública a dez anos para valores entre os 3 e os 4% (quando estas persistem em rondar os 5%, mesmo depois do anúncio, aos sete ventos, do «milagre económico português»).

Como já vem sendo habitual, a plausibilidade destas estimativas estatela-se ao comprido quando se constatam as suas contradições. De facto, não é expectável um aumento da procura interna quando, ao mesmo tempo, se pretende reforçar a dose de austeridade, sendo igualmente ilusório pensar, como sublinha o Ricardo, que os níveis de endividamento das famílias e das empresas (a que se soma o desemprego e a emigração) possam alimentar a expansão do consumo interno e do investimento. Ao que acresce, ainda, a circunstância de ser necessário um aumento inaudito das exportações para que a procura externa líquida compense a anemia prolongada do mercado interno (e a estabilização das importações), expectativa que a própria Comissão Europeia, nas suas «Previsões de Inverno», tratou já de refrear.


É pois todo um exercício de desonestidade e cinismo, de um falso wishful thinking, que envolve, uma vez mais, as previsões estabelecidas pelo FMI no relatório da 10ª avaliação do Memorando de Entendimento. Aliás, basta comparar essas previsões com as da versão inicial do Memorando (em Junho de 2011) e com a crueza dos números (gráficos aqui em cima), para concluir pelo menos três coisas:

1. É o ano de 2008, marcado pelo deflagrar da crise financeira, que constitui o momento central de desestabilização da situação económica do país, agudizando de forma exponencial alguns dos factores críticos que vinham de trás (mas que estavam, até aí, com margens relativas de controlo político, incomparáveis com o caos que desde então se instalou). De facto, é a partir deste ano que se alteram, de modo muito evidente, as trajectórias do PIB nominal (que entra em efectiva estagnação) e do desemprego, da dívida e do défice (que disparam - em sintonia com que se passou na maior parte dos países europeus - para níveis nunca registados desde 2000).

2. O optimismo sobre as virtudes da «austeridade expansionista», tão lunaticamente acarinhada por Vítor Gaspar, é desfeito num ápice. As metas e objectivos inscritos na versão inicial do Memorando de Entendimento (de cujos «méritos» Eduardo Catroga se ufana) fracassam em toda a linha. Entre a realidade e a ficção do «súbito ajustamento estrutural» passa a existir um indisfarçável gap: entre 2011 e 2013 o PIB contrai (quando as previsões iniciais, de 2011, apontavam para um cenário de crescimento); o desemprego galopa (quando deveria, segundo o governo e a Troika, começar a descer a partir de 2012); o défice estagna nos 6% (quando era suposto descer até aos 3% em 2013); e a dívida pública aumenta a um ritmo muito superior ao previsto (não estagnando - como se previa - no final do ano passado).

3. Perante uma economia dilacerada e uma sociedade a deslaçar-se, por que razão se haveria de acreditar que uma receita falhada vai começar, de súbito, a funcionar? Porque se acertam os relógios para a fim do Memorando, se o que importa são as «condicionalidades» associadas à saída (seja ela mais suja ou menos limpa)? Sem reestruturar a dívida (e mantendo-se os constrangimentos da pertença ao euro), como considerar plausível a inversão do ciclo económico, se a vigência do Tratado Orçamental limita implacavelmente quaisquer políticas de natureza contra-cíclica? O truque é simples: basta ignorar tudo isto e empurrar com a barriga, trasladando consecutivamente, numa espécie de mito de Sísifo ao contrário, os «amanhãs que cantam» para o ano seguinte. Isto é, mal se constate que os amanhãs de ontem, afinal, hoje não cantaram.

9 comentários:

D., H disse...

São mesmo delírios…
Sem a reestruturação da dívida e outras políticas, ou mesmo o abandono do euro, a vida dos portugueses vai continuar a ser um inferno. Não é possível viver aqui. Ponto. As eleições europeias são para quê (ou para quem)?!

Jose disse...

Nem uma palavra para investimento, nem uma referência a investimento estrangeiro.
Uma salada aritmética que imagino seja pouco diferenciada em termos de wishful thinking entre um qualquer burocrata de economia planificada e um funcionário do FMI.
Às perguntas essenciais - que condições levam alguém a arriscar o seu ou a conseguir que outros o façam em investimento? Pode ser uma opção para criar essas condições o Estado despejar moeda em despesa ou investimento directo?
Quem for honesto terá que dizer não à segunda pergunta e isso levá-lo-à a enfrentar a primeira.
Aí reside o grande incómodo e total indisponibilidade dos 'inteligentes' de esquerda que se vão entretendo com outros muito elaborados exercícios!!!!

Anónimo disse...

Qual é a fonte do saldo orçamental primário de 2013?

Anónimo disse...

então josé mas o que é que uma coisa tem a ver com a outra? Uma coisa é o apontar de um erro, o outro é dizer que isso, por si só, não corrige uma situação difícil.
Achas que ter um governo que faz previsões erradas e que age de acordo com essas previsões faz com que haja mais ou menos investimento?
Se responderes genuinamente a esta pergunta por certo a resposta apenas pode ser: leva a que haja menos investimento. Portanto das duas uma: ou este governo faz mal a todos, capitalistas e trabalhadores, ou então há outros factores aqui em jogo, que o governo tenta esconder, ou convencer-nos que não há, mas que são o determinante desta situação em que nos encontramos (o que não quer dizer que sejam a única razão).
Ora tendo em conta que o governo não devia ser nem publicitários, nem marketeers nem agentes de execução de dívida nem testas de ferro de outros interesses que não sejam o dos cidadãos, se o governo age contra os interesses da nação e a favor de apenas alguns elementos da nação, aí esse governo não está a fazer o seu serviço. Não achas?

Nuno Serra disse...

Caro anónimo das 11h51,
Agradeço a sua chamada de atenção para o valor do saldo orçamental primário de 2013, que é na verdade de -1,6% e não de 0,5% (procedi já à respectiva rectificação).
As fontes dos dados dos gráficos são a 10a avaliação do FMI, a versão inicial do MdE e, para valores anteriores a 2006, a página do Pordata e do Conhecer a Crise.

Nuno Serra disse...

Acrescento que o valor de 0,5%, inicialmente indicado, é o que reflecte o saldo orçamental estrutural primário, não sendo contudo esse o que permite a comparação com as metas de 1,9% e de 3,1%, estabelecidas pelo FMI para 2015 e 2019. Isto é, o valor de -1,6% em 2013 torna ainda mais implausiveis essas previsões em termos de saldo orçamental primário.

Jose disse...

Anónimo das 15:10 - não, não acho!
Há pelo menos 40 anos que os governos compõem contas e embelezam futuros!
Além de este governo não se apresentar como mais optimista que quem representa os nossos credores, montou elementos de transparência em tempos da mais obscura das condições.
A partir daí a questão é secundária pois se mais falarem mais divergem!
E sism oS governoS DEVEM ser -publicitários, - marketeers -agentes de execução de dívida ...

Fernando Salema disse...

José quando já tivemos oportunidade de assistir à forma como este governo trata as privatizações, falando em concreto, da privatização da ANA indo recauchutar um velho amigo, a VINCI, que muito virá a ganhar no futuro com este negócio, passando pela vergonha que se passou na EDP, na qual caiu um secretário de estado "a pedido" porque estava a levantar muitas ondas para renegociar as rendas, acabando na mais completa vergonha que é o caso BPN que foi reprivatizado limpinho de toda a divida, estar a falar de transparência só pode ser para rir um bocado. Depois e pegando nas suas palavras, nem uma palavra em relação ao que foi apresentado no artigo, nomeadamente os "desvios colossais" em relação ao disposto no programa elaborado pela troika e governo! Também acho irónico que tenha falado em nem uma referência a investimento uma vez que de facto você também pouco fala acerca do assunto a não ser lançar umas perguntas em jeito de tentativa de validação da politica governamental quando o artigo comprova por A mais B que o que tem sido praticado é exactamente o oposto das condições das quais fala. O que mais me choca é a resistência quase psicótica aos dados do real, há uma defesa absolutamente cega e autista que deturpa a realidade tenta moldar o pensamento das pessoas à inevitabilidade da reconversão aos méritos da austeridade.

Anónimo disse...

Não se fala em soluções para o investimento porque elas não existem enquanto nos for negado o que começou a ser feito em 2005 mas que devia ter sido feito desde o 25 de abril : o investimento estatal massivo em ciencia , educação e formação.
Os alemães são hoje o portento que são porque o fizeram no tempo devido.
Já nós, cavacamente , estoiramos os subsidios que recebemos da UE em tecnoformas, BPNs e quejandos.
Quem apoia este governo e vêm falar de investimento devia era ter vergonha na cara .
O único investimento que nos poderia ser benéfico é precisamente o que exige um alto nivel de formação da população activa. Para trabalho indiferenciado existem os paises asiaáticos e sul americanos a trabalhar por um prato de lentilhas. É esse investimento que o senhor José sugere? Pois então é continuar a destruir emprego e substitui-lo pela economia da sarjeta, que , aparentemente, é aquela que acha ser boa para o povo português...
Isto já não vai lá dentro do euro, pense um pouco nisso.
Em 2011, com o erro do chamar o FMI e a assinatura do memorando, havia uma janela muito muito estreita que nos permitiria manter á tona até a UE finalmente perceber que têm de mudar de direcção. Até lá era manobrar o bote o melhor que se pudesse.
Mas para isso era preciso ter tido um governo competente ao leme. Ora o que lá puseram os alucinados portugueses foi uns timoneiros que de marejar não percebem um cu, e o resultado, claro, foi limpinho : espetanço contra as rochas.
A saida do euro começará a ser debatida em 2015. É inevitavel. A destruição deixada por estes oportunistas/incompetentes será mancha que levará 50 anos a ultrapassar.