sábado, 22 de fevereiro de 2014

Da social-democracia e dos seus adversários principais

A natureza supranacional e pós-democrática do Consenso de Bruxelas faz com que as instituições que o incarnam possam apresentar toda a brutal verdade sobre o projecto em curso: da insistência nos cortes salariais até à ausência de quaisquer referências à pobreza e às desigualdades. A obsessão com os cortes salariais esquece que os salários são uma fonte essencial da procura e que cortar salários é uma boa forma de aumentar a probabilidade de insolvência de muitos. Com os cortes propostos pela Comissão Europeia, o desemprego, sempre resultado de um misterioso regabofe salarial, seria alinhado com o seu valor dito estrutural, que estaria agora algures nos 12%. Estrutural para esta gente é a taxa compatível com um misterioso equilíbrio de longo prazo, dependente das forças da oferta, ou seja, de mais contra-reformas, ao mesmo tempo que se assume que os cortes salariais não têm impactos negativos no crescimento e que se esquece que o longo prazo é um encadeamento de curtos prazos onde a compressão da procura destrói capacidade produtiva, naturalizando taxas de desemprego duradouramente elevadas. Irrealismo bárbaro, de facto. Realismo civilizado é assumir que austeridade é a grande força de destruição de emprego e que tudo o que a contenha e supere gera procura e logo emprego.

É claro que as correias políticas de transmissão nacional, de que este governo é o exemplo mais acabado, têm de ser mais hipócritas do que a Comissão, até porque ainda dependem do apoio popular: dizem que o “ajustamento” já foi feito no sector privado, graças às contra-reformas laborais, mas continuam a aprofundá-las e a contar também com os efeitos de contágio dos cortes salariais que se preparam para efectuar, depois das eleições, como sublinha Manuel Esteves, no sector dito público e para lá dele, incluindo nos salários indirectos, ou seja, nas pensões. Isto não tem fim nesta estrutura.

E ainda dizem, como Passos, que são social-democratas. A social-democracia tem as costas largas, mas não tão largas que nela se possam incluir os principais adversários da política económica de pleno emprego e do Estado social universal, centrado numa visão abrangente e inclusiva dos direitos de cidadania, onde se incluem os direitos sociais que não param à porta das empresas. A social-democracia pressupõe um princípio de soberania democrática, onde se inclui o controlo democrático da moeda e dos capitais. Passos Coelho, ao defender a austeridade como a “nova normalidade” e ao apostar num processo de integração que esvazia a soberania democrática, condição necessária para o tal projecto social-democrata, confirma-se como o seu principal adversário nacional, como o símbolo da transmissão do neoliberalismo seguramente instituído em Bruxelas.

O que me espanta é que a maioria dos verdadeiros social-democratas ainda conte com Bruxelas e não perceba que a social-democracia exige uma desobediência democrática, onde a escala nacional é preponderante, culminando num esforço para desmantelar este regime monetário e financeiro europeu, o melhor aliado de gente como Passos. Enquanto a social-democracia não seguir, por exemplo, as pisadas de um Oskar Lafontaine, entre muitos outros, está condenada à derrota que conta: a de um projecto de sociedade decente.

8 comentários:

Jose disse...

A todo o tempo se aceitaram os prazos de abertura da CEE à globalização.
O projecto idioto-socialista sempre apontou para o nosso potencial de crescimento tecno- científico de que temos para mero exemplo umas tantas borbulhas que comparam com a bem mais geral inconsequência dos investimentos em educação.
Ainda hoje se diz que o modelo não é de salários baixos o que significaria pôr no desemprego metade da população trabalhadora: ignorante, inculta e improdutiva.
A nós cabe assumir os custos dos delírios abrilescos!

João Vasconcelos-Costa disse...

Claro que concordo com o "post", mas com uma reserva só. Julgo que já está mais que entendido que o PSD não tem nada de s-d. No entanto, talvez haja ainda muita gente que fique confundida com os nomes, distinguindo s-d de um coisa indefinida, só justificada em termos históricos, o "socialismo" do PS. Julgo que é mais importante clarificar que o PSD não merece qualquer discussão sobre a sua incoerência, só nominal, porque de facto sempre foi de direita e hoje é neoliberal. Diferente é a rendição do PS, como de toda a social-democracia europeia, ao ordoliberalismo ou social-liberalismo, ou o que quiserem (consenso de Bruxelas está muito bem, como designação).

André disse...

1. o José considera a social- democracia coisa de gente idiota.

2. O José acha que os extraordinários resultados que o sistema educativo português conseguiu ao longo de 40 anos, reconhecidos internacionalmente, afinal não existiram.

3. Acha também que investir nas crianças portuguesas é inconsequente.

4. Acha que o povoléu, que o José nitidamente despreza, é uma cambada de incompetentes e calaceiros.

5. Acha que o 25 de abril é culpado pela maior crise internacional dos últimos 80 anos e também é culpado pela medíocre construção do Euro.

Porra Zé és um camelo que fachavor.

R.B. NorTør disse...

Começando pelo fim, a frase que se destaca, mas que tem andado arredada de todos os discursos é mesmo "um projecto de sociedade decente". O motivo pelo qual, pelo menos para o indígena, esse projecto anda distante do discurso está relacionado, desconfio, com 50 anos de deturpação social. Por muito valor cinematográfico que tenha, todo o Cinema Novo tem a figura do "rico" como alguém cheio de problemas e sempre de aspecto pesado e cinzentão. Daí que comentários como o do Jose sejam de facto a melhor imagem do país.

Gente que acha que de facto não tem direito a saúde, que acha que descanso é um privilégio só para alguns e que abomina quem se quer educar são a base de apoio cego do desgoverno que nos lidera. André, não vale a pena partir para o insulto fácil. Ao contrário do Governo, que o faz premeditamente e por malícia, estes Joanes fazem-no por outros motivos.

Caro João, claro que "Realismo civilizado é assumir que austeridade é a grande força de destruição de emprego e que tudo o que a contenha e supere gera procura e logo emprego.". Só que isso é algo que tanto os executantes como os ideólogos do governo sabem. Simplesmente, não gera o emprego que eles querem e o João penso que também sabe isso. É um facto que o desemprego está a baixar. Mesmo dando de barato a saída de quase 1% da população activa, seria interessante era comparar o que aconteceu às remunerações para os que conseguiram "participar" no milagre. Ou como disse um distinto popular-democrata, os portugueses não estão melhores, mas o país está.

Quanto ao "Isto não tem fim nesta estrutura." dificilmente se podia concordar mais. Só que devia-se ter usado o plural e não o singular. Em ano de Europeias, em Portugal é o deserto no que a discussões diz respeito, e pela Europa só os que gritam mais alto se fazem ouvir. Basta ver como está a não decorrer a campanha para as Europeias. Que não diferem muito de quaisquer outras eleições em Portugal...

Anónimo disse...

O PSD não é nem nunca foi social-democrata. O PSD foi nem mais nem menos a continuação pós 25 de Abril do grupinho que antes do 25/4 tinha assento na A. Nacional.
Lutavam por dentro diziam eles.!
Pois, pois, eram todos muito corajosos mas assumir com clareza qualquer oposição de fundo ao sistema é que nunca fizeram. É que isso podia dar prisão, exilio, etc, e isso não era coisa que os rapazotes - Sá Carneiro, Balsemão, Mota Pinto e outros - estivessem dispostos.
O PSD é e sempre foi um partido de direita e de extrema direita, á semelhança, aliás, do CDS hoje CDS/PP, onde se acoitaram todos os saudosistas do 24/4.
Por isso é que a esmagadora maioria do povo português está hoje a pagar o seu sonho de liberdade, democracia e de bem estar. A direita (PSD e CDS/PP) não perdoa e não esquece.

Jose disse...

Como rodo o treteiro, ANDRÉ, em vez de contradirtar argumentos, prefere atribuir conclusões que modela por modo a justificar o insulto, produto maior da sua indigência intelectual!

Anónimo disse...

Temos actualmente em Portugal um Governo que é um seguidor fanático do Monetarismo da Escola de Chicago e que tem o apoio dos seus aliados internacionais , como o FMI, a actual Comissão existente em Bruxelas e a actual composição com maioria de Direita existente no Parlamento Europeu.
Por isso era fundamental alterar a composição política do Parlamento Europeu e a direcção que está em Bruxelas.
Quanto ao PSD este nunca foi um Partido Social Democrata, não sendo conhecido como tal como jornais de prestígio como o "Le Monde", francês que quando se refere a ele coloca sempre à frente do nome (Droite) e o "El País" espanhol que coloca (Liberal)

R.B. NorTør disse...

Caro Anónimo, a direita não esquece e o Portugal que a elegeu partidos que se assumem como de direita também não. Ou dito de outra forma, há por aí 25/30% de portugueses que chamados a escolher hoje um novo Governo, escolheriam novamente os meninos que nos governam.

Claro que nem todos gostam de ser chamados de preguiçosos por quem não sabe o que é um dia de trabalho honesto, ou de despesistas por quem deu cobro ao BPN, mas caramba, com estes número fico mesmo a pensar que os apoiantes deste governo são tendencialmente preguiçosos e despesistas. (Ou isso, ou como dizia uma figura histórica, vêm a lasca no olho dos outros e esquecem-se do barrote no deles.)