quinta-feira, 27 de setembro de 2012

O tempo urge e não espera pelas esquerdas



O BCE pretende fazer baixar as taxas de juro da Espanha comprando obrigações de curto prazo em enormes quantidades, sem limite. Ao declará-lo solenemente, espera intimidar os especuladores e, no final de contas, fazê-las baixar sem ter de intervir. Gestão de expectativas. Porém, só o fará se a Espanha fizer um pedido de resgate em que aceite aplicar a política depressiva, pró-cíclica, a que hoje se dá o nome de "austeridade". Como há dias disse Stiglitz, o BCE dá o remédio salvador com uma mão ao mesmo tempo que usa a outra para impor o veneno. Pouco importa se foi, ou não, para agradar aos alemães. É a loucura institucionalizada na UE.

Temos assim Rajoy obrigado a praticar políticas depressivas em doses cada vez mais penalizadoras, sempre iníquas, que aprofundam dramaticamente a crise financeira, económica e social. Mesmo sem Memorando e sem tutela da troika, Espanha já mergulhou na espiral depressiva da Grécia e de Portugal. Um pouco mais atrás, a Itália vai pelo mesmo caminho.

Para todos os efeitos, a agenda para o crescimento (lembram-se de Hollande?) está metida na gaveta. Algo inevitável porque numa política económica destinada a tirar a economia da depressão não há lugar para reduções da despesa e/ou aumento de impostos. É justamente o contrário que o Estado tem de fazer durante algum tempo, como bem viu Keynes. O défice tem de crescer para contrabalançar a retracção do sector privado. Acabar com as rendas dos parasitas do Estado, sim. Outra coisa é racionalizar a administração pública, uma tarefa que tem de ficar para melhores dias. Como começa agora a ficar claro para alguns comentadores ignorantes das interacções entre oferta e procura agregadas, nenhum destes países pode sair do inferno sem uma ruptura com a ordem instituída na UE. No mínimo, as esquerdas têm de dizer aos portugueses isto: não é possível sair da crise sem entrar em conflito com os credores.

Por muitas reuniões que façam em Roma, com ou sem Passos Coelho, os países da periferia da eurozona estão num beco sem saída dentro do actual quadro institucional. Quando se propôs renegociar o memorando grego, Samaras esbarrou no desprezo da Alemanha. Há dias, o ministro das finanças da alemão avisou que esperava a continuidade da política de Monti depois das eleições em Itália. Passos Coelho afinal não encontrou na 5ª avaliação a benevolência que Schaeuble tinha segredado aos ouvidos de Gaspar. Até dia 8 de Outubro a UE quer saber qual é a política depressiva a incorporar no orçamento para 2013.

 
Nas periferias do sul da eurozona, as instituições formais da democracia não mostram estar em condições de encontrar uma saída para o desastre. Anseia-se por uma alternativa credível, liderada por gente limpa, liberta de dogmas, capaz de mobilizar o melhor de cada país. De onde pode vir tal coisa? Em Portugal, há quem continue à espera da convergência das esquerdas (PCP, BE, PS) para encontrar quem lidere a mudança. Esta é a última oportunidade para esse projecto. Outra hipótese, menos ancorada no passado, seria a criação de um novo partido com capacidade para forçar a mudança na paisagem partidária. Uma coisa é certa: a crise deu um salto qualitativo e tomou conta do terreno da política, na rua e nas instituições da democracia. O tempo urge e não espera pelas esquerdas.

12 comentários:

Anónimo disse...

Gostaria de uma convergência de esquerdas, mas acho impossivel dps do chumbo do pec4 por parte do pcp e be. Empuraram o poder para a direita.

zorg disse...

No caso Português, não acredito que existam condições neste momento para que apareça um novo partido agregador ads sensibilidades à esquerda.

Por outro lado, essa experiência já se fez no passado, com a criação do BE que, com todos os méritos que possa ter, parece-me que falhou o objectivo de constituir uma alternativa de esquerda agregadora e com possibilidade de chegar ao poder.

Assim sendo, penso que um caminho para uma solução moderada desta crise só poderia passar por uma união de PCP e BE com a ala esquerda do PS. Ou seja, mais uma vez a chave é um PS de esquerda, leia-se, um PS muito diferente do que aquele que temos tido nestes 30 e tal anos de democracia. Estou bastante céptico e julgo que o PS vai, mais uma vez, desiludir e impossibilitar a tal solução moderada. Espero estar enganado.

Anónimo disse...

Lamento imenso mas o único remédio que temos é sair do euro.
Não vale a pena andar-mos a a empatar.
Se assim não for mais dia menos dia andamos todos a pedir esmola e depois quero ver.
Tal saída, como diz o prof.Ferreira do Amaral, deverá ocorrer ordenadamente e sem grandes sobressaltos além dos que se prevêm.
A chamada UE já não existe e por isso, caminhar para uma maior integração, como alguns defendem, é, nem mais nem menos, um suicidio colectivo como, aliás, será se não sair-mos.
A UE afinal não foi feita - ao contrário do que foi vendido por Jaques Delors e outros na altura - não foi feita, dizia, para trazer bem estar aos povos. Ela foi feita, única e exclusivamente, para servir os interesses das grandes multinacionais e dos grandes interesses financeiros e trazer para a Europa o modo de vida(iniquo e miserável) dos EUA.
E estão a conseguir faze-lo via austeridade.
No fundo, no fundo, actualmente na UE está a decorrer uma guerra de classes e os ricos. sem dúvida, e com a colaboração dos governantes eleitos( os tais mentirosos, ladrões e assassinos a que se refere o padre Mário da Lixa) estão a ganha-la.
Mas como Deus é grande, mesmo assim pode ser que se fodam.!
É essa a secreta esperança dos Portugueses.

JVC disse...

Lapidar!

D., H disse...

(Até dia 8 de Outubro a UE quer saber qual é a política depressiva a incorporar no orçamento para 2013)

Devagar devagarinho, depois do “punch bem assente” e do recuo, lá vêm eles novamente com pezinhos de lã. Com a arrogância mais contida.
Passos Coelho acha que a questão da TSU foi “influenciada por questões ideológicas”…Seja lá o que isso for, ele que nomeie a coisa como entender, mas comprova-se mais uma vez que a política é sobretudo a vida. E as pessoas sentem-no; sentiram que ia haver uma transferência do “seu trabalho para o capital “, ou chamem-lhe outra coisa qualquer.

Entretanto, o líder dos socialistas e democratas do PE também acha que a política seguida em Portugal, é desastrosa! O ex-ministro da Economia, Augusto Mateus, também vê o país a definhar. Não consta que estas pessoas sejam da esquerda radical…

Este governo, à imagem do que vai acontecendo na Grécia, não vai parar nunca mais. As suas previsões vão continuar obviamente a falhar, a austeridade em crescendo, enquanto a economia do país vai sendo paulatinamente destruída. Primeiro, uma mão, depois a outra, depois um pé, depois a morte por austera contenção.
Este governo tem que ir embora, com moção de censura ou com o barulho da rua (sábado há manif). Mas já! A convergência, seja com quem for, tem que partir deste entendimento: Governo Rua! Quem não o quiser, que se defina já.


Anónimo disse...

o primeiro anónimo, meu homónimo, bate no velho mantra do ps. pcp e be é que empurraram o governo para a esquerda.

se gostava mesmo da dita convergência das esquerdas, deveria ter contribuído para que o seu partido - o ps - tivesse privilegiasse as convergências com a cdu e be nos últimos 38 anos.

Anónimo disse...

zorg, basta ler isto para perceber que essa convergência não existe:

http://otempodascerejas2.blogspot.pt/2012/09/impressionante.html

o ps continua por onde sempre andou.

a cdu e o be deviam assumir a vontade de fazer um governo conjunto mas já nem isso servirá de grande coisa.

Américo Gonçalves disse...

Antes de roturas, acredito que vamos ter de representar esta farsa até ao fim. Primeiro, o combate ao Orçamento, cujo corolário lógico é a queda do DesGoverno. Depois, PS, BE e PCP vão ter uma ÚLTIMA oportunidade de evitar a implosão da II Repíblica;a seguir disso, a Europa do Sul ainda tem uma pequenina janela de oportunidade, na sequência das eleições alemãs, de dar um safanão nesta lógica; e no fim de tudo isto, então sim , podemos bater com a porta ao IV Império Alemão. Mas de preferência, com um plano b já bem estruturado: Alianças com a América Latina,África Negra, China,para fugir a uma inevitável desforra dos "mercados".Vai ser um ano muuuito complicado...

Anónimo disse...

Convergência das esquerdas, com o PS? Meu amigo, o PS não é de esquerda. Lamento muito que ainda não tenha percebido isso. E sobretudo que não saiba tirar daí as devidas implicações.

Felizmente, o mais de meio-milhão de manifestantes do passado 15 de Setembro, com a sua orientação política muito definida contra a "troika e os troikistas" (e será necessário recordar que o PS é o primeiro subscritor nacional?) mostra que a população já não está, como o meu amigo, num estado de consciência tão atrasado.

Anónimo disse...

O primeiro comentário é verdadeiramente disparatado. Ninguém empurrou o poder para a direita. O Governo PS não foi demitido no Parlamento. O que acontece é que, quando José Sócrates e o seu governo se demitiram, a política de direita (e o exemplo do PEC4 do comentador é dela bem elucidativo) prosseguiu pela mão de novos protagonistas, desta vez o PSD e o CDS. Aliás, todos os três muito juntinhos na subscrição e aplicação do programa da troika.

Haverá sim um verdadeiro governo de esquerda quando o povo português mandar os três - PS, PSD e CDS - para a troika que os pariu.

Anónimo disse...

Façam um novo partido, já.

FV disse...

Concordo com Jorge Bateira, que "o tempo urge e não espera pelas esquerdas".
O Congresso das Alternativas cheio de "gente limpa, liberta de dogmas", que trabalhou e deu o seu melhor durante todo o verão, apresentou uma série de alternativas à actual política. É uma pena que tudo se dilua no nada e se perca a dinâmica do movimento, continuando as pessoas a pensar numa convergência à esquerda.
Esta ideia nunca se viabilizou, nem me parece que resulte no actual momento político. Temos como exemplo as declarações do Prof. José Reis após as reuniões que teve com vários partidos políticos (PS, PCP, Os Verdes e BE).
Em minha opinião, uma grande parte do eleitorado não se sente representado na Assembleia. Não sendo o PS um partido de esquerda (embora tenha uma ala esquerda), há muitos anos que o país precisa de um outro partido político entre o PS e o PCP.