Joaquim Miranda Sarmento (conselheiro económico de Rui Rio) acaba de escrever um artigo no ECO (
aqui), onde defende que o governo fez pouca consolidação orçamental estrutural e que isso colocará o país numa posição frágil no futuro.
Para realizar a sua análise, socorre-se do conceito de saldo orçamental estrutural, uma variável económica não observável que depende do cálculo do PIB potencial - que por sua vez depende do cálculo da taxa estrutural de desemprego - dois conceitos cuja estimação está envolta em caloroso debate no seio da investigação económica.
Num exercício pleno de contorcionismo teórico, Miranda Sarmento pretende, de forma surpreendente, desvalorizar a consolidação orçamental do governo socorrendo-se de um instrumento estatístico cuja fiabilidade é mais do que discutível. Uma vez mais, tudo vale para fazer valer o seu ponto. A crítica que se pode fazer ao governo é de ter enveredado por uma consolidação demasiado rápida, sacrificando os serviços públicos e o investimento público essencial ao desenvolvimento potencial da economia. Acenar com a escassez de consolidação orçamental é um caminho destituído de qualquer sensatez.
Para desconstruir o conceito de saldo estrutural utilizado por Miranda Sarmento, republico grande parte de um longo post que publiquei há cerca de um ano, onde procurei demonstrar que a taxa estrutural de desemprego, e por conseguinte o PIB potencial e o saldo estrutural, são conceitos cuja mais recente evidência empírica tem lançado ao descrédito.
No principal excerto do texto, no que respeita a este ponto, pode ler-se: "as estimativas da taxa de desemprego natural são uma componente fundamental no cálculo do PIB Potencial, indicador que, por sua vez, é utilizado para calcular o saldo estrutural, variável determinante para as metas do Tratado Orçamental. Se a taxa de desemprego natural for sobrestimada (como sucede com as estimativas da CE), geram-se estimativas subestimadas do PIB potencial. Estimativas subestimadas do PIB Potencial refletem-se, por sua vez, num
output gap (diferença entre o PIB real e o PIB potencial) menor do que o esperado e, por conseguinte, a uma sobrestimação do défice estrutural. Este impacto pode ascender a centenas de milhões de euros, que se refletirão nas escolhas orçamentais das autoridades nacionais em áreas como a Saúde e a Educação e, por consequência, nas nossas vidas."
O texto completo encontra-se reproduzido abaixo e deve ser lido por todos quantos pretendam desconstruir os argumentos apresentados por Joaquim Miranda Sarmento na sua crónica. Espero que seja útil.
“A economia portuguesa aproxima-se da sua taxa de desemprego estrutural, logo o governo não conseguirá reduções adicionais significativas da taxa de desemprego, devendo focar-se em atingir ganhos de produtividade; reduzir a taxa de desemprego estrutural é um processo de longo-prazo, só alcançável com o aprofundamento da flexibilização da legislação laboral”.
Esta ideia tem sido veiculada em diferentes momentos do tempo e sob diversas formas. O exemplo mais recente é-nos dado pelas declarações de Fernando Alexandre em entrevista à TSF/Dinheiro Vivo (ver
aqui), onde afirma: “O desemprego já está a entrar em valores que começam a aproximar-se daquilo que os economistas chamam de taxa natural de desemprego, que é uma taxa de desemprego a longo prazo, o que limita a possibilidade de crescer reduzindo o desemprego e que é o que tem permitido o crescimento da economia nos últimos anos. Essa pode ser uma restrição, ou seja, para crescermos nos próximos anos vamos precisar de ter aumentos de produtividade (...)”.
Antes de avançarmos para a análise crítica desta citação, é oportuno reconhecer a aparente razoabilidade do raciocínio. A taxa de desemprego portuguesa encontra-se nos 7,9%, abaixo da taxa natural de desemprego calculada pela Comissão Europeia para os anos de 2017 (9,9%) e 2018 (9,1%). Se a taxa de desemprego natural constituísse, de facto, uma limitação à expansão do emprego, como defende Fernando Alexandre, o decréscimo adicional da taxa de desemprego seria inviável num horizonte de médio-prazo. Incapaz de crescer em volume -aumentando o número de trabalhadores que produzem o mesmo valor de produto médio - a economia portuguesa teria de crescer através do aumento da produtividade – mantendo ou reduzindo o número de trabalhadores empregados, mas aumentando o valor de produto médio produzido por trabalhador.
O vício deste raciocínio – como será fácil de antever – reside no conceito de taxa natural de desemprego. Fernando Alexandre evoca-o de forma concludente a meio da entrevista, servindo-se da sua validade técnica para demonstrar a superioridade do seu argumento. Veremos que esse caminho lógico está longe de ser linear. Para ilustrar as suas fragilidades, dedicaremos as secções seguintes à história deste conceito e às suas implicações presentes.