terça-feira, 13 de setembro de 2011

Mudar

Yanis Varoufakis resume numa frase a bizarra abordagem convencional à crise na Grécia: “a economia grega, ou o que resta dela, deve ser arrasada para que possa ser salva da bancarrota”. Não resulta, claro, mas é a abordagem que também está ser seguida em Portugal, perante a passividade bovina das nossas elites, as que ainda designam por ajuda este crime económico. O que deve o governo grego fazer? Usar a arma dos fracos e declarar que, na ausência de uma solução decente para a espiral depressiva concebida entre Bruxelas e Frankfurt, todos os pagamentos aos credores terão de ser suspensos (entre pagar salários e pagar aos credores, não há como hesitar…), preparando assim uma reestruturação da dívida por sua iniciativa. Assim que um governo deixar de participar no bombardeamento económico do seu próprio povo, a crise muda de figura.

10 comentários:

António Carlos disse...

"... entre pagar salários e pagar aos credores, não há como hesitar…"

Num cenário em que deixa de pagar aos credores, eliminando naturalmente de obtenção de novos créditos externos, onde obtém a Grécia os fundos necessários para pagar salários?

Anónimo disse...

Pois, mas se o governo grego fizer aquilo que o João Rodrigues lhe recomenda, no dia seguinte a troica corta o financiamento à Grécia. E depois, o que acontece? Como o governo grego é manifestamente incapaz de cobrar impostos eficientemente, passados poucos dias está incapaz de pagar aos seus funcionários públicos. Vai uma data de gente para o desemprego e a economia grega vai à ruína. Está a ver a ideia?

Ou o João Rodrigues tem a ilusão de que o dinheiro que a troica empresta à Grécia apenas serve para esta última pagar os juros daquilo que deve ao estrangeiro? Nada disso - esse dinheiro serve para o Estado grego se manter a funcionar.

Luís Lavoura

Anónimo disse...

“a economia grega, ou o que resta dela, deve ser arrasada para que possa ser salva da bancarrota”

Como o João Rodrigues sabe há demasiada gente em portugal que acredita que um país sem economia é viável, quando não há argumentas o que resta são declarações de fé.

"...se o governo grego fizer aquilo que o João Rodrigues lhe recomenda, no dia seguinte a troica corta o financiamento à Grécia"

Mas o financiamento da troika não era um plano de ajuda? Penso que o Luis Lavoura ou está a ser demasiado pessimista ou não acredita no discurso dos lideres europeus.

Anónimo disse...

A Grécia pode sempre emitir moeda para pagar aos funcionários e negociar com o FMI um programa de ajustamento (fora da zona euro, como é óbvio).

José M. Castro Caldas disse...

Defice primário = défice sem pagamento de juros. Actualmente cerca 2,4% do PIB Grego. Se tiver de suspender o pagamento dos juros a Grécia tem de tratar de 2,4% do PIB - a diferença entre as despesas (sem juros) e respectivas receitas. A "ajuda" tem servido sobretudo para servir os credores.

Esta é a realidade para lá do "não há massa para os salários nem nada".

João Saldanha disse...

Joao,

A dicotomia 'pagar salários ou pagar aos credores' não é correcta, pela simples razão que sem credores não há dinheiro para pagar salários. Por isso, tens de explicar o que fazes a um défice superior a 5% do PIB sem acesso a financiamento externo. Sem essa explicação, a tua posição não tem pernas para andar.

Abraço,
Joao Galamba

Lowlander disse...

"Pois, mas se o governo grego fizer aquilo que o João Rodrigues lhe recomenda, no dia seguinte a troica corta o financiamento à Grécia."

Claro que sim, alias a historia confirma isso mesmo: quando os credores foram bater a porta da Islandia no pos-apocalipse 2007/08 para esta lhes pagar o que devia, os Islandeses referendaram a coisa. Decidiram nao pagar.
Em resposta, os credores, empertigaram-se, encheram o peito e muito zangados regressaram para lhes dizer que... estavam dispostos a receber a divida num prazo mais alargado e com juros menos onerosos... tambem esta segunda "ameaca" foi referendada. Decidiram nao pagar.

E obvio que tiveram de re-estruturar a divida e os mercados internacionais de credito foram temporariamente fechados na Islandia, mas (e o Luis Lavoura que leia os relatorios do FMI para confirmar), a realidade e que a "irresponsabilidade fiscal" e "comportamento desonroso" dos Islandeses face aos seus credores resultou numa recessao menos profunda, menos desemprego, uma retoma mais rapida e forte e, sem surpresas, menos divida publica acumulada - isto e, nao foram "incapazes de pagar salarios aos funcionarios publicos" nem houve "ruina economica".
Como cereja no topo do bolo ao fim de 2 anos ainda ocorre uma re-abertura dos mercados de credito muitissimo mais cedo que noutros paises com altos principios morais de fiscalidade que se viram a bracos com semelhantes problemas de divida - leia-se PI(I?)G(S?) - onde, os mercados de dinheiro estao, de facto, fechados e a malta como o Luis Lavoura, continua a espera que a fada da confianca apareca com crescimento economico.
O problema nao e a divida, e crescimento economico (pelo menos para a economia real).

Luís Lavoura disse...

José M. Castro Caldas,

não acredito que o défice primário da Grécia seja de apenas 2,4% do PIB. Repare: a Grécia tem uma dívida total de cerca de 100% do PIB, e paga por essa dívida, calculo eu, um juro médio que não deve exceder os 5%; pelo que, aquilo que a Grécia paga em juros deve ser cerca de 5% do PIB, não mais. Ora, o défice do Estado grego está bem acima dos 7,4% do PIB. Pelo que, o défice primário não pode ser apenas 2,4% do PIB.

Mas mesmo que fosse, 2,4% do PIB corresponde a aproximadamente 5% daquilo que o Estado grego gasta. Não é assim tão pouco como isso.

Luís Lavoura

João Carlos Graça disse...

Caro António Carlos
Nenhum país, nenhuma instituição no mundo "alimenta" indefinidamente outro país...
O que o gregos têm, tal como nós, é de sair do Euro, desvalorizar e pagar a dívida externa na nova moeda, isto é, de forma desvalorizada. É isso, aliás, o que os "mercados" estão há muito a antecipar que eles farão, daí os juros exorbitantemente elevados...
Depois disso, com exportações relançadas e importações inibidas, obtêm graças à desvalorização um equilíbrio de contas externas QUE SUPRIME A PRÓPRIA NECESSIDADE DE FINANCIAMENTOS EXTERNOS!
Sem desvalorização é que nada feito. É levar o filho-família a comprar demais, e depois emprestar-lhe a juro usurário, mas impedido-o de fazer precisamente o que ele precisa de fazer para deixar de ser esbanjador.
O problema não está em os gregos serem uns madraços, ao contrário do que diz a propaganda "europeísta" - a qual, curiosamente, procede de forma sistemática com recurso a retórica "anti-europeísta", isto é, virando os povos europeus uns contra os outros, e tudo sempre em nome da tal de "Europa"...
O problema não é esse. O problema é, de facto, serem um bocado "bovinos", de resto tal como nós, portugueses, aceitando elites que os condenam a ser bombardeados pela "UE" (espécie de NATO económica) porque isso as deixa a elas (elites) isentas da responsabilidade de controlar a maralha em eleições, etc. Assim é muito mais fácil: desloca-se a atenção para os tais "compromissos europeus", e a manada continua a aceitar mansamente a caminhada rumo ao açougue...

Anónimo disse...

Este João Galamba, que não conhecia e que ouvi falar na AR, saiu uma boa encomenda.
Afinal ele é do PS e tão inteligente e ainda não se apercebeu que o PS afinal não passa de um partido que nada mais tem feito do que trair os trabalhadores.
Como ele ainda é muito novo, deve ser desculpado, mas, por outro lado, como está na AR (e gostava de saber o que é que ele fez para isso) não o deve ser.
É que ele, como quase todos do PS, velhos e novos, mais não são do que vendedores de ilusões que quando chegam ao poder, á semelhança do PSD e do CDS. logo tratam de ir defender os interesses dos seus verdadeiros patrões que não os cidadãos deste país. Vejam por ex a Maria de Belém o Natalino Canas e outros.
Uma vergonha.?