quinta-feira, 29 de setembro de 2011

A diferença

No número de Setembro, a revista Handelsblatt contabiliza a dívida pública alemã em 7 biliões de euros, contradizendo assim o valor oficial, de 2 biliões. O desvio assinalado decorre da não inclusão, nos cálculos, de despesas previstas com reformados, doentes e pessoas dependentes, numa diferença que faz disparar o peso no PIB da dívida alemã para 185%, aproximando-o do valor previsto para a Grécia em 2012 (186%).

Se estas contas corresponderem à realidade constata-se, assim, a existência de uma dívida oculta do governo alemão, que deveria reprimir os impulsos de moralismo sobranceiro e preconceituoso com que Angela Merkel se refere, sistematicamente, à leviandade orçamental da Europa do Sul. É caso para perguntar, aliás, se a chanceler também está a pensar na Alemanha quando se refere à necessidade de obrigar os países infractores a abdicar «de parte das suas capacidades e soberania a fim de uma instituição europeia poder declarar que quem não respeitar os tratados deve ser obrigado a fazê-lo».

Mas esta diferença suscita uma outra interrogação. Por que razão os mercados financeiros, perante valores idênticos do peso da dívida no PIB, estabelecem a notação da Grécia como «lixo» e continuam a atribuir classificações máximas à Alemanha? Colocando de lado a voragem especulativa dos mercados, a resposta é simples e aponta para as diferentes expectativas quanto à capacidade que as duas economias revelam para pagar as respectivas dívidas. O que deveria conduzir a uma conclusão igualmente simples: sem crescimento económico (suportado pelo investimento e pelo consumo) não é expectável que um país possa cumprir os seus compromissos com a dívida externa. E muito menos quando a sangria austeritária compromete drasticamente qualquer possibilidade de relançamento da economia.

5 comentários:

Anónimo disse...

Parabéns pelo vosso excelente blog.
Não sei quando acordaremos, mas espero que muito em breve.

viasemfactoslevam75ªconta disse...

A diferença é a capacidade de pagar a dívida estatal....

L. Rodrigues disse...

"O desvio assinalado decorre da não inclusão, nos cálculos, de despesas previstas com reformados, doentes e pessoas dependentes, numa diferença que faz disparar o peso no PIB da dívida alemã para 185%, aproximando-o do valor previsto para a Grécia em 2012 (186%)."

Houve quem salientasse que este cálculo não comparava coisas semelhantes, já que a divida prevista para a grécia não incluiria os mesmo factores. Afinal em que ficamos?

Nuno Serra disse...

Caro L. Rodrigues,
O artigo não esclarece, de facto, se os critérios de cálculo são os mesmos para a Alemanha e a Grécia (o que não é, naturalmente, irrelevante). Os argumentos de fundo, porém, subsistem: a percentagem de agravamento do défice público é idêntico entre 2007 e 2011 (vejam-se os dados do Governance at a Glance, por exemplo: http://www.oecd-ilibrary.org/governance/government-at-a-glance-2011_gov_glance-2011-en) - o que mostra que o descalabro se deve, em larga medida, ao impacto da crise financeira e económica -; e que a solução não reside na imposição teimosa da austeridade, mas sim em políticas capazes de relançar a economia.

João Carlos Graça disse...

Nuno
Esta contabilização "artística" das dívidas (e dos défices) e respectivas sinuosidades fazem inevitavelmente lembrar, até por se referirem à Alemanha, o que se conta do conceito de judeu...
Parece que Fritz Lang teria sido convidado/intimado a comparecer face a Goebbels, o qual estaria fascinado pela força dos filmes daquele, pretendendo a todo o custo "comprar-lhe o passe", ou seja, fazer dele o cineasta do regime. Lang procurou esquivar-se, embaraçado, claro - e acabou por, já quase em desespero de causa, argumentar que até suspeitava ter uma parte de ancestrais judeus, pelo que talvez não fosse alemão puro-sangue... Em suma, não era possível, o próprio Goebbels, se calhar, sendo assim, até talvez nem estivesse interessado...
...ao que este terá retorquido:
"Herr Lang, não se esqueça de que somos nós quem decide quem é e quem não é judeu..."
Old habits die hard, não é?