segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Ficar ou sair?

(…) o PIB real denominado em euros diminuirá progressivamente num total de 30%, quer a Grécia saia ou não da Zona Euro. Dado que a divisa está sobreavaliada em termos reais em pelo menos 30% (o aumento do custo unitário do trabalho foi aumentando durante a última década na medida em que os salários subiram mais que a produtividade), os apoiantes da dor e da austeridade para a Grécia estão plenamente de acordo que tal depreciação real é necessária para restaurar a competitividade, embora achem que tal depreciação real deve acontecer via “desvalorização interna” – isto é, uma quebra acumulada de 30% nos salários e preços no decurso de alguns anos – em vez de ocorrer através da depreciação nominal de uma nova divisa.

(…) a questão é saber se tal resultado deve ser alcançado ao longo de cinco ou dez anos através de uma recessão cada vez mais profunda e uma depressão desencadeada por uma enorme deflação, ou se deve ser alcançada através de uma rápida saída do euro. Esta segunda opção – a saída – tem a vantagem de o crescimento económico ser retomado de imediato. A primeira – deflação depressiva – conduzirá a mais cinco a dez anos de recessão social e politicamente desestabilizadora. Portanto, dado que o resultado que se pretende – menor PIB medido em paridade de poder de compra – é o mesmo, uma trajectória que restaura o crescimento e cria emprego e rendimento no curto prazo é largamente preferível a uma década de depressão que pode gerar enorme instabilidade social e política.

Nouriel Roubini (Economic Research)

11 comentários:

one hundred trillion dollars disse...

30% se não sair

e 80% se sair

é uma opção

amanhã tenho de trabalhar

quando cá chegar a opção

tenho de fugir depressa

marina disse...

sair. e nem devíamos ter entrado. patati patata sobre teorias de desnvolvimento , a cultutal um must , e deixam que o modelito alemão se queira impor em culturas nada alemãs ? mas não aprendem nada com o que ensinam ? adiante.
o clube europeu já não tem prestigio nenhum. e regras nada adequadas a tempo de guerra em que manda o salve-se quem puder.
é fantástico , observando isto tipo alien , como os estados mandam às urtigas leis que não lhes interessam , mas no entanto exigem que os cidadão cumpram com tudo e mais alguma coisa , sem os deixarem desenrascar , que lhes possa valer uns trocos em confisco. não é fisco , é confisco.
é preferível uma guerra a sério a esta paz podre que só abate o peixe miúdo. a "democracia" é a coisa mais totalitária que já existiu. desarmou toda a gente.um cristo. colhe fama e deita-te a dormir , parece.

António Carlos disse...

"... os apoiantes da dor e da austeridade para a Grécia ..."

Confesso que não percebo este epíteto. Se bem percebi, o post reconhece que qualquer das opções implica uma redução de 30% do PIB real. Assim sendo, porque é que só os que defendem uma solução de manutenção no Euro são apelidados de "apoiantes da dor e da austeridade"?

Se o "problema" da opção de manutenção no Euro é o da gradualidade da redução de 30% nos salários, então porque não cortar já (de uma só vez) esses 30%?

Depois de ler este seu post não percebo como é que colegas seus continuam a escrever posts neste blog a dar a entender que há alternativas a um corte de 30% nos salários, independentemente de se optar por uma solução rápida ou lenta. Ou a opção de sair do euro significa o fim da austeridade?

Maquiavel disse...

Näo foi no Ladröes que já desmistificaram a tradicional treta de que "o aumento do custo unitário do trabalho foi aumentando durante a última década na medida em que os salários subiram mais que a produtividade"?
Nem na Alemanha isso aconteceu, quanto mais na Grécia.

O que fez disparar a dívida soberana indirectamente foi mesmo o pessoal querer fazer vida de alemäo (ou nórdico) com o mesmo salário mediterränico. 2 carros por família (se näo mais), 3 aparelhagens Hi-Fi, restaurantes a meter preços ao triplo de antigamente e o pessoal a continuar a lá ir (e a NÄO pedir facturas), férias exóticas todos os anos... como vêm nas revistas cor-de-rosa fazer aos "ricos e famosos". Näo tem que chegue? O banco "oferece" o resto. Só as importaçöes do petróleo fizeram disparar a balança de pagamentos. E depois os carros näo podiam ser os Renaults ou FIAT de antanho, olha lá. É ver a quantidade de Mercedes e BMW que foram comprados. Isto näo tem a ver com serem alemäes ou näo. Tem a ver com o "factor cagança". Eu alemäo compro... mas é do Lidl e porque é MAIS BARATO que nos outros supermercados! E se os produtos alemäes vêm mais baratos que os portugueses, vejam lá onde está o problema...

A "desvalorizaçäo interna" mais näo é que nivelar os salários gregos com aqueles portugueses. O pessoal ganha menos, faz menos "vida de rico", e compra local. Quem sabe, até se väo dedicar mais à agricultura e indústria... sabem que a Suíça é o país da OCDE com maior % de pop. activa na indústria?

Agora querer desvalorizar os salários portugueses, que säo 2/3 daqueles gregos é que já começa a ser pouco de mais! Estamos aqui estamos ao nível da Bulgária! E fico preocupado especialmente com os pensionistas, que já ganham a esse nível! Mas que é isto?

Quanto aos gregos, é bem sabido (até demais) que a economia paralela corresponde a 30% do PIB, já antes da crise. Têm bom remédio: é ir atrás dela até a legalizar, mesmo que o PIB legal actual caia 30%, logo compensa!

Jorge Bateira disse...

Caro António Carlos,

O essencial do texto do Roubini está na chamada de atenção para alguns aspectos que os defensores da "dor e austeridade" nunca referem: 1) A saída do euro dá margem de manobra para negociar alguns aumentos dos salários nominais nos sectores protegidos da concorrência internacional para amortecer o efeito da inflação; 2) A inflação (medida através de um cabaz de bens onde apenas uma parte dos produtos é importada ou contém inputs importados) é sempre menor do que a desvalorização nominal da taxa de câmbio; 3) No mesmo ano em que a inflação se começa a propagar (e terá de ser contida por negociação e também temporariamente por controles administrativos) o PIB começa a crescer (forte dopagem cambial das exportações; investimento público criteriosamente seleccionado).

Portanto, a saída implica um ajustamento menos gravoso, susceptível de gestão sectorial, e abre de imediato perspectivas de criação de emprego. A saída do euro implica, sim, o fim imediato da austeridade sobretudo através de investimento público financiado por criação de moeda pelo Banco Central.

Sem dúvida, a saída tem problemas delicados, sobretudo no primeiro ano, que aliás são bem discutidos num texto de Jacques Sapir (S'il faut sortir de l'euro).

Pelo contrário, a dita "desvalorização interna" arrasta-se por vários anos e implica a falência de milhares de empresas, crescimento avassalador do desemprego e enorme conflitualidade social.

Bem sei que não é fácil entender isto quando o que se ouve nos telejornais é uma verdadeira lavagem ao cérebro dos cidadãos. Mas é por isso que neste blogue (onde todos não pensam o mesmo sobre tudo) se chama a atenção para documentos que os leitores podem ler e ajuizar por si próprios.
Cumprimentos

one hundred trillion dollars disse...

1) A saída do euro dá margem de manobra para negociar alguns aumentos dos salários nominais nos sectores protegidos da concorrência internacional para amortecer o efeito da inflação

pois nota-se o aumento nominal de 6 contos em 76 para 64 contos em 84

infelizmente 6 contos em 1976
compravam mais que 64 em 1984


2) A inflação (medida através de um cabaz de bens onde apenas uma parte dos produtos é importada ou contém inputs importados) é sempre menor do que a desvalorização nominal da taxa de câmbio

é? devia ter-me dito isso em de 77a 92

o Cavaco disse o mesmo
não perderão nada
ora 9%-25%=dá quanto?
quem tinha stocks ganhou uns cobres



3) No mesmo ano em que a inflação se começa a propagar (e terá de ser contida por negociação e também temporariamente por controles administrativos) o PIB começa a crescer (forte dopagem cambial das exportações

triplicamos a produção de sapatos?

e o couro vem de onde?

e o algodão?

e as máquinas-ferramentas pagas em dracmas ou em escudos?

e os lubrificantes?

e a energia?

e os transportes desta mercadoria a exportar?

ocê parece um daqueles gajos da P.A.C do cavaquismo

era só pôr 4 a 6% de aumento anual nos consumíveis e enquanto os factores de produção ficavam semi-paralisados

o preço dos produtos exportáveis

incluindo o concentrado de tomate e os vinhos disparavam....

pois

one hundred trillion dollars disse...

arrasta-se por vários anos e implica a falência de milhares de empresas, crescimento avassalador do desemprego e enorme conflitualidade social....e nos 80's infelizmente tinhamos essa moeda super-forte o escudo..

ah se tivessemos desvalorizado.

nessa altura os subsídios da CEE salvaram o barco

agora salvam o quê?

a Argentina?
Antolhos ideológicos de funcionário
que nunca foi empresário....

Nuno disse...

Quais as implicações da saída do euro nos créditos bancários à habitação, que em Portugal ascendem a 80 mil milhões de euros?

Na Argentina desvalorizaram juntamente com os depósitos mas os bancos portugueses têm estes compromissos externos em euros por isso provavelmente nunca aceitariam uma desvalorização seguida de anexação de nova taxa de juro.

O que aconteceria então aos créditos, sendo que ou entram em insolvência os bancos ou os 45% de proprietários de casas que existem em Portugal?

LOUVA A GREVE PERMANENTE EM DEUS disse...

Quais as implicações da saída do euro nos créditos bancários à habitação, que em Portugal ascendem a 80 mil milhões de euros?

só? com milhares de casas em Lisboa
a 450 mil e 1 milhão

T4 = 600 mil euros
300 execuções em mais de 14.000 hipotecas

há mais de 1 milhão e meio de hipotecas acima de 100 mil euros

Jorge Bateira disse...

Caro Nuno

Peço desculpa pelo atraso na resposta.
A saída do euro implica a expropriação imediata dos bancos e a nomeação de administrações que façam o apuramento dos saldos (dívidas menos créditos) em euros. A decisão a tomar dependerá da forma como se sai da zona euro. Em princípio, o Estado cobrirá o efeitos da desvalorização com uma entrada no capital social dos bancos.
Pergunta seguinte: o Estado tem dinheiro para isso?
Resposta: com a saída do euro o Estado recupera o poder de emitir moeda e deve usar esse poder para intervir onde for preciso para retirar a economia do buraco onde a actual política a vai enterrar.

De notar que em depressão não há efeito inflacionista com emissão de moeda em larga escala.

Mesmo em depressão e com suspensão de pagamentos da dívida, suponho que há necessidade de divisas para colmatar o défice da BTC. No imediato, o país precisará de um empréstimo (em dólares?) de algum um país amigo.

Para mais detalhes, ver o artigo de Jacques Sapir que referi no comentário anterior.

Nuno disse...

Agradeço a resposta Jorge Bateira, já agora aqui fica o artigo:

http://www.medelu.org/S-il-faut-sortir-de-l-euro