sábado, 18 de abril de 2009

Somos todos estúpidos!

A estéril discussão em torno do congelamento ou redução dos salários em Portugal continua. Já aqui abordámos as falácias que estão por detrás destas trágicas prescrições e não vou repetir os argumentos de então (I II III IV). No entanto, parece que a imprensa está pouco interessada nos raciocínios que estão por detrás das propostas. O editorial de Paulo Ferreira, no Público, de hoje é um bom exemplo. Não só não se dá ao trabalho de perceber o (falso) argumento de Vítor Bento, como trata os leitores como estúpidos. Só assim se pode perceber o simplismo deste parágrafo:

“Perante a falta de encomendas ou a necessidade de baixar preços para conseguir vender produtos, as empresas têm que reduzir custos. Se é preciso cortar custos em 10 por cento, uma empresa com 100 trabalhadores tem duas vias: ou negoceia uma redução dos salários de 10 por cento, ou despede dez trabalhadores. Como a primeira via é tortuosa ou mesmo impossível, o recurso à segunda tem enchido as páginas dos jornais de todo o mundo. O que é isto senão uma redução dos salários.”

Em primeiro lugar, a alternativa proposta pelo jornalista não faz sentido. Se eu reduzo em 10% os salários continuo com a mesma força produtiva na minha empresa, se reduzo 10% da mão de obra, então a minha capacidade produtiva reduz-se aproximadamente em 10%. Na primeira situação temos um ajustamento pelo preço, na segunda pelas quantidades. Só nos manuais de introdução à microeconomia estas duas alternativas são comparáveis. A realidade é muito mais complexa. A AutoEuropa ou a Aerosoles, num contexto de crise internacional generalizada, não resolvem uma queda da procura de 10% com uma redução de 10% no preço dos seus produtos...

Em segundo lugar, para Paulo Ferreira, uma empresa só pode cortar custos se cortar os salários. Como? O valor criado por uma empresa é repartido entre o capital e o trabalho e, como já referimos, esta repartição tem penalizado os trabalhadores ao longo dos últimos oito anos. Depois o jornalista ignora qualquer hipótese de reorganização produtiva e tecnológica (novos produtos, nova maquinaria, nova gestão, mais formação profissional) das empresas. Schumpeter dá voltas na tumba... Os despedimentos e reduções de custos salariais são a única variável assumida. Claro que os custos para a produtividade nacional de um elevado turn-over e da precarização do trabalho são ignorados. Não existem ganhos de aprendizagem e a conversa do capital humano é esquecida. Os trabalhadores são custos variáveis como a quantidade de electricidade ou água que cada empresa gasta.

Finalmente, Paulo Ferreira não percebe a armadilha a que conduz o seu raciocínio. Se todas empresas tivessem a reacção prescrita pelo jornalista, o que seria uma pretensa resposta racional de cada empresa, resultaria no resultado agregado negativo que dá origem ao seu raciocínio do jornalista, a falta de encomendas, já que a procura agregada seria necessariamente menor. O actual risco de deflação e sobreprodução seria exponenciado, se os governos permitissem tal solução.

No último parágrafo, Paulo Ferreira dá a solução para a crise: o aumento da produtividade. Muito bem, mas o jornalista continua a persistir na ideia, no mínimo estreita, que cada um de nós vai produzir "mais 10% ou 20% em cada hora de trabalho" como se fosse uma questão de esforço individual. Em vez de 100 marteladas por hora numa linha de produção, o trabalhador devia chegar às 110 ou 120 marteladas. Tenho muita pena, mas a diferença entre os trabalhadores portugueses e alemães não está nem na força dos seus braços, nem na sua força de vontade. Para quem ainda acredita nesta conversa de café, compare a produtividade das empresas da Volkswagen em Portugal e na Alemanha. Nas economias contemporâneas a produtividade é sobretudo função da qualidade do capital com que trabalhamos (produzir têxteis em Portugal não é a mesma coisa que produzir bens de capital na Alemanha) e das competências dos trabalhadores. Ora, se não valorizarmos a aprendizagem no local de trabalho (que leva tempo) e se não investirmos na formação profissional, nunca conseguiremos a necessária reconversão da economia portuguesa. Tratar o trabalho como custo variável obviamente não ajuda.


Last but not least, Paulo Ferreira ouviu algures que os trabalhadores portugueses exigem salários alemães. Devo andar um pouco mouco.

12 comentários:

Anónimo disse...

O que essa malta anda a preparar, com essa argumentação repetitiva-obsessiva, parece-me que poderá ser um valente arraial de porrada!

Tudo aquilo em que acreditavam já foi com a enxurrada, e ainda assim querem mais do mesmo...?

CS disse...

Caro Nuno Teles,

Nesse caso somos dois moucos. No blogue eleitoral do Público ouvi o inefável Gabriel do Blasfémias culpar a Esquerda pela crise. E acho que dou em tolo com tanto disparate económico junto:
http://ovalordasideias.blogspot.com/2009/04/treinadores-de-bancada-e-disparates.html

Sérgio Bernardo disse...

Sou novo na leitura do "Ladrões de Bicicletas" mas gostei imenso do post aqui referido.
Antes de mais gostaria de referir que trabalhei 10 anos na Autoeuropa e nem tudo o que transparece cá para fora é o que efectivamente se passa lá dentro. Actualmente a AE está numa fase difícil, pois com a baixa da produção existe um excedente de mão de obra, que, será difícil encaixar noutros lugares. Aquando do lanaçamento do modelo Eos, com a baixa da produção do monovolume, os trabalhadores que ficaram em excendete foram canalizados para acções de formação. Essas formações - e isto muita gente não sabe - foram sempre pagas pelo Estado. Coisa que certamente muitas empresas gostariam de ter acesso, mas sempre foi previlégio só de alguns. E aqui é que está uma das grandes críticas a este governo, dando razão a palavras recentes de Manuela Ferreira Leite. Agora de novo este problema existe. Há uma baixa de produção, não tanto nos modelos novos, como o Scirocco ou o Eos, mas no monovolume, havendo excesso de mão de obra. Claro que uma baixa dos salários não ia fazer diferença nenhuma, porque estando o produto mais barato, isso não se reflectiria no preço final, e, ainda que acontecesse, não é líquido que aumentasse, no contexto actual, as vendas. Logo a redução da mão de obra é o caminho mais fácil. Mas não é o único. A formação veio de novo à baila, o problema é que desta vez a redução é muito maior e a empresa a reboque da crise quer proteger-se e garantir que consegue melhores condições de contratação, nomeadamente, despedir os que estão a mais e os que ficam, ficam em piores condições. O problema é que no governo, ao mesmo tempo que se apregoam medidas de esquerda e sociais, se estrangulam ops empregados destas grandes empresas, apenas para as manterem cá a todo o custo.
Por vezes quetiono-me se não será melhor que acabe logo quem não consegue, ou não sabe, viver em economia de mercado e está constantemente à espera do subsidiosinho do Estado.

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Apetecia-me perguntar ao Paulo Ferreira se já viu o seu salário reduzido.
Neste raciocínio simplório do Paulo Ferreira irrita-me também aquele tom doutoral de quem descobriu a pólvora e a apresenta ao resto do mundo à espera dos aplausos de uma multidão deslumbradacom tanta sapiência e a bater com a cabeça na parede enquanto diz: Como sou estúpido! Nunca me tinha lembrado disso..."

Luís disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Luís disse...

Bem,

outra coisa não seria de esperar; que os Editoriais do Público no que toca a economia vão de mal a pior. E olhem, sem resultados visíveis, na produtividade, isto é, nos resultados do Jornal -PÚBLICO. É por certo com muito carinho e dedicação que o grupo Sonae o acolhe no seu seio; e depois aquelas campanhas anti-sócrates, aquela última (q essa sim, foi ratice) de tentar promover a música dos Xutos..

Mas eu até oiço o(s) belmiro(s). E falam bem; mandam umas bocas contra a banca, dizem q naquele grupo não vai haver despedimentos, homens do Norte, ia-se dizendo. Então menos se percebe que tenham a soldo tamanho pedante; tamanha cabeça oca; pois diga-se a verdade, se economia fosse msmo o forte desse tal P. Ferreira, já o Bel o teria coopatado para umas das muitas operações de internacionalização que o seu esmerado (e diga-s d passagem, mt alavancado) grupo nortenho quer fazer lá fora; puxa-puxa, com o know-how q eles têm em malls, vulgo, centros comerciais, a alemanha é um mercado quasi-infinito para a nossa "pequena economia aberta" e os Belmiros dizem que se querem continuar a "expandir"; lá fora, vcs sabem: gráficos de penetração área alocável bruta.. E temos o problema assim resolvido: planeamento e estratégia em Portugal (grupo sonae, sócrates esforça-se em dar o moral, mesmo na adversidade) com gente a ganhar bem, já se sabe!, nesses gabinetes, alfa-pendular para cima e para baixo, malas pretas, casacos compridos... e obreiros e obreiras do leste a levantar betão por essa europa continental fora!

Agora vem o pedido:
não tratem os trabalhadores com um objecto (já dizia o velho Lukács..), não os tratem como um "custo"; "uma variável"; que aconteceu aos processos emergentes: à capacidade de inovação, à formação profissional (ó Zé Vieira, faz lá um esforço, põe mais uns homens na formação profissional que o orçamento aguenta; q remédio tem ele se não aguentar..); à diversificão de mercados e produtos;; sim, sim, vão lá ler uma resenha qualquer de
Schumpeter e depois reapareçam; não é preciso um Phd; basta qualquer coisa que contemple a ligação do cabo terra!

Depois como a economia além de ser muitas coisas é também a ciência do banal; queres fruta? toma fruta! (convém, será q convém sempre?, é q discutamos primeiro o preço...)! Mtos tugas mal ganham para comer, outros tugas mal ganham para pagar a prestação da casa, outros tugas mal ganham para pagar todas as dívidas em geral; e a grande maioria, em geral, ganha o que ganha e ná consegue poupar; o banco quando empresta, meteu Keynes numa bolsinha, vai ao exterior, importa "crédito", vende felicidade; e a conta corrente é q sofre! Atão meus senhores,a crise era para os "desempregados" quase exclusivamente, porque quem "conservar" o lugarzinho até tem rendimento acrescido; mas q porra! mesmo com 10% de desempregados os outros 90% com poder de compra reforçado, num tou a ver onde tá a crise..vista assim, pela lei dos GRANDES NÚMEROS.



Acho q o senhor P. Ferreira devia propor primeiro uma redução no seu ordenado, casos particulares são casos particulares, e o trabalhador em causa não justifica o que ganha; se depois tiver que ir renegociar o empréstimo ao BES; aí é q começam as arguras! Mas eu não as vejo aparecer, mais um pedinte aqui, menos uma fábrica acolá; umas linhas de crédito b-o-onificado para balançar; estágios pós jovens; o Coelho gestor de sucesso já na Mota e Engil;; como pensa o venerável Mendonça:: quando é que é mesmo que a retoma acontece?

Assim se vai produzindo pensamento em Portugal; não queria tar desse lado;
mas por outra;
são coisas que o Estado-social tece; e tou a escrever num LG E500; à prova de toda a crítica! E a Coreia do Sul não tem por certo o nosso clima; eles dão a matéria em bruto e nós só precisamos de mais um quantos de santos milagreiros!! ~
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Por sinal, tou deveras a escrever a dois passos do Condestável! Já lá tem uma fita, a anunciar,a lembrar, a relembrar; segue-se o santo dentro de momentos. Não, não... num é o min. das Finanças, que esse é SANTOS e de milagreiro não tem mesmo nada; aqueles -1,5% jã eram magia negra, .... ao tempo que já o eram!!

O Puma disse...

Entretanto a nova proposta
do governo salva a ladroagem impondo uma coima de 60%
sugerindo que as quadrilhas devem rever a sua actividade com 40% e deste modo evitar falência.

Stran disse...

Peço desculpa por este "assalto", mas queria deixar um link para um artigo que gostava que lessem:

http://blogdotuga.blogspot.com/2009/04/blogues-de-excelencia.html

Afinal é o que merecem...

CS disse...

Nuno,

Sobre essa questão deixo aqui um pequeno contributo http://tinyurl.com/chpeqv

Bruno Silva disse...

Tanta estupidez...

Um empregador paga aos seus semelhantes enquanto cidadãos, 23,75% para a Segurança Social (agora 22,75%) acima dos seus salários, mais dois subsídios, mais subsídio de alimentação. Ou seja, para um trabalhador que ganhe 600€, por 11 meses de trabalho tem o custo de quase 19 salários. O salário tem como lógica basilar ser o preço do trabalho, o preço do trabalho em Portugal é baixo porque é excessivo face à sua procura, logo tem pouco valor, ou é comunista e nega esta lógica, ou se acredita na economia de mercado (mais ou menos dirigista) percebe que aumento artificiais de salários é tapar o sol com a peneira!! Se as encomendas baixam para que é que você precisa da mesma capacidade produtiva? Para pintar as paredes da fábrica ou ficarem a jogar às cartas?? Você quando não precisa de cortar o cabelo ou simplesmente quer deixa-lo crescer vai na mesma pagar o seu corte habitual ao barbeiro? é mão-de-obra que não está a remunerada (eu sei que este é um exemplo extremista mas espelha a lógica que quero passar).
Vou-lhe contar a história do Manuel e do Quim. Ambos nasceram na mesma freguesia em famílias pobres e humildes estudando apenas até a 6ª classe. No início dos anos 80, o Manuel teve a perspicácia de identificar a emergência do sector têxtil em Portugal, o que fez? foi ao banco e arriscou atravessar-se arranjando um empréstimo para comprar 4 máquinas de costura, as quais pôs na sua cave. Assim criou uma pequena confecção que com muito esforço, dedicação e dores de cabeça fez crescer, sendo hoje uma empresa com 150 trabalhadores.
O Quim, que nunca arriscou nada na vida, empregou-se como motorista de outra pequena empresa, ganhando ainda hoje o salário mínimo (há muitos com qualificação para esse serviço).

Enquanto o empreendedorismo do Manuel, apesar de não ter lá grande visão estratégica, de por vezes ser grosseiro com os seus colaboradores e até não ter facturado tudo que vendeu, durante 25 anos gerou milhões de peças de roupa, milhões em exportações, milhões em salários, milhões em impostos, milhões em contribuições para a SS, milhões em lucros com os quais comprou coisas a outros ou pôs no banco para outros investirem.
O Quim, porque sempre ganhou o salário mínimo, nunca investiu em formação complementar, nunca investiu um euro em capital, quase nada contribuiu para o IRS e tem exactamente os mesmo direitos públicos dos restantes contribuintes.

PORQUE RAIO É QUE NO FINAL DA HISTÓRIA VÊM UNS PSEUDO-INTELECTUAIS QUE DIZER QUE A CULPA DA CRISE É DO MANUEL E A VÍTIMA É O QUIM???


Em vez de criticar quem faz alguma coisa, porque não se dedica a criticar as fornadas de jovens que têm um ensino público disponível e a quem os pais estão dispostos a fazer o esforço de lhes pagarem os estudos e simplesmente são irresponsáveis, não aproveitam as oportunidades, e acabam a competir com pessoas mais velhas, que nunca tiveram oportunidades na vida, por empregos de pouco valor acrescentando. Ou critique a manifesta falta de cultura de iniciativa individual dos portugueses em formação continua? Porque é que não critica a lei laboral que asfixia o dinamismo da economia? As empresas pagam balúrdios para a segurança social para poderem despedir, porque não podem despedir?

P.S.:Vocês gostam muito de malhar no Neo-Liberalismo, diga-me por favor um único livro Neo-Liberal, escrito por um professor serio reconhecido como tal, que defenda Offshores ou produtos financeiros meramente especulativos??

Bruno Silva disse...

Só um teórico que não conhece a verdadeira realidade da economia Portuguesa é que insiste no faits divers de evocar no debate como representantes das empresas portuguesas duas multinacionais.. a isso chama-se DEMAGOGIA!!

A Chata disse...

"PORQUE RAIO É QUE NO FINAL DA HISTÓRIA VÊM UNS PSEUDO-INTELECTUAIS QUE DIZER QUE A CULPA DA CRISE É DO MANUEL E A VÍTIMA É O QUIM??? "

Esqueceu-se que o Manuel, para não ter que pagar aos 150 Quins o ordenado de miséria e a segurança social, deslocou a produção da sua 'cave' para a Ásia e aumentou muito os lucros.

Mas, então, havia um problema.
Os Quins, que tambem são a massa consumidora, sem emprego, não compravam os produtos baratinhos que o Manuel mandava fazer na China.

Era necessário financiar o consumo e vá de emprestar dinheiro aos Quins para comprar, comprar e comprar a crédito.

Compre casa, compre carro, compre mais um carro facilitamos o crédito, (os juritos são altos) e pague enquanto puder.

Até que a coisa estoirou!

Somos todos estúpidos e somos todos culpados e muitos milhões vão ser vitimas da nossa cegueira.

Reduzir salários?

Quais salários?

Olhem para o número de desempregados que cresce diariamente. Olhem para o número de empresas que fecham todos os dias.
Acordem!

E comecem a aprender mandarim...