domingo, 5 de abril de 2009

Esta UE não é porreira

O artigo de Marina Costa Lobo (MCL) no Jornal de Negócios é um excelente exemplo do europeísmo acrítico que tem dominado os sectores intelectuais da área do PS e que autoriza todas as amalgamas em nome da ideia de que quem não tem sido a favor das desgraçadas soluções europeias em vigor tem de ser contra a própria integração europeia: «Esta seria também uma excelente vitória para o PCP e o BE na medida em que estes são os partidos mais eurocépticos em Portugal». Vital Moreira não pode deixar de aprovar este duvidoso exercício.

Isto num momento em que se torna evidente, pelo menos na crucial área das políticas socioeconómicas, que os arranjos europeus forjados nas duas última décadas só acrescentam crise à crise – MCL que compare a evolução dos indicadores económicos e a dimensão da resposta europeia à crise com o que se passa do outro lado do Atlântico.

Antes de elencar algumas das perguntas urgentes em tempos de crise, a que o europeísmo acrítico não consegue dar resposta, gostaria apenas de lembrar a MCL as declarações de Marisa Matias, Rui Tavares e Miguel Portas. A esquerda socialista, o europeísmo crítico, não se deixa encerrar na categoria dos «eurocépticos» criada por MCL para efeitos de combate político. É a miopia do europeísmo feliz que pode bem destruir a UE:

Quem avançou para a moeda única com um orçamento federal residual – que representa hoje perto de 1% do PIB europeu – e sem possibilidade de emissão de dívida pública europeia, numa utopia, sem precedentes históricos, de Estado mínimo que só pode acentuar a elevadíssima polarização regional e social, aumentar a crise económica e, em última instância, minar o projecto europeu?

Quem criou um Banco Central Europeu independente do poder político democrático e com um mandato enviesado que sobe as taxas de juro ao mínimo risco de inflação importada e que demora uma eternidade a descê-las perante as forças da deflação que operam hoje à escala global num contexto de crise sem precedentes?

Quem aprovou um Pacto de Estabilidade e Crescimento focado na miragem pré-keynesiana do equilíbrio orçamental como um fim em si mesmo, que contribui para que as políticas predatórias de privatização e de subversão da provisão pública passem por naturais e inevitáveis e que, se for hoje cumprido, assegura o regresso da depressão?Quem dotou a Comissão Europeia de instrumentos e de vontade política para não fazer mais do que alargar a lógica da concorrência mercantil a um número crescente e potencialmente ilimitado de áreas?

De que forma é que o Tratado de Lisboa poderia inverter estas desgraçadas escolhas? A fé no inevitável progresso do «projecto europeu» não vale como resposta...

17 comentários:

Anónimo disse...

Diz-se que a Clara Ferreira Alves assina como "Fado Alexandrino" os comentários que faz nos blogues. Será verdade?

Carlos disse...

"Quem aprovou um Pacto de Estabilidade e Crescimento focado na miragem pré-keynesiana do equilíbrio orçamental como um fim em si mesmo, que contribui para que as políticas predatórias de privatização e de subversão da provisão pública passem por naturais e inevitáveis e que, se for hoje cumprido, assegura o regresso da depressão?"

Se me puder explicar de que forma é que o keynesianismo e constantes défices estatais, melhoram a economia e qualidade de vida da população, talvez até concordasse consigo
É que eu, ao contrário do sr. Keynes, ainda não consegui perceber qual o processo que permite ao Estado criar riqueza simplesmente aumentando as despesas, uma vez que todo o dinheiro que têm tira primeiro da economia produtiva (impostos) ou através dos défices (mais divida nacional) ou então imprime a diferença (taxando assim através de inflação).

As únicas nações que se podem dar ao luxo de fazer despesa estatal contra-cíclica são as que têm reservas e excedentes orçamentais. Só por aqui já excluímos uma boa parte delas, Portugal incluído.

A mim o homem parece-se mais com um mago ou alquimista do que um economista, visto que consegue criar prosperidade através do consumo e da despesa dos governos. Não estaremos a ver numa miragem keynesiana?

CS disse...

Caro,

A UE ainda tinha uma saída. Era preciso era substituir barroso pelo candidato certo:
http://tinyurl.com/cvsfo3

;)

Um abraço,
Carlos

Unknown disse...

Há um Fado Alexandrino mas não me parece que seja a Clara.

http://fado-alexandrino.blogspot.com/

Também escreve para The Braganza Motheres

Tiago Santos disse...

Não sendo eu economista, pelo menos para já...parece-me que um entre os vários argumentos para o sr carlos é o de que o Estado pode garantir que esse dinheiro que vem dos impostos possa ser efectivamente despendido em consumo fazendo girar a economia. É a ideia do multiplicador keynesiano. Em armadilha de liquidez, o dinheiro com que as pessoas ficam não é usado para o consumo contraindo assim toda economia numa espiral negativa.

Algum economista a sério que me corrija se disse algum barbaridade...

Carlos disse...

Keynes explica, na sua teoria do paradoxo de thrift, que as recessões são causadas por uma falta de consumo e que se estimularmos o consumo a economia recupera. A crise actual é um perfeito exemplo da estupidez desta teoria. tomemos como exemplo a economia americana: a causa da crise não é falta de consumo, é precisamente o oposto. os consumidores americanos consumiram mais do que podiam e os bancos emprestaram a quem não podia pagar. Se tivessem produzido mais, consumido menos e poupado mais, nada disto estaria a acontecer. E depois, a ideia de que o Estado sabe melhor que os indivíduos como gastar o dinheiros que tira através dos impostos desses mesmos indivíduos e empresas, é simplesmente absurda. Se querem estimular o consumo, baixem os impostos.

L. Rodrigues disse...

"Se tivessem produzido mais, consumido menos e poupado mais, nada disto estaria a acontecer."

Se produzissem mais, estariam a produzir para quem? Quem consumia?
Os chineses?

CS disse...

Boa resposta, Luís. E o modelo de solução da UE à crise está viciado em qualquer caso http://tinyurl.com/csngjf

Carlos Santos

Carlos disse...

Então acha que a crise resultou de consumo a menos e poupanças a mais?

Deviam ter comprado mais casas, apesar de existirem milhões delas vazias sem compradores.

Deviam ter comprado mais a crédito, apesar de estarem afogados em divida.

Se assim fosse, não tínhamos chegado a este ponto, pois não?

Bastava continuar a consumir, consumir e milagrosamente a recessão acabava.

Agora vamos por o Estado a consumir em vez das famílias e empresas. O problema é só que o Estado consome com o dinheiro que tira primeiro deste agentes através dos impostos. não é possivel escapar das dividas, contraindo mais dividas, nem é possivel escapar de uma recessão desbaratando o dinheiro que resta

Anónimo disse...

Eu concordo com o João nas suas críticas ao BCE. É necessário que o BCE convirja para o modelo da FED, dando prioridade simultânea ao crescimento e à inflação.

L. Rodrigues disse...

Caro Carlos,

apenas considero que a sua lógica tinha uma falha: não adianta produzir se não houver quem vender.

E não eram os chineses com os salários com que tiraram os empregos aos ocidentais que estavam em condições de desempenhar esse papel.

Em todo o mundo com poder de compra à partida houve uma forte compressão salarial.

O "crescimento" recente das economias foi feito à base de crédito, claro. Assim era possivel simular que a classe média mantinha poder de compra e anunciar niveis de crescimento presumivelmente desejáveis.

Deu no que deu...

Anónimo disse...

" ... os consumidores americanos consumiram mais do que podiam e os bancos emprestaram a quem não podia pagar. Se tivessem produzido mais, consumido menos e poupado mais, nada disto estaria a acontecer."

Mas no caso de empréstimos bancarios apesar destes empréstimos proporcionarem um aumento do consumo, este consumo não é sustentado por um aumento real do poder de compra, de rendimento liquido disponivel; este empréstimo tem um custo, ao contrario por exemplo de um aumento dos salarios, ou das pensões de reforma. Para que este aumento de consumo faça sentido, parece-me, ele tem de estar ligado a politicas redistributivas dos rendimentos. Assim me parece ...

maria disse...

Talvez em lugar de produzir mais , produzir melhor..Melhores bens de consumo , mais caros , mas mais duradouros e pagos a pronto. Lembrei-me , por exemplo , dos móveis de boa madeira que passavam de geração em geração , ou de roupas que não pareciam um trapo depois de 2 lavagens. Ou das casas com 80 anos que dão menos problemas que algumas com 20. Claro que as modas tinham de ir á vida e com ela a publicidade.

Troca Letras disse...

Tenho no meu Blogue uma votação, para escolha da melhor estação de radio, gostaria de receber o teu voto.
O link do Blogue é:
http://trocaletrastexo.blogspot.com/

CS disse...

João,

Eu deparei-me recentemente com um texto que sugeria que nada havia a mudar na forma como a economia descrita é pensada. O valor das chamadas heterodoxias é uma mais valia a retirar destes tempos:
http://ovalordasideias.blogspot.com/2009/04/depois-do-neoliberalismo-keynes-etica.html

CS disse...

Sobre uma das respostas da MCL:
http://ovalordasideias.blogspot.com/2009/04/o-agravamento-fiscal-extraordinario.html

Anónimo disse...

A politologia está para a análise política assim como as colunas de má-língua estão para o social-croquete. Que profundidade há a esperar de politólogos? Tragam de volta os bons historiadores - eles têm a percepção necessária da evolução das sociedades, não se limitando às superficialidades da política.