quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Ainda a consciência de um economista de esquerda

Paul Krugman afirmou que «já não é seguro dizer, como se podia dizer há doze anos atrás, que os efeitos do comércio na distribuição de rendimentos nos países avançados são reduzidos. Existe evidência de que são cada vez maiores». Isto foi em 2007. Entretanto, e como assinala Rui Pena Pires, Krugman afirmou à Alternatives Economiques que a globalização é uma má desculpa para o aumento das desigualdades nos EUA. Será que estas duas posições são contraditórias? Não me parece. Como afirmei aqui, baseado em literatura económica recente, as instituições são cruciais. Na ausência de políticas e de arranjos institucionais adequados, o actual processo de globalização, que é ele próprio politicamente instituído, pode provocar um aumento da polarização social e regional. A pressão aumenta e muito. Nada que Myrdal não tivesse defendido com outro quadro teórico e com outra ousadia: causalidade cumulativa.

Na área dos fluxos financeiros internacionais, infelizmente até há pouco muito menos presente no debate público, a questão ainda é mais complicada e os impactos negativos potencialmente mais importantes. Nos países em vias de desenvolvimento e nos países ditos avançados. Não nos esqueçamos que Krugman apontou os controlos de capitais da China e da Índia como uma das razões explicativas para a sua resistência face à crise asiática. Não temos de aceitar a configuração das forças do mercado global que nos aparece à frente num dado momento histórico e não temos de nos limitar a desenhar políticas de compensação. Qual é a saída? Como diz Dani Rodrik, outro futuro Prémio Nobel, tudo depende do contexto. Gosto cada vez mais desta resposta: depende.

Retomando a questão que também aqui causou polémica: Por que é que Krugman é então de esquerda? Porque, entre outras coisas, defende um novo New Deal nos EUA, o aumento da progressividade do sistema fiscal, um sistema de saúde com cobertura universal, o reforço do papel dos sindicatos. Crítica o enorme incremento das desigualdades e acha que este não é inevitável, nem desejável. Não é daqueles que acham que a justiça social é uma ilusão, que não passa de «inveja idealizada». A sua abordagem à política económica é basicamente keynesiana. Denuncia a filosofia do «público mau, privado bom». Estas são linhas divisórias importantes no debate público. Numa ciência que se tornou tão conformista ainda mais. É refrescante ver um Prémio Nobel da Economia que diz coisas heterodoxas como esta: «a massa dos assalariados perdeu bastante poder de negociação (…) as condições políticas têm uma influência essencial na repartição do rendimento». A direita intransigente acha que isto é o centro vital. Tanto melhor. E, também em Portugal, há muitos intelectuais, economistas ou não, que alimentaram um discurso anti-sindical primário e que precisam de ser relembrados destes factos essenciais.

E aqui chegamos ao posicionamento teórico de Krugman. Um economista convencional que se filia na tradição neoclássica. Luís Gaspar tem toda a razão neste ponto. No entanto, isto não impede Krugman de ser um economista de esquerda, nem nos deve impedir de apreciar o seu trabalho. Nem sequer é preciso, como João Galamba bem assinala, fazer separações entre trabalho teórico e de divulgação. Embora eu trabalhe com outras referências teóricas e metodológicas, reconheço que os trabalhos de Krugman contribuíram para que a economia convencional se abrisse a problemas e a realidades que até aí não faziam parte da sua agenda. E a sua recente insistência na importância das normas sociais e políticas é bastante encorajadora para quem, como eu, trabalha na área e é olhado de lado por muitos economistas.

De qualquer forma, pelo menos desde os anos trinta que sabemos, como Miguel Madeira assinala, que a chamada economia neoclássica é muito mais aberta e flexível do que muitos pensam (a Escola de Chicago nunca teve o monopólio da coisa): afinal foi um economista neoclássico – Oskar Lange – a defender contra os heterodoxos austríacos – Mises e Hayek – a viabilidade teórica de uma economia socialista com mecanismos de mimetismo mercantil. Fica tudo mais baralhado e isto tem muito mais interesse. Lembremos o que se pode fazer com a «teoria do do second-best». Lembremos o paradigma da informação assimétrica. Lembremos os keynesianos neoclássicos. Embora por vias teóricas diversas, as suas conclusões em termos de política económica não se desviam muito das conclusões dos pós-keynesianos críticos. Embora, os últimos, na minha opinião, sejam mais bem interessantes na exploração dos desequilíbrios do sistema e das complexidades do comportamento humano e na incorporação de temas como a incerteza radical ou a não-neutralidade da moeda. Continuo a achar que as tradições neo-marxista, pós-keynesiana e institucionalista são mais interessantes e vão mais longe na identificação de mecanismos e de processos económicos cruciais, mas isto não me impede de apreciar o contributo dos economistas ditos neoclássicos e de aprender muito, mas mesmo muito, com eles. De Krugman a Rodrik. Há evoluções interessantes num paradigma dominante que parece estar em processo de esfarelamento metodológico e onde já nem sequer o individualismo metodológico é seguido de forma consistente (para outra oportunidade...).

Nota final. Pedro Lains acha que nós somos «o mais ideológico blogue sobre temas económicos». Quem diz ao que vem arrisca-se a este tipo de acusações. Sobretudo quando se é assumidamente de esquerda. Há aqui uma assimetria na Economia que é muito reveladora. Eu acho que Pedro Lains está obviamente a ser ideológico quando finge que não tem ideologia, ou seja, quando finge que a sua investigação e intervenção pública não são estimuladas e orientadas por um quadro de ideias e de valores sobre a forma como a economia pode e deve estar organizada. A tensão entre o pode e o deve até pode e deve ser fonte de conhecimento. Eu prefiro ser claro e transparente neste campo. Assim, e como já aqui defendi, talvez se reduza a influência do preconceito na investigação. Fica tudo mais controlado.

5 comentários:

Anónimo disse...

Sim, digo isso e acho que é verdade. Mas devia ainda ter acrescentado que também acho que "vocês" são intelectualmente muito sofisticados e que por isso vale muito a pena discutir as ideias que defendem. Embora a muitas delas eu não chamasse Economia. Saudações amigas.

Luis Gaspar disse...

Bom post. Não sei se fui muito explícito, mas a minha ideia era precisamente esta: eu gosto de Krugman como colunista, e considero-o um homem de consciência de esquerda; não gosto tanto do Krugman académico, cujos resultados, porventura por estarem condicionados pela metodologia neoclássica, não serem o que ele precisaria para sustentar as suas posições políticas (basta ver a crítica académica dele àqueles que acreditavam que era possível escolher um conjunto de indústrias nascentes e apoiá-las estatalmente, no fim dos anos 90). Daí ele ter aberto uma segmentação para mim muito clara (e intransponível) entre a consciência de liberal e o trabalho como neoclássico.

Porfirio Silva disse...

Porque é preciso recomeçar a pensar (a menos que se pense que "a crise" foi um carnaval e já estamos em quarta-feira de cinzas...), permito-me interromper para sugerir Para uma economia política institucionalista .

Diogo disse...

Jon Stewart, do Daily Show - 700 mil milhões de dólares para os Bancos

Jon Stewart, do Daily Show, fala-nos do plano do secretário das Finanças, Henry Paulson, no valor de 700 mil milhões de dólares, para salvar a finança americana. Pelo meio, uma breve mas brilhante análise da situação por George Bush. Um curto vídeo que nos arranca um bom par de gargalhadas e que termina numa toada arrepiante:


Stewart: Com Wall Street em ruínas, o secretário Frankensteiniano das Finanças, Henry Paulson, correu a ajudar com um plano brilhante. Um plano governamental de 700 mil milhões de dólares para resgatar a indústria financeira. 700 mil milhões do vosso dinheiro.

Bem, 700 mil milhões de dólares é imenso dinheiro, será que o Paulson vai aceitar? Sim ele aceita mas só sob certas condições. Para o secretário Paulson aceitar o nosso dinheiro, as decisões dele têm de ser, e passo a citar:

- Não consultáveis e mantidas em sigilo, e não podem ser analisadas por qualquer tribunal ou organismo administrativo.

Ouçam, antes de darmos a um funcionário sinistro que nem sequer foi a votos 700 mil milhões de dólares para fazer o que lhe apetecer, há uma coisa que devem saber. Este guru financeiro foi apanhado de surpresa.

(Entrevista de Paulson na Fox News a 16 de Março deste ano - 2008):

Paulson: tenho imensa confiança no nosso mercado financeiro, nas nossas instituições financeiras, os nossos mercados são resistentes, são flexíveis. As nossas instituições e os bancos de investimento são fortes.

Stewart: Isto é que é ter visão! É a cabeça de Aquiles dele. Para mais informações vamos falar com o nosso analista John Oliver. Oliver, obrigado por estares connosco. Isto é espantoso... Um exemplo espantoso... Para esta Administração depois do Katrina, depois do Iraque...

Oliver: A prisão de Guantánamo?

Stewart: Sim, isso também nos colocou numa situação difícil…

Oliver: E a politização do sistema judicial?

Stewart: Sim, preocupante.

Oliver: O secretismo draconiano?

Stewart: Sim, está bem. Onde quero chegar é ao seguinte, nunca pensei que houvesse outra área onde estes tipos conseguissem dar barraca.

Oliver: Eu sei. E não foi fácil. Foi como tentar encontrar a veia num viciado em falhanços.

Stewart: Então... Isto é... Eu compreendo, quando a veia morre é difícil... Então esta crise económica é, digamos assim, a cobertura de bosta no bolo de merda desta administração?

Oliver: Muito bem… Duas coisas: primeiro, essa metáfora teve classe. E, segundo, não os dês por acabados, Jon. Ainda falta muito até Janeiro (de 2009).

Stewart: Então achas que ainda há mais para vir? O que é que resta para eles... desconseguirem, digamos assim?

Oliver: Bem, vejamos... Ainda tens casa? Sim? Bem, então aí tens. Os teus filhos tomaram o pequeno-almoço hoje de manhã?

Stewart: Tomaram, tomaram um bom pequeno-almoço.

Oliver: E foi alguma coisa que encontraram na rua?

Stewart: Estás a dizer que o Presidente só vai ficar satisfeito quando os miúdos americanos comerem animais atropelados?

Oliver: Quando lutarem entre si pelos animais atropelados. Quando os animais atropelados forem o prémio para os mais fortes.

Stewart: Mas... Porquê?

Oliver: O legado Jon. Ouve, todos sabemos que ele nunca será lembrado como o melhor Presidente. Mas ainda pode, se se esforçar bastante...

Stewart: Ser o pior?

Oliver: Ser o último!


Vídeo legendado em português:

Anónimo disse...

Além da economia estamos a esquecer a Gestão, cujas práticas conduziram a este estado de coisas, e não tanto as teorias económicas.
Já esquecemos os ensinamentos de Peter Drucker, o chamado pai da gestão? Se assim é sempre nos resta Henry Minzberg, que há muito alertava para o que estava para vir.
A visitar: www.henrymintzberg.com