sábado, 15 de julho de 2017

A propósito de empresários e políticos

Jornal Público, 30/9/2000, artigo de José Augusto Moreira
Um dia nos meus primeiros anos de jornalista, algures entre 1986 e 1989, estava no Diário de Lisboa, e chega um envelope, acho que endereçado ao José António Cerejo que, nessa altura, trabalhava na secção de Economia, com o Daniel Reis e eu.

Eram meia dúzia de folhas dactilografadas e agrafadas. Uma com organogramas do grupo Amorim, uma outra com uma lista de pessoas que trabalhavam no grupo, com os seus telefones e moradas. E noutra uma carta de denúncia, naquele estilo corrido, de desabafo, anónimo. Entre as denúncias, contava-se que o grupo Amorim andava a desviar dinheiros do Fundo Social Europeu (FSE) para a formação profissional.

Naqueles anos - como o próprio ex-ministro da Economia Mira Amaral reconheceu depois - o que interessava era que Portugal esgotasse as verbas possíveis do FSE. Eram dinheiros para os empresários nacionais...

No Diário de Lisboa, ainda demorámos a pensar o que fazer. O Cerejo disse-me para ir telefonando para aquelas pessoas, a ver o que dava. E assim foi. Fui ligando, um a um. Sem resultados. O quarto da lista - deveria ser o autor da denúncia - dispôs-se a conversar. Mas não pelo telefone. Fui para o norte, para a freguesia onde estava instalado o grupo Amorim. Já não me lembro onde nos encontrámos. Na conversa, o desabafo continuou. Um enorme grupo gerido de forma altamente centralizada na pessoa de Américo Amorim, com práticas nada abonatórias do que hoje é descrito na comunicação social como sendo um "empresário". E lá vinham as descrições do desvio de dinheiro do FSE. Supostamente, a formação era para jovens, mas o dinheiro ficava na empresa. Pude falar com trabalhadores que me confirmaram que tinham tido formação numa manhã, mas sem continuação.

A denúncia anónima deve ter ido também para a Polícia Judiciária. Américo Amorim foi acusado de falsificação de documentos, fraude e desvio de dinheiro do Fundo Social Europeu. A União Europeia exige uma indemnização de 77 mil contos e juros a contar de 1987, com base na utilização fraudulenta de meio milhão de contos para formação profissional entre 1985 e 1988... Mas o caso haveria de prescrever. Veja-se a descrição a notícia no Público, de 30/9/2000.

Outros casos do FSE como o da Partex, da UGT - e muitos outros megaprocessos investigados e com acusação - prescreveram por questões processuais - veja-se aqui a lista feita pelo Ministério Público.

Jornal Público, 18/11/2000, Catarina Gomes
Aqui, entre nós, e sem qualquer orgulho, tudo foi por causa de mim. Por causa de uma queixa que fiz contra Cavaco Silva. Não interessam os pormenores, apenas que Cavaco me acusou publicamente de algo que eu não fizera e eu queixei-me ao Ministério Público de ele me ter difamado.

Nesse processo, a juíza em primeira instância considerou que o interrogatório feito a Cavaco Silva não interrompeu o prazo de prescrição do procedimento criminal. No tribunal da Relação, dois juízes deram razão à juíza, quando dois meses antes tinham decidido em sentido contrário, num processo em tudo semelhante. E o Supremo Tribunal, chamado a fixar jurisprudência, decidiu a favor de Cavaco Silva...

E com essa decisão fez-se prescrever todos os megaprocessos. Veja-se o número de prescrições na tabela inscrita no artigo do Público, para aferir da sua importância.

Ele há mesmo dias que uma pessoa deve ficar na cama. E há histórias reais que davam um episódio de uma boa série.

26 comentários:

Paulo Marques disse...

"o que interessava era que Portugal esgotasse as verbas possíveis do FSE."

A esperteza à português.

Anónimo disse...

Enfim... Lá se foi um senhor que, em vez de se divertir a jogar golfe, se divertia - palavras suas - a "trabalhar". Ele há gente que, vá-se lá saber porquê, se torna bilionária a "trabalhar" divertidamente, enquanto outra há que, trabalhando sem parança toda a vida, o mais que ganha com o trabalho são maleitas que lhe destruirá a saúde e a levará à cova prematuramente. A falta de sorte que essa gente tem - trabalhando, chegam ao final do mês (que digo eu?!!! Chegam é ao final da vida) sem um tostão furado - dever-se-á, certamente, à forma como encara o trabalho: sendo trabalho, muito raramente é diversão. Deve ser isso...
Voltando ao precioso finado, o processo de canonização começado pelos nossos queridos media segue a bom seguir...

Carlos Martins, Neca disse...

É passou tudo à história, debaixo do tapete, devido a um homem q um dia disse "está para nascer alguém mais honesto q eu".

Jose disse...

Diz-se que a reforma agrária foi um maná para o grupo Amorim,
É isso o que caracteriza um homem de negócios, aproveitar as oportunidades; e não ser honesto ao ponto de não ignorar a desonestidade alheia.

Carlos Arriaga disse...

Tenho pena que só a morte volte a trazer ao de cima aquilo que grupos empresariais portugueses se habituaram, viverem na mama do Estado, aproveitar borlas da União Europeia e ter os políticos sob a sua alçada... Um país cinzento pós Abril concerteza!

Anónimo disse...

Dizem que a reforma agrária foi um maná?

A elegia dum homem de negócios? À custa da Reforma Agrária que deixou alguns dos donos de Portugal na altura em estado de histeria.

Mas o que é simplesmente curiosa é esta doutrina que defende os "homens de negócios". Desta forma manhosa e cúmplice. Ternurenta e piegas. Abjecta e de sicário

Curiosamente foi a mesma tecla citada quando o Ricardo Salgado foi apanhado. Sabem qual foi a "defesa" de herr jose para o grande banqueiro?

Roubou porque o roubaram.

Anónimo disse...

Também de quem defende e justifica os patrões corruptores pelo facto de haver corruptos...podemos esperar tudo sob o ponto de vista ético.

E também sob o ponto de vista de ladroagem.
Aqui neste pequeno comentário de herr Jose a confirmação que estes tipos não se vedam. Justificam a fuga para os paraísos fiscais pelo facto de não ignorarem a desonestidade alheia?

Isso e muito mais

Quando mandavam morrer e matar pelo império colonial iam pelo mesmo trajecto. O saque das riquezas alheias era sustentado pelo facto de não ignorarem as "desonestidades alheias"?

E que maior desonestidade essa de não obedecer na íntegra a quem lhes vampirizava a alma e os escravizava?

Estavam justificadas as pulhices que faziam.

Anónimo disse...

Mas há outra grande incomodidade para herr jose ( que o obriga a dar tanto o flanco e tentar justificar deste modo as canalhices dos boçais patrões)

É o seu silêncio sobre os Fundos Sociais Europeus.

Que encheram os bolsos de muitos patrões e respectivas associações. E de alguns dos sindicatos ao seu serviço

Alguns destes fundos serviram para pagar os que serviam tais associações. Para pagar peritos patrões ao serviço de patrões.

Até que enfim que herr jose dá a sua justificação pelo facto de assim procederem.
Não eram honestos ao ponto de não ignorar a desonestidade alheia.

Um vómito de facto

Jose disse...

Um país que despudoradamente vive de dívida e apela (melhor dizendo, exige) à solidariedade (melhor dizendo, almoços grátis), a exigência de extremo rigor para as empresas (só as privadas) é das manifestações mais emblemáticas da esquerdalhada!

Anónimo disse...

O homem que dizia que tudo o que custasse mais de 1 euro era muito caro....!!!

Anónimo disse...

Crónicas do Cavaquistão !

Anónimo disse...

"Não há almoços grátis" é precisamente a frase usada por aquele aldrabão beato e fundamentalista dos mercados, o César das Neves, aquele denunciado num post anterior de Paulo Coimbra e que deixou "inquieto" e sem resposta o jose.

Também parece que esta frase era do especial carinho ( há quem diga que foi o seu autor) de Friedman, um conhecido amante dos processos à Pinochet. E seu amigo pessoal

Mas não é da frase de Friedman/ César das neves / jose que se ocupa o post.

É do modus faciendi do Capital e dos Grandes capitalistas. E por junto de quem tenta justificar o comportamento dos vampiros. Esses parece que têm mesmo almoços grátis

Anónimo disse...

A afirmação sobre o que é um homem de negócios e sobre a sua "honestidade" ´caracteriza de tal forma os grandes capitalistas que obriga este jose a tentar corrigir o alvo. Desta forma incoerente, descontrolada e tão esclarecedora:

"um homem de negócios, aproveitar as oportunidades; e não ser honesto ao ponto de não ignorar a desonestidade alheia"

é transformada agora nisto:

"exigência de extremo rigor para as empresas (só as privadas)".

Apanhado com a mão no trombone, tenta agora tocar o faduncho das empresas que sofrem o "extremo rigor".

Uma chatice que os roubos, as falcatruas, as corrupções, os corruptos e os corruptores, este modus faciendi do capital, sejam assim desmascarados. Que chatice para o tal Jose que, tentando mudar o seu discurso, vem agora queixar-se pelo" extremo rigor exigido às empresas"

( foi, é o que se vê)

É roubar vilanagem. Há que "não ser honesto ao ponto de não ignorar a desonestidade alheia"

Anónimo disse...

Agora percebe-se melhor o conceito de honestidade destas gentes.

Detentoras de uma agência funerária, iriam revistar os bolsos dos defuntos e as gavetas dos falecidos.

E se encontrassem uma nota de mil ( ou de quinhentos, ou de cem ou o que quer que seja) logo ali a surripiariam e proclamariam em surdina:

"este não era honesto"

E como verdadeiros homens de negócios, continuariam quase num sussurro:

O que "caracteriza um homem de negócios,(é) aproveitar as oportunidades; e não ser honesto ao ponto de não ignorar a desonestidade alheia".

Foi assim que lhes começou a vidinha ?

Jose disse...

Cuco, dentro da tradicional má-língua, até que conseguiste uma construção razoavelmente articulada.

Agora diz-me: há corruptos porque há corruptores ou há corruptores porque há corruptos?

carlos alberto alves disse...

Quem é que apareceu no funeral de Américo Amorim? Foram todos aqueles que de uma forma ou doutra beneficiaram dos favores de Américo Amorim, Cavaco Silva, Mira Amaral, e outros safardanas que elogiaram um indivíduo que se abotoou com as massas enviadas do FSE para formação de trabalhadores, Quantos operários ou trabalhadores apareceram no funeral deste explorador capitalista? Bem se viu quem apareceu no funeral da peça, toda uma camarilha que serve uma classe exploradora e opressora, entre eles um vende-pátrias, o Passos Coelho, o tal que agora aparece a criticar o que este governo faz, ou não faz, tão bom como ele, e como ia dizendo, estou inteiramente de acordo com o comentário do 1º anónimo, onde faz a denúncia do defunto, prenhe de grande verdade. É assim os serventuários do capitalismo, nunca poderiam faltar ao enterro de um dos seus.

Anónimo disse...

Herr José faz-se de sonso e imediatamente obnubila-se-lhe a memória: muito antes do 25 de Abril e muito antes da sabotada Reforma Agrária, já se faziam grandes concentrações de capital agrário alentejano. E Herr José sabe perfeitamente a causa de tal concentração: os ausentes agrários alentejanos há muito que haviam estourado os seus vastos cabedais em putas e vinho verde. Mas quanto a isso fecha-se o nosso Josezito em copas...

Anónimo disse...

Acabou Herr José de inteligentemente assassinar a sabedoria contida no popular anexim "Tanto é ladrão o que entra na vinha como o que fica de vigia".
Olhe, Herr José, se os atos infamantes alheios não mancham quem deles se beneficia, rume Vossa Excelência à agora finalmente democrática Líbia: parece que os mercados de escravos negros são aí a última moda e consta que se fazem negociatas fabulosas. E, afinal, não há que ter escrúpulos morais, pois a desgraçada carga humana foi escravizada por terceiros, não é verdade?

Anónimo disse...

Depois do elogio da canalhice e desonestidade dos homens de negócios ( foi assim que se lhes continuou a vidinha, não foi?) eis que este jose dá a benção e assume uma terna cumplicidade com os corruptores. Eles também homens de negócios, pois então.

Está certo. A segunda confirma a primeira.

Há que "não ser honesto ao ponto de não ignorar a desonestidade alheia".

E depois choramingar um pouco pelas empresas que sofrem o "extremo rigor".



José Gonçalves Cravinho disse...

Eu,filho de pobres trabalhadores do campo e um simples operário emigrante na Holanda onde resido desde 1964 e já velhote,93 anos de idade,a propósito do que aqui tenho lido,direi simplesmente que os patrioteiros filhos da pata que os amassou em má hora e que téem desgovernado e continuam desgovernando Portugal,são certamente «filhos da mesma escola» que formou ou formatou os apoiantes da Ditadura clerical-fascista do Estado Novo.ÊLES agacharam-se para deixar passar a onda do 25 d'Abril e depois a conselho de Carlucci e pela mão de Mário Soares que meteu o Socialismo na gaveta,ÊLES surgiram disfarçados de liberais, de socialdemocratas,de cristãosdemocratas e até de socialistas e como inimigos mortais do chamado «gonçalvismo»jurando vingar-se do 25 d'Abril,tomaram conta das Empresas Públicas em cuja Direcção colocaram gente da sua igualha a quem foi dito que isto é p'ra deitar abaixo e vocês amanhem-se como puderem,pois os revolucionários,especialmente os comunistas,hão de pagar bem caro o Mal que nos fizeram.ÊLES tomaram conta da Economia,das Finanças e claro está,da Banca que defraudaram e se «abotoaram»com milhares de milhões de euros,colocando Portugal à beira da Bancarrôta.ÊLES também venderam Portugal aos bocados aos interesses estrangeiros e manhosamente souberam tirar o melhor partido do «quanto pior,melhor» promovendo a corrupção,a criminalidade,a desordem social e ficam satisfeitos com sua «OBRA»quando ouvem alguém de entre o Povo,dizer que isto está pior do que no tempo de Salazar. A Pátria-Mãe p'ra mim madrasta/empurrou-me p'rà emigração/e maldita seja a Governação/que Portugal p'rà miséria arrasta.

Anónimo disse...

O corruptor de hoje foi o corrupto de ontem e será o do futuro se tal for necessário.

Como qualquer homem de (grandes) negócios sabe. E pratica

Jose disse...

Há que notar que um homem de negócios tem que estar preparado para actuar em mercado;
há mercados com corrupção instituída.
Se começou no corrupto ou no corruptor interessa pouco; quem vai a esse mercado sabe que tem que pagar. Houve um tempo assim nos fundos europeus...

Anónimo disse...

Um post com um sentido de oportunidade apurado e certeiro.

De tal forma que deixa esse tal Jose atarantado.

Dessa forma patética que mete dó.
E tão perturbada que mete gargalhada

Anónimo disse...

Quem posta que não interessa se começou no corrupto ou no corruptor é exactamente quem inquiriu mais acima sobre essa mesma exacta questão.

Só que spanhado em contra-pé -e muito bem apanhado - é obrigado a dar o dito pelo não dito e a meter os pés pelas mãos deste jeito tão caricato.

Mas há mais.

Anónimo disse...

Claro que um homem de negócios tem que estar preparado para actuar no mercado.

Sobretudo se for um grande homem de negócios.

Sobretudo para "aproveitar as oportunidades; e não ser honesto ao ponto de não ignorar a desonestidade alheia."

Um elogio da filha da putice dos grandes homens de negócios
Um elogio da trampa que são os mercados uberalles
A confirmação que são corruptos e corruptores. E que é assim que o Capital funciona

Anónimo disse...

Mas não se deixe passar esta ode envergonhada, mas sobretudo ternurenta, com os corruptos e corruptores dos grandes homens de negócios

Do mesmo que não se veda para expressar o seu ódio a quem trabalha , aos trabalhadores , aos sindicatos e a quem tenta dizer não a esta choldra em que vivemos e aos crimes dos grandes homens de negócios


Para quando a devolução do dinheiro dos fundos europeus sacado por esta gente?

A famigerada dívida foi sobretudo montada e aparelhada por gente assim. Como se viu e se vê.