sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Palhaços ou incómodos?

Esta notícia do Público de hoje é um caso interessante de como um texto factual pode transmitir tantas opiniões. Acho impossível que uma notícia, por mais escorreita e crua que seja, acaba sempre por transmitir um ponto de vista, um ângulo. É fatal. O problema é, na verdade, de que forma os textos transmitem essas opiniões e quais.

Ou seja, o que será mais importante para o jornalismo? Uma declaração verdadeira de um membro do Governo, que questiona a política polémica desse Governo; ou o facto dessas declarações verdadeiras serem consideradas uma gaffe? Que lado do "problema" transmite esta notícia?

Leia-se o texto ao lado. O primeiro período da notícia acaba por desvalorizar as declarações do ministro britânico dos negócios estrangeiros ao pressupor-se que as suas declarações foram impensadas, infantis ou mesmo escorregadelas de quem não tem perfil para um governo. Ou seja, tudo indica que não se gosta muito dele.

O segundo parágrafo é a fonte da discórdia, com a primeira-ministra Teresa May a tirar - embaraçada - o tapete debaixo do seu ministro, mas sem o demitir...

O segundo parágrafo é a uma confirmação de que tudo se tratou de um lapso, de um deslize, de uma asneira, sabe-se lá se não mesmo um problema geral de filtro. Os ministros não devem ser assim, parece dizer-se. E essa ideia é reafirmada no final do parágrafo, ao dizer-se que essa gaffe "fere uma das alianças mais prezadas por Londres (...) que tem como política não criticar em público as acções de Riad". E assim é quando a Arábia Saudita é um dos "principais clientes de empresas de armamento britânicas". Mas - interessante! - este facto, esta ligação, apenas surge entre parêntesis...

Portanto, o que o ministro estava a dizer é que o Reino Unido acaba por contribuir com as suas vendas de armas para que a Arábia Saudita desestabilize a região do Médio Oriente. Isso será uma gaffe? Um deslize? Ou um statement político que visa tirar benefícios futuros? Foi um palhaço a brincar ou a capitalizar uma crítica ao pensamento dominante, sobre aquela que é o ponto fulcral da instabilidade mundial? Não visa mesmo embaraçar a política externa britânica, a ponto de May ter mantido a viagem de Boris a Riad, para o forçar a retractar-se e assim retirar-lhe o tapete político que Boris quis tirar a May? E de que lado se colocou o jornalismo?

9 comentários:

Anónimo disse...

De que lado se colocou o jornalismo? Ele não se colocou de lado, ele permaneceu exatamente na mesma posição em que tem estado nos últimos 20/25 anos: de quatro no chão, de calças pelo artelho e de traseiro sempre solícito.

Antonio Cristovao disse...

Precisava de se por do lado de alguém ? O cidadão leitor precisa de pastorinhos ? dos amanhãs de cantam ou dos contra controles institucionais ? Devem ter os media um estatuto bem claro em que se declara sou alinhado com..? realmente quem gosta de seguir certos tudologos deixam-me muitas dúvidas que se sintam capazes de pensar pela própria cabeça. sem um guião do que é correcto pensar. Crenças...

Obomba disse...

E por falar em venda de armamento a Sauditas…

EUA vendem armas no valor de biliões à Arábia Saudita e outros “democratas”, defensores da liberdade e respeitadores dos direitos humanos do médio oriente…

http://www.reuters.com/article/us-boeing-mideast-idUSKBN13X2QC?il=0


Porque será que este tipo de informação não passa na TV e é ignorado pela generalidade da imprensa?

Anónimo disse...

Cristovao tem óbvias dificuldades de raciocinar acerca do que lê. Confunde sempre, sempre exigências de pluralismo e de ausência de partidarismos nas notícias como apelos a pastoreio.

É fodido quando as nossas capacidades hermenêuticas se resumem ao papaguear do jogo e da propaganda partidária.

Anónimo disse...

Sr Cristóvão o sr tem algum juízo crítico sobre algo que seja, que porventura cause rasuras no universo em que vive e que toma por ideal?

Veja-se o seu vocabulário, a mostrar a pesporrência e os complexos que lhe vão no fundo da alma.

O cidadão leitor precisa dum pastorinho que ande a rezar missas em torno dos amanhãs que cantam ou dos contra controlos institucionias(?)? Tem um estatuto bem claro em que se declarou é alinhado com? Realmente quem gosta de segur este tudólogo deixa muitas dúvidas que se sinta capaz de pensar pela sua própria cabeça sem um guião do que é correcto pensar. Crenças.

Este é o espectáculo dado por. Uma tristeza

Jose disse...

O jornalista faz o que tem a fazer: enuncia os factos relevantes para que o leitor faça o seu juízo.
Se a organização do texto parece deixar transparecer qual a relevância relativa atribuída pelo jornalista a esses factos, isso é bem mais adequado que organiza-los para a seguir debitar conclusões.

Jaime Santos disse...

Está a ler demasiado nas entrelinhas. O que a jornalista escreveu é rigorosamente exato e não lhe peça para fazer julgamentos morais ao Governo de Londres. Se o fizesse, seria um artigo de opinião e não uma notícia. Mas independentemente do que pensemos da razão que Johnson possa ou não possa ter (e não há dúvida que a tem neste caso), imagine o que seria se o nosso MNE se pusesse implicitamente a criticar a política do Governo Português ao criticar a Comissão Europeia, ou se o líder parlamentar do PCP se pusesse a fazer o mesmo em relação ao seu Partido, denunciando a repressão das liberdades políticas em Cuba ou em Angola? Como dizia Lincoln, citando a Bíblia, uma casa dividida não se aguenta. Se Johnson quer manter a liberdade de dizer o que pensa, tem bom remédio, deve sair do Governo Britânico. Engraçado como isto não parece ser óbvio...

Anónimo disse...

Jaime Santos tem graves problemas hermenêuticos. Não percebe que o que JRA critica é justamente o modo opinioso da jornalista, Passa completamente ao lado do que está em causa.

Para Jaime Santos notícia é tudo aquilo que lhe confirma os preconceitos, mesmo que traga dentro o que o jornalista acha de Inglaterra e de Boris, como é o caso. Já opinião é o resto, mesmo que esse resto seja o pedir à jornalista que se cinja ao relato dos factos e que exclua generalizações a partir dos seus partis prises.

Anónimo disse...

"O jornalista faz o que tem a fazer: enuncia os factos relevantes para que o leitor faça o seu juízo."

Mas é "isso" que o jornalista faz?

O processo começa logo na selecção do que se noticia. O meio "mais adequado" para a transmissão do que se pretende transmitir.

E enuncia os factos relevantes ou o que ele acha relevantes? Ou o que acha que o patrão acha relevantes?

Defende-se que"a organização do texto (pode) deixar transparecer qual a relevância relativa atribuída pelo jornalista a esses factos". Coisa que é adequada para alguns, talvez imbuídos naquela fórmula de que a manipulação é tanto mais adequada quanto mais não deixar transparecer a manipulação.

A manipulação acentua-se logo no título e nos subtítulos. Encaminham o leitor para a leitura tida com adequada e faz o seu trabalho perante quem lê apenas os cabeçalhos. O tentar esconder as formas de manipulação com o "debitar conclusões" mais não faz do que confirmar estas formas primárias ( mas por vezes sofisticadas) de controlo informativo.

A vida tem destas coisas. Da defesa da censura no tempo do fascismo passa-se para a minimização da dita censura. Desta passa-se para a defesa desta "informação jornalística" servida pelas centrais informativas do poder económico que nos domina. E fazem-se exercícios em torno do "deixar transparecer" quando o que se faz sistematicamente é "esconder, aldrabar,manipular e mentir". Com mais ou menos véus, com mais ou menos roupagens mas o que se pretende é mesmo o domínio informativo

Basta olhar para os exemplos que nos são dados quotidianamente.