quinta-feira, 4 de setembro de 2014

O caminho da renúncia


Num artigo muito revelador, no "Público" (31 Agosto), Teresa de Sousa (TS) manifesta uma expectativa angustiada: que Matteo Renzi e Manuel Valls, respectivamente chefes dos governos italiano e francês, sejam capazes de "provar que há uma alternativa à política de austeridade salvífica, capaz também de levar em conta a economia global e a estabilidade do euro". Em sua opinião, a estrondosa derrota nas europeias e a dramática quebra de popularidade do presidente francês devem-se à "falta de coragem para fazer as reformas". Pensava eu que era por causa das políticas de austeridade, desemprego em alta e capitulação perante a Alemanha, de que beneficiou Marine Le Pen. Precisamente o contrário do que tinha prometido na campanha eleitoral.

Assumindo o fracasso das políticas adoptadas nos últimos anos, TS espera que a nova geração de líderes do centro-esquerda, onde inclui António Costa, seja capaz de "ganhar de novo a confiança dos eleitores do centro, sem os quais não há vitórias eleitorais". Uma vez no governo, espera destes centristas novas "reformas estruturais" à Schroeder - para desespero de TS, a França ainda não foi capaz de as fazer - e a aceitação da tutela da Alemanha na governação do euro, possivelmente recebendo como brinde alguma flexibilização do Tratado Orçamental. Evidentemente, também deverão adaptar-se à globalização, o que inclui a livre circulação de capitais e os paraísos fiscais com que o euro trabalha, como bem sabemos pelo BES.

Repare-se que para TS, como de resto também para Jorge Almeida Fernandes (JAF), na mesma edição do "Público" (França: PS perde a "vergonha de governar"), a saída desta crise está nos incentivos às empresas e nas reformas que as beneficiam (estímulo à oferta), como se não estivéssemos perante uma enorme e prolongada crise de procura, desgraçadamente agravada pela política económica adoptada. A cegueira ideológica é tanta que JAF chega a inventar uma política expansionista que teria falhado na primeira parte do mandato de Hollande. Provavelmente referia-se ao funcionamento dos estabilizadores automáticos (redução dos impostos, aumento dos subsídios sociais), com o decorrente aumento do défice, tomando-o por uma política orçamental expansionista. Bastar-lhe-ia saber o que foi o New Deal de Roosevelt para perceber o ridículo da afirmação. Obviamente, uma política orçamental genuinamente keynesiana está excluída dos tratados da UE.

Pior ainda, estes analistas continuam a fazer de conta que os cortes na despesa, se forem suavizados por um deslizamento nas metas do défice, são compatíveis com o crescimento económico e, presume-se, com a redução significativa do desemprego. Sabem muito bem que, nesta conjuntura, a redução de 1% em salários, pensões ou investimento público conduz a uma redução do PIB muito superior a 1% (um multiplicador entre 1,7 e 2,2, dependendo do país), como o próprio FMI admitiu num mea culpa hipócrita. E também sabem que a deflação, em que boa parte da zona euro, incluindo Portugal, já se encontra, é o resultado da aplicação generalizada desta política pró-cíclica. Estarão mesmo convencidos de que, com uma austeridade suave, sairemos da armadilha da deflação?

Estes analistas também sabem que a desvantagem acumulada na competitividade-custo da indústria francesa e italiana relativamente à alemã nunca poderia ser recuperada através de uma redução nominal dos salários, muito menos quando a própria Alemanha instituiu a estagnação salarial (as tais reformas de Schroeder), estando agora também ela a caminho da deflação. Com euro e globalização desenfreada, nem Valls nem Renzi podem travar a desindustrialização dos respectivos países. Estes analistas sabem tudo isto, mas continuam a pintar o inevitável fim do euro com as cores da catástrofe, como se não estivéssemos já a vivê-la e não caminhássemos para pior.

Lembrando Jacques Sapir (Valls et le renoncement), a escolha do novo governo de Hollande "não é a da coragem, não é a da vontade, é a da renúncia." É essa a escolha dos que dizem querer defender o Estado social permanecendo no euro.

10 comentários:

Pedro Veiga disse...

Nas notícias recentes que circulam nos meios mais ouvidos diz-se que tudo está bem e que Portugal está a recuperar da crise a grande velocidade. Esta é a ideia transmitida com o intuito de preparar o ambiente para as próximas eleições.
Nos grandes meios de comunicação não se discute a fundo toda a questão do euro, das dívidas e do desemprego. Não há informação capaz, bem fundamentada, e apenas de transmitem ideias-chave, como se tratasse da venda de um simples produto comercial. Tenho pena!

Anónimo disse...

Infelizmente os "analistas políticos e económicos" da imprensa portuguesa alinham todos pelo "Pensamento Unico".Resta saber se o fazem conscientemente ou se a isso são obrigados.
Sabemos hoje que Portugal e a Europa atravessam uma grave recessão económica cujas consequências são imprevisiveis.Poderemos mesmo estar já numa recessão progressiva sem ponto de retorno se não forem alteradas as políticas.Estamos também a assistir a uma série de conflitos armados locais que poderão ser fruto das políticas ditadas pelas potencias dominantes.

Jose Lloyd disse...

Os actuais políticos Europeus são incapazes de alterar as políticas de austeridade que eventualmente conduz a um retorno às condições de desigualdade dos anos 20 e 30 , com o gradual recuo do Welfare State ou seja do estado social

Jose disse...

O desgraçado do Keynes era completamente ignorado quando era tempo de contenção e redução da dívida.
Agora que a expansão só pode ser suportada em dívida impossível de colocar, é chamado para justificar que outros nos devam subsidiar, o que garante uma geral concordância, excepção feita aos que teriam que 'pagar o pato'!

Manuel Dias disse...

...e o que está para vir com o atoleiro em que a Europa se está a meter na Ucrânia?

Anónimo disse...

O pato deve andar muito chamuscado, sobretudo para quem anda muito distraído com o breviário que defendia sobre as inevitabilidades únicas das troikas que nos têm governado e se têm governado.
Ou por outras palavras, ainda não foi esquecida a gangrena nacional ( e não só) dos comentadores amestrados dos quadrantes governamentais( e não só) que pregavam o evangelho neoliberal a cada esquina e faziam pagar o pato precisamente aos que viviam do produto do seu trabalho, aos reformados, aos jovens e velhos deste país.
O pato parece que ia por inteiro para os banqueiros e seus acólitos.
Keines ainda não pode servir de desculpa esfarrapada a alguns dos seus maiores detractores.

E como exemplo do verdadeiro "sentido de estado" e da altíssima capacidade dos "líderes europeus" de centro-"esquerda" e do seu enfeudamento cego e total aos ditâmes do neoliberalismo eis o baptismo privado de Hollande aos pobres - são os "sem dentes".

Tudo dito.

Desta gente não há nada a esperar, como afirma indirectamente J. Lloyd.

E o atoleiro para que estão a arrastar a europa como diz e bem Manuel Dias

De

Jose disse...

O atoleiro da Europa seria continuar a ignorar a Ucrânia e a Rússia mais o seu sistema de corrupção imperialista; se pudemos viver com uma Cortina de Ferro, desça-se uma cortina sobre a máfia de Leste e deixemo-los entregues ao seu destino de escravos, que de czares passaram a soviétcos e daí a putinescos.
E quanto mais depressa, melhor!

Anónimo disse...

Máfia?

Como a dos amigos banqueiros do jose que este tanto prezava e a cujos resultados estamos presos?

E o que são os amigos governamentais que se espraiam desde um relvas a um loureiro passando pelo oliveira e costa, e tutti quanti?
Já agora o que dizer de Barroso e daquele enorme disparate que o obrigou a vir tentar corrigir a mão quando mentiu e moscovo lhe puxou as orelhas mal limpas?

O desejo pelas novas cortinas de ferro é paradigmático das forças mais obscurantistas da nossa praça.
A desinformação é sistemática. Os media repetem ad nauseum aquilo que uma análise desapaixonada deita por terra.

Jose todavia engana-se com o auditório que não embarca propriamente nos obscuros discursos típicos da vilanização dos personagens tão típico das igrejas e das seitas.De bushes estamos todos já fartos.

Leia-se este trabalho de Vicenç Navarro no publico.es
http://blogs.publico.es/dominiopublico/10930/la-nueva-guerra-fria-que-puede-convertirse-en-caliente-entre-eeuu-y-la-ue-contra-rusia/

E veja-se como caem por terra de forma tão patética os slogans tristes e sedentos de cortinas tão característico de certas forças tristes.

Agora continuemos o que estávamos a fazer

De

Jose disse...

«vilanização dos personagens» é o pão-nosso-de-cada-dia da produção intelectual de DE inspirada no demais na 'RT-Rússia Today'!
Que o sistema putinesco é corripto e corruptor só não vê quem não lhe avalia o desgosto dasaída do seu camarada ucraniano.

Anónimo disse...

A expressão usada por jose sobre a "saída do seu camarada ucraniano" mostra na perfeição um modo de debater desonesto e sem fundamento.

Não há qualquer "meu camarada ucraniano". Os factos são simples por mais que jose tente mascará-los e limitá-los.O presidente legítimo, Viktor Ianukovich – aliás um aventureiro corrupto, tal como a ex. primeira ministro Timochenka, da ultradireita – foi deposto a 24 de Fevereiro. Há mais mas agora interessa apenas este registo.Para sermos francos, camarada de corrupção dum relvas (defendido pelo jose) ou dum salgado (pelo mesmo jose defendido).

Também de sublinhar algum desnorte de jose quando faz referência à RT. O texto apresentado é dum professor espanhol , tirado do público.es. Que outros qualifiquem tal processo.

A opinião do jose sobre a minha produção intelectual francamente é um assunto que não me interessa mesmo nada.

Interessa-me sim, mais do que a defesa de Putin,que também bebe nas mesmas águas do poder económico defendido pelo jose, embora para grande desconsolo deste não obedeça aos ditâmes dos EUA, ver para onde vai a Europa e o abismo para o qual esta está a ser empurrada.

E interessa-me denunciar este sistema corrupto e corruptor que mancha de forma indelével tudo o que o mesmo josé defendia e defende.

A fuga para a criação de cortinas de ferro é reveladora dos esforços deste para que a discussão fique aqui acantonada.

Infelizmente os seus desejos de ostracizarão daquilo que ele chama sintomaticamente de "escravos" já entra num outro capítulo mais negro da história da humanidade

De