sábado, 27 de setembro de 2014

Mudanças na política europeia?

Mario Draghi anunciou recentemente um novo corte nas taxas de juro e um programa de compra de activos à banca (a banca vende empréstimos ao BCE na esperança que tal injecção de liquidez permita a concessão de novos empréstimos à restante economia). Com uma economia europeia a entrar novamente em recessão e em deflação, o BCE faz simplesmente mais do mesmo. Enquanto se mantiverem as imposições do BCE no que toca às chamadas reformas estruturais (liberalização do mercado de trabalho e privatizações) e uma posição em relação à austeridade que, embora mais ambígua no que toca a países como a Alemanha, se mantém para os países do Sul, não se percebe como é que esta injecção de liquidez (1 bilião de euros?) irá ter qualquer efeito na economia real. Numa economia estagnada onde as oportunidades de investimento escasseiam, não há, pura e simplesmente, procura de crédito.

Pelo contrário, parece claro que esta política monetária "laxista" tem um único objectivo: subsidiar e preservar o sector financeiro, enquanto se processa uma profunda redistribuição regressiva de rendimento com as ditas "reformas estruturais". Não é coincidência que este novo financiamento bancário seja anunciado quando os empréstimos de longo-prazo concedidos há três anos estejam agora a vencer. Mais, também não será coincidência que o BCE promova o fim da austeridade na Alemanha no momento em que este país anuncia que não emitirá dívida no próximo ano. Estas obrigações são parte da coluna vertebral dos mercados financeiros. A sua escassez coloca-os sob pressão.

A política monetária expansionista pode ser muito eficaz em casos de crise aguda e repentina, mas no longo prazo só se consegue recuperar uma economia com política orçamental e industrial. Claro está, que estas tendem a fortalecer a posição do trabalho na economia. E esse não é claramente o objectivo. A norte nada de novo.

6 comentários:

Jose disse...

Podem explicar-me como pode fortalecer-se a posição do trabalho na Europa num mundo globalizado em que o capital se acumula em regiões que concorrem com mão-de-obra barata e sem direitos?
A falta de oportunidades de investimento resolve-se com o investimento público ou subsídios à economia de Estados afogados em dívida?

Jose disse...

'Tal dinheirinho, tal servicinho' é regra bem conhecida.
Junte-se-lhe concorrência concessionando o mesmo serviço a clínicas médicas, e preço baixa...

Anónimo disse...

Não.Não há qualquer mudança na política europeia:
"Subsidiar e preservar o sector financeiro., enquanto se processa uma profunda redistribuição regressiva de rendimento com as ditas "reformas estruturais""

Há quem pugne pelo estado mínimo, deixando os povos à voracidade dos abutres que entoam cânticos à globalização
Há quem utilize argumentos de mão-de-obra mais barata para justificar o embaratecer ainda mais a mão-de-obra

As soluções que alguém agora não consegue ver são revisitadas aqui neste mesmo blog de forma quase exaustiva. Uns apontam para um sentido, outros para outro ou outros.Mas sentidos únicos foi chão que já deu uvas, para infelicidade de uns tantos.

"Maurice Allais criticou as políticas de mercado livre da UE, o tratado de Maastricht, previu a bolha imobiliária, opôs-se ao consenso de Washington e a todas as teses do neoliberalismo e monetarismo. Para M. Allais, contrariando as políticas da UE, “o mercado livre só é benéfico em circunstâncias especiais e os seus efeitos só são favoráveis entre regiões com níveis de desenvolvimento comparáveis”. É uma evidência que mostra como na UE “o rei vai nu”. Foi, apesar do seu prestígio, silenciado. A então jovem “estrela” do PSF, Jacques Atalli, conselheiro especial de Mitterrand, depois de Sarkozy, e algo parecido com F. Hollande (!); ele próprio se tornou financeiro, considerou estas ideias “estúpidas” e que “todos os obstáculos ao mercado livre são um factor que leva à recessão”. Na realidade, com estes “inteligentes” a UE apenas conheceu recessão ou estagnação, desemprego e pobreza para níveis inqualificáveis.

Maurice Allais (1911-2011) foi um liberal que se opôs totalmente ao neoliberalismo, sendo por isso marginalizado. Notável académico, recebeu o prémio (dito) Nobel de economia em 1988. Porém, praticamente, a partir daquela data apenas periódicos progressistas como o L’ Humanité, publicaram seus textos. Allais opôs à especulação, à criação monetária pela banca, etc, no geral a todas as políticas económicas que hoje vigoram na UE. Sendo um defensor da comunidade europeia nunca admitiu a supressão sistemática das barreiras alfandegárias, atendendo aos desníveis económicos existentes. Nos seus estudos económicos fez entrar aspectos psicológicos, demonstrando a falsidade dos axiomas neoliberais. Uma das suas ideias interessantes foi a de opor-se ao “custo de oportunidade“, mostrando que não se pode falar (em termos macroeconómicos) no custo de um bem ou de um serviço, mas sim do custo de uma decisão. O que nos leva, obviamente à avaliação no cálculo económico dos custos e benefícios sociais das decisões políticas."
Vaz de Carvalho

Tirado daqui
http://resistir.info/v_carvalho/cresc_desenv_09fev14.html

De

Anónimo disse...

"A flexibilidade laboral é um argumento a que a social-democracia/socialismo reformista e o sindicalismo colaboracionista se agarram para justificar em nome do crescimento e do emprego a redução de direitos laborais e salários reais. A flexibilidade representa o trabalhador sem direitos, sem autonomia, sem garantias nem no emprego nem no desemprego. O objectivo da flexibilidade é baixar salários, mas baixos salários provocam a estagnação económica. A ausência de "crescimento e emprego" resulta, sim, da falta de investimento produtivo e de desenvolvimento económico e social, consequência de uma sociedade hipertrofiada pelo grande capital monopolista, pela usura e pela especulação".
Vaz de Carvalho
http://resistir.info/v_carvalho/cresc_desenv_09fev14.html

A cada dia que passa mais motivos para dizer não a este estado de coisas.

(fiquei intrigado com uma frase que nunca tinha escutado: "'Tal dinheirinho, tal servicinho' é regra bem conhecida."
Após uma breve investigação verifiquei que esta frase é (também?) utilizada no léxico dos bordéis, mundo do qual não conheço as regras.

Conheço sim agora estas:
Em Espanha o PIB cresceu 0,85% com a inclusão das actividades dos proxenetas, das prostitutas e dos narcotraficantes...

De

Jose disse...

Se no que se diz ser o comércio mais antigo no mundo se utiliza essa máxima, fico certo da sua universal aplicação!

Anónimo disse...

Expressão que não uso e que me repugna um pouco diga-se de passagem

Mas cada um tem o seu vocabulário próprio e as suas máximas utilitárias.

De