sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Camuflar o desemprego (II)


O Alexandre Abreu já o disse neste blogue: «Nos dias que correm, o mais mentiroso - e, por conseguinte, o mais nefasto - dos dados estatísticos relativos à realidade socio-económica portuguesa é com certeza a taxa de desemprego». E também já aqui demonstrámos, recentemente, que quaisquer tentativas dos últimos governos para disfarçar os verdadeiros números do desemprego, deitando mão a acções de formação e de ocupação de desempregados, foram simples brincadeiras de meninos do coro, quando comparadas com a camuflagem estatística do desemprego que, por essa via, o actual governo está a levar a cabo.

Pensemos pois para lá dos números oficiais, que sugerem uma redução do desemprego em 3,6 pontos percentuais entre o primeiro trimestre de 2013 e o segundo trimestre de 2014, resultante da descida da respectiva taxa dos 17,5 para 13,9%, neste período. Ou seja, juntemos à contabilização oficial do número de desempregados os «desempregados ocupados», que frequentam cursos de formação profissional e programas de emprego (modalidades que não se traduzem na integração directa no mercado de trabalho); os «inactivos desencorajados», que estando ou não disponíveis para trabalhar, se encontram desempregados (já não sendo, porém, contabilizados enquanto tal); e o número de «activos expatriados», que expressa a sangria migratória de população activa, acumulada ao longo dos últimos anos.

Se considerarmos todas estas situações (porque efectivamente o são) como reveladoras da verdadeira dimensão da exclusão de activos do mercado de trabalho, começamos a lidar com valores mais realistas da taxa de desemprego, que passa a fixar-se nos 26,9% (primeiro trimestre de 2013) e em 26,5% (segundo trimestre de 2014). Isto é, a suposta descida recente do desemprego - que segundo o governo constitui um sinal inequívoco da «retoma», do «crescimento» da economia e, consequentemente, do «sucesso» do «ajustamento» - passa a ser de apenas 0,4 pontos percentuais, em vez dos 3,6 pontos percentuais que os números oficiais sugerem.

Aliás, quando analisamos a evolução do peso relativo de cada uma das situações consideradas, percebemos ainda melhor como se constrói o embuste formal em torno da taxa de desemprego: em Junho de 2011, os «desempregados ocupados», os «inactivos desencorajados» e os «activos expatriados» representavam cerca de 26% do desemprego aqui estimado. Em Março de 2013, este conjunto de situações já assumia um peso relativo de 37% e, em Junho de 2014, atinge os 50%. Ou seja, metade dos desempregados (nos termos do seu apuramento efectuado) não são oficialmente contabilizados enquanto tal. Por isso, do que se pode falar é, quando muito, da tendência para a estabilização do desemprego a que chegou um país deliberadamente empobrecido, no quadro daquilo a que o Nuno Teles já aqui designou por «novo normal». E quanto aos 0,4 pontos percentuais de descida do desemprego, no último ano e meio, agradeça-se, fundamentalmente, aos chumbos do Tribunal Constitucional, que estancaram a vertigem austeritária, decretada pelo governo, pela troika e pelo «ir além da troika».

OBS: O conceito de «activos expatriados» expressa o saldo migratório cumulativo que resulta da estimativa de emigrantes em idade activa, feita a partir daqui e de dados do INE (e a cujos valores anuais se subtraem os imigrantes activos entrados no país, neste período). Os valores que traduzem o conceito de «desempregados desencorajados», são calculados através das séries estatísticas relativas à «população inativa à procura de emprego mas não disponível» e à «população inativa disponível mas que não procura emprego». O que não esgota, segundo informações do próprio INE, todas as situações de desemprego existentes, entre os inactivos.

13 comentários:

sergio disse...

Bom dia,

Para o desemprego real também pode contar o sub-emprego das pessoas condicionadas a part-time quando preferiam e necessitavam de emprego a tempo inteiro. Existem estatísticas para isto.

Jose disse...

0,4%?
Muito bom, para um país que parou de construir casas que não precisava e estradas que não frequentava e comerciava bens importados que não podia pagar!

Daniel Ferreira disse...

Desculpa lá, mas este gráfico é uma treta:

- "activos expatriados" são pessoas que emigraram, porque encontraram emprego lá fora, enfiar estes nas estatisticas de desemprego a nivel nacional é aldrabar a história. "Se considerarmos todas estas situações (porque efectivamente o são) como reveladoras da verdadeira dimensão da exclusão de activos do mercado de trabalho" - os "activos expatriados" NÃO ESTÃO EXCLUIDOS, foram incluidos noutro mercado de trabalho!

- nos "os «inactivos desencorajados», tipicamente, «população inativa disponível mas que não procura emprego» referem-se a pessoas que optaram por não ter um emprego, por motivos diversos como: continuação de estudos, cuidados familiares, opção por "emprego" não declarado, etc... Não vejo como se pode incluir estes

Nuno Serra disse...

Caro Daniel Ferreira,
A formulação correcta para a ideia de «activos expatriados» é na verdade «exclusão de activos do mercado de trabalho português». Penso que se deduz facilmente que a ideia é essa, mas não está de facto explícita no post.
Quanto aos «inactivos disponíveis que não procuram emprego», sublinho as especificações do próprio INE, que agrega neste conceito os inactivos «que pretendem trabalhar», que «estão disponíveis para trabalhar» e que «não fizeram diligências, nas últimas quatro semanas para encontrar trabalho». Aliás, de acordo com a informação prestada pelo próprio INE, há uma «área de interseção» entre estes inactivos e os anteriormente designados «inactivos desencorajados» (o que obriga a que os mesmos sejam considerados para efeito desse cálculo).
Sublinho ainda que seria estatisticamente legítimo apresentar valores do total de inactivos, com a exclusão dos «estudantes», «reformados» e «domésticos» (o que deria um universo ainda maior). Sucede porém que o INE não disponibiliza estes dados por grupo etário (o que extravasaria claramente o universo pretendido, dentro das possibilidades de recolha estatística que existem).

Daniel Ferreira disse...

Seja como for, independentemente do nº absoluto e real de sempregados, contando as várias categorias (com as quais não concordo inteiramente, mas enfim...), verifica-se, em todas no gráfi apresentado, uma descida! Podemos tirar daqui que, de facto, o desemprego está a baixar?!

Anónimo disse...

Costumo seguir este blogue há uns anos e estranhava que não houvesse comentários como aquele do Daniel Ferreira, tipos pagos pelo PSD para fazer propaganda e desinformar. Parece que ali para os lados de São Caetano à Lapa os "ladrões" começam a preocupar.

Daniel Ferreira disse...

"Daniel Ferreira, tipos pagos pelo PSD para fazer propaganda e desinforma" - gostava de ver como o Anónimo das 14:51 vai provar esta...

A sua resposta só demonstra a pequenez e mesquinhez mental de quem, quando colocado perante evidências ou ideias diversas da sua prisão de ventre cerebral, recusa discutir civilizadamente, e esconde-se atrás de um cobarde anonimato, lançando boatos e falsidades como forma de ... sinceramente, nem entendo porquê.

A minha forma de pensar é colocar dúvidas e levantar questões, às quais alguns bloguistas como o Nuno Silva, com o maior respeito fizeram questão de esclarecer (e ao qual agradeço), e se o Anonimo cobarde das 14.51 convive mal com isso, o melhor é regressar à gruta de onde saiu.

Se ainda tem dúvidas, não sou pago nem tenho qualquer filiação partidária, sou cidadão activo deste País. Ao contrário de alguns calhaus sem nome, que não sabem existir fora do seu regimento e qualquer esforço de demonstração de vida só mostra o
Neandertal que é.

Da última vez que vi a Constituição da Républica Portuguêsa, este País ainda permite a livre expressão de ideias, mas também protege-me da calúnia e difamação de cobardes m€rdosos como você.

Antonio Cristovao disse...

Aqui os meus vizinhos que trabalham à jorna sem descontarem para nada, onde entram neste grafico?
Já vi estimativas que me parecem mais realistas que entravam um factor arbitrario do trabalho paralelo.

Manuel Silva disse...

Caro Daniel Ferreira:
Você não precisa, mas tem a minha total solidariedade.
Eu, se fosse capaz, teria escrito um comentário igualzinho ao seu.
Há por aqui uns quantos comentadores a marcar o território ao serviço dos seus grupos (patrões) partidários predadores materiais do nosso país, por sinal comentadores que estão nas pontas do especto partidário.
E nem nos blogs nos querem deixar a liberdade de discutir ideias.
Coitados, não conseguem, de facto, enxergar para além da ponta dos curtíssimos narizes, tal a grossura dos óculos para suportarem as lentes de vidro coloridas com as cores das suas trupes partidárias arruaceiras mentais.
Triste sina a nossa, depois de 40 anos de aprendizagem e convívio democrático ainda temos disto.

Alexandre de Castro disse...

Se a taxa de desemprego tivesse tido a descida que as estatísticas oficiais indicam, isso teria reflexos. por via do aumento do consumo interno, num crescimento significativo do PIB, crescimento esse que não se verificou.

Anónimo disse...

Caro Alexandre de Castro:

Está coberto de razão

( por um acaso fui ter ao seu blog, que desconhecia, Alpendre da Lua, já infelizmente "encerrado"

Não resisto a transcrever uma belíssima frase de Eduardo Galeano ali exposta:
"A Utopia está no horizonte: Aproximo-me dela, mas ela afasta-se. Caminho dez passos e o horizonte afasta-se dez passos mais à frente. Por muito que caminhe, nunca o alcançarei. Então, para que serve a Utopia? Para isto: serve para caminhar.

Eduardo Galeano )

De

Alexandre de Castro disse...

Obrigado, caro leitor anónimo, pelas amáveis palavras que, neste espaço, me dirigiu, e que são sempre gratificantes.
Por razões pessoais e profissionais tive de tomar a difícil decisão de suspender a edição do blogue Alpendre da Lua, que foi o meu verdadeiro confidente, durante os últimos cinco anos.
Um abraço

Daniel Ferreira disse...

Ao contrario de Anónimos m€rdosos como o de 26 de Setembro de 2014 às 14:51, também tenho espirito de discussão factual, e como tal, acredito que haja manipulação de dados sobre o desemprego (aliás, sempre acreditei que haja, e não é um mal português, mas igual em todo o mundo). E antes que haja acusação de mudança de opinião, o que digo é que a manipulação não passa pelos valores apresentados.

E concluindo, acrescento mais um caso, igual em todo o país:

http://www.ionline.pt/artigos/dinheiro/vinhais-desempregados-obrigados-despesas-mesmo-sem-ter-subsidio

"Concelhia do PS rotula convocatórias obrigatórias como "armadilha" para anular inscrições e reduzir total de desempregados nas estatísticas"