sexta-feira, 4 de julho de 2014

Sinistra sinistra


A não ser que Renzi esteja preparado para colocar em cima da mesa a pertença ao euro – o que não estou a ver que aconteça – não consigo imaginar mudanças substanciais no sistema [europeu] de governação.
Wolfgang Munchau, Financial Times


Enquanto a velha ordem morre e a nova não nasce ainda surge uma grande variedade de sintomas mórbidos. 
Antonio Gramsci, Cadernos do Cárcere

Pedro Sousa Carvalho garante hoje no Público que Renzi “é a nova coqueluche da esquerda europeia”. Desgraçada esquerda essa que tiver tal figura como coqueluche. Pode até ganhar umas eleições, mas já perdeu tudo o que a justifica. Enfim, o moribundo europeísmo feliz que matou a social-democracia precisa de ilusões e agora é a presidência italiana ou a nomeação de Juncker, sim, o da austeridade e do refúgio fiscal. As próximas eleições alemãs são daqui a demasiado tempo...

Por coincidência, ontem li um artigo sobre as reformas laborais propostas por Renzi numa publicação social-democrata europeia de referência: trata-se de continuar a desgraçada redução dos direitos laborais, num contexto de cada vez maior precariedade e de uma performance económica cada vez mais medíocre, até por causa dessa neoliberalização. E depois há o detalhe do euro, claro: uma economia que foi, com a portuguesa, das mais prejudicadas, embora os italianos não tenham acumulado os mesmos desequilíbrios externos.

O plano de Renzi é garantir alguma flexiblização do colete-de-forças orçamental em troca do aprofundamento das tais reformas estruturais de matriz sempre neoliberal no euro. O colete-de-forças europeu serve precisamente para levar a “esquerda” que não desafia o euro a fazer esse tipo de barganhas, tornando sempre os direitos sociais e laborais na variável de ajustamento. As coisas são como são feitas. E isto na melhor das hipóteses. De resto, o europeísmo pleno tende a gerar este tipo de figuras: originário da democracia-cristã e tendo Blair como referência, tomou o poder num partido que é hoje de centro-centro-nada. A morbidez vaidosa, descrita com o realismo habitual pelo historiador Perry Anderson, é o que resta depois de todas as abdicações.

Olhando para o cemitério político italiano, onde a esquerda o melhor que consegue fazer é uma lista com o nome de Tsipras e com todos os equívocos do europeísmo que entrega de bandeja o eurocepticismo que é popular a outros, percebe-se bem o que temos de recusar aqui e agora: a armadilha europeia e as suas consequências políticas inevitáveis; a conformação de uma parte importante da esquerda com um horizonte de aspirações que se reduz a uma invenção da tradição política norte-americana da Guerra fria ou de antes e de depois: primárias, federalismo, Reserva Federal, Plano Marshall, tudo num quadro em que o comércio se quer livre e em que a alternativa é a autarcia e a guerra. É tudo mesmo uma questão de hegemonia e das suas crises, como diria Gramsci.

2 comentários:

Jose Fernandes disse...

Mais uma vez um artigo de sensatez e sobriedade notável.Parabéns.
Permitam-me evocar o príncipio de Chatelier,diz :
Se um sistema químico dinamico em equilibrio sofrer alterações ao nivel da concentração, temperatura, volume ou na pressão, então esse equilibrio sofre uma mudança para contrariar a alteração imposta e da-se um novo equilibrio.
Desculpem- me o exemplo do príncipio de Chatelier, mas parece-me bastante ilustrativo no contexto actual.
Moral da História.
A política é uma coisa muito linda, e os políticos são todos muito bem intencionados,mas a verdade é que as variáveis são muitas e o sistema é dínamico, ou seja já se percebeu há muito que caminhamos para uma nova ordem mundial, a pergunta é mesmo; aquando do requilibrio aonde é que vamos estar?

Aleixo disse...

A Esquerda, não pode pactuar com limitações de espécie alguma, na capacidade de decidir.
Blindar ou aceitar blindar,não é democrático, não pode ser de Esquerda!