quinta-feira, 17 de julho de 2014

Ricardo Paes Mamede sobre o BES



«Isto poderia ser uma matéria de interesse privado, que não nos diz muito respeito. Mas isto não é assim. Existem fortes indícios de que o Banco Espírito Santo, o Grupo Espírito Santo e a família Espírito Santo, foram acumulando ao longo dos últimos 25 anos (...), um poder na sociedade portuguesa que dá a entender que boa parte dos negócios da família estão associados a jogos de poder. Nós não nos podemos esquecer que desde o 25 de Abril houve 34 ministros e secretários de Estado que passaram pelo Grupo Espírito Santo. (...) E portanto o que nós sabemos é que há um grupo, que tem raízes familiares, que tem tido uma influência brutal na sociedade e na economia portuguesa; que teve muita influência, tanto quanto se sabe, em algumas decisões estratégicas que foram tomadas, não apenas sobre como utilizar dinheiros públicos, mas até como se faz em Portugal a regulação do sistema financeiro. E sabemos que esse grupo tem problemas muito sérios, que está a colocar todo o sistema financeiro e toda a economia portuguesa sob pressão.
(...) Eu concordo quando se sugere que parte disto tem que ver com a crise. Sim. Mas isto também serve para aprendermos que a crise não desapareceu. A crise está cá. E parte das dúvidas que se levantam, hoje, em relação a todo o sistema financeiro, tem a ver com o facto de nós termos uma economia que continua de rastos, que tem um nível de endividamento privado maior na União Europeia, com níveis de incumprimento bancário que são completamente transversais ao sistema financeiro - afectam o BES como afectam qualquer outro banco. E portanto isto serve essencialmente uma tendência enorme, agora que nos vamos aproximando das eleições legislativas, para se sugerir que não há crise. Mas há crise. A economia portuguesa está na crise em que estava. Os problemas fundamentais que trouxeram Portugal à crise continuam cá. E não vão desaparecer assim tão facilmente.
(...) Nós ouvimos durante semanas a fio o governador do Banco de Portugal dizer-nos que não havia qualquer espécie de contágio entre o grupo não financeiro e o banco, que eram duas realidades completamente distintas. E neste momento andamos todos a tentar perceber se a exposição do banco ao grupo é muito grande ou enorme... E portanto eu confesso que a minha confiança no regulador começa a ser abalada.
(...) Andamos há três anos a tentarem convencer-nos que o problema da crise em Portugal é o facto de nos termos portado mal, de termos vivido acima das nossas possibilidades. Aliás, o actual presidente do Conselho de Administração do BES é o grande campeão desta mensagem... Eu fico preocupado com o facto de neste momento o BES ter à frente uma pessoa, por muita consideração pessoal que me mereça, que não foi até hoje capaz de reconhecer que temos um problema fundamental, que foi, nos últimos quinze anos, uma regulação do sistema financeiro que permitiu que Portugal atingisse níveis de endividamento que não deviam acontecer em lado nenhum da Europa.»

Das intervenções de Ricardo Paes Mamede no programa Política Mesmo, ontem na TVI24 (onde também estiveram Manuel Caldeira Cabral e Pedro Braz Teixeira, num debate moderado por Paulo Magalhães). Não deixem de ver e ouvir, na íntegra.

16 comentários:

luís rodrigues coelho Coelho disse...

Cada dia entendo menos,mas uma coisa me martela os pensamentos.
Foram criando tachos e lugares para todos os políticos e as suas gerações - descendestes.
Se não no banco deram-lhe lugares noutras firmas por ele sustentadas.

«da-me dez que eu dou-te cinco»

Anónimo disse...

"temos um problema fundamental, que foi, nos últimos quinze anos, uma regulação do sistema financeiro que permitiu que Portugal atingisse níveis de endividamento que não deviam acontecer em lado nenhum da Europa."
Felizmente agora há um consenso generalizado para limitar novo endividamento, nomeadamente dificultando o acesso ao crédito. Até que enfim.

Anónimo disse...

"há um grupo, que tem raízes familiares, que tem tido uma influência brutal na sociedade e na economia portuguesa"
Factores que contribuíram para que este tipo de influência se mantivesse:
- a defesa dos "centros de decisão nacionais"
- o bloqueio a privatizações (não tivesse a PT sido privatizada e o empréstimo à RioForte passava incólume). A CGD foi, ainda muito recentemente, utilizada como agente financiador de negócios bizarros (Berardo, BCP, Cimpor, ...) mas nestes casos nada aconteceu;

Está na altura de os accionistas privados assumirem os riscos que correm e deixem de utilizar o Estado (CGD, ...) para os financiar e aparar as quedas. Cometeram erros, vão à falência e perdem o capital. Talvez assim Pickety deixe de ter razão.
O mais bizarro é que vão ser os sindicatos e sectores à esquerda, mais uma vez, a tentar bloquear os processos de liberalização da economia que tornariam essa perda do capital possível.

R.B. NorTør disse...

Caro Anónimo... Até que enfim que leu imagino, porque a mensagem não é nova, muito menos neste blog.

Jose disse...

Uma choradeira mediática sempre mobilizadora dos melhores espíritos quando se fala de 'sistema financeiro'.
~Mas o artº 35º do Código das Sociedades (que reflecte legislação euripeia) está aí SUSPENSO há quase 20 anos perante a indiferença dos alarmados de hoje!!!!

Anónimo disse...

e onde se encontra a lista dos tais ex-ministros e scretários de Estado?

João disse...

Houve para aí uns tipos que fizeram um Congresso em 1996, onde afirmaram o seguinte:

"O reforço do poder do grande capital sobre a economia portuguesa tem tido como principais instrumentos um poder político submetido aos seus interesses, o nefasto processo de privatizações, com o desmantelamento do sector público da economia e a entrega de sectores-chave ao grande capital (nacional e estrangeiro), a distribuição privilegiada dos fundos estruturais (comunitários e nacionais), uma política fiscal de benefício descarado das grandes empresas e das actividades financeiras e especulativas, a crescente desregulamentação da economia, o agravamento da exploração dos trabalhadores e a degradação dos seus direitos.
O primado da esfera financeira e a ausência de uma estratégia nacional de desenvolvimento tornaram-se um corolário lógico da completa submissão da política económica portuguesa ao objectivo da participação de Portugal na moeda única europeia em 1999."

Talvez valesse a pena comparar essa análise com outras. De então e de agora.

vernon disse...

Aos gordos da meia dúzia percentual não basta o saque dos bens públicos.
Depois disso ainda montam a tenda no arco da governação, e o saque continua, numa azáfama muito empreendedora.

Anónimo disse...

Perante a gravidade da situação, perante o enorme mau-cheiro que toda esta situação levanta, perante os actores envolvidos em todo este processo, que vão desde um grande grupo económico envolvido na mais despudorada promiscuidade com o poder político que nos tem governado ( 34 ministros e secretários de estado é obra...todos dos partidos que portas chama "do arco da governação"), até ao governador do banco de Portugal cúmplice e camuflador da podridão que grassava e grassa, perante tudo isto, dizia eu, que faz alguém?

Fala em "choradeira mediática" e atira as responsabilidades da situação para o artigo 35 º do código das sociedades.

Isto deve ser uma brincadeira com toda a certeza.Tanto mais que vem da mesma pessoa que acha que todo este processo não ocasiona mal ao mundo, que é apenas o mercado a funcionar, ( que diabo e o mercado funciona sem o artigozinho?) e que o ricardo salgado recebe as fortunas que recebe já que era "o retorno justo" ao seu capital investido. A banca era a inocente dama no meio dos pervertidos que andaram a viver à tripa forra

A defesa de ricardo salgado pelo mesmo personagem passou também por uma tão curiosa como reveladora frase e cito ipsis verbis: "Quem foi roubado aprende sempre alguma coisa…."
Ou seja, o coitado do salgado tem toda a desculpa do mundo...ele agiu assim por ter sido afinal roubado.

Ora aí está a questão que tenho como obscena ( não encontro de momento uma palavra mais adequada).Esta sensibilidade ternurenta ("piegas" diriam alguns) para com um dos banqueiros centrais de toda esta história, choca com as agressões e os ódios contra os que há muito vêm lutando contra o que ricardo salgado representa e é.E é um claro gesto de "apagar" e "esconder" tudo o que está por detrás desta tragédia, enquanto se lança água benta no funcionamento do sistema e no modus operandi dos verdadeiros "funcionários" deste mesmo sistema

E o patético apelo a um artigo 35º como forma de esconder a verdadeira forma de "funcionamento " da banca e dos banqueiros torna-se ainda mais patética quando se sabe que quem suspendeu a referida leinos idos anos de 1986 parece que foi o governo do actual presidente da república, um tal cavaco silva , alvo da devota admiração do sr jose.

Tá-se a ver não tá-se?

De

Anónimo disse...

Quanto ao "regulador":
" Quando Salgado se esqueceu de declarar no IRS pela terceira vez pequeninas somas que tinha no estrangeiro , o Governador chamou-o para opinião pública ver , mas continuou a considerá-lo idóneo para continuar como banqueiro…e quando foi descoberto o também pequenino prejuízo , a tal "enfermidade" do contabilista , como lhe chamou Salgado , o governador continuou a considerar este senhor como idóneo para ser banqueiro. Fantástico . Como prémio merece ir para o BCE tal como o Vítor Constâncio!"

Daqui;
http://foicebook.blogspot.pt/2014/07/nao-se-demite.html#links

De

Anónimo disse...

Ricardo Paes Mamede dixit:
"Nós ouvimos durante semanas a fio o governador do Banco de Portugal dizer-nos que não havia qualquer espécie de contágio entre o grupo não financeiro e o banco, que eram duas realidades completamente distintas. E neste momento andamos todos a tentar perceber se a exposição do banco ao grupo é muito grande ou enorme..."

Mas as coisas parecem ser um pouco (ainda) mais sombrias se for verdade o que se denuncia aqui:
"Governador fez acordo com Ricardo Salgado para saída do banco"

http://ocastendo.blogs.sapo.pt/sera-verdade-1762993#comentarios

O que se passa de facto por detrás de todas estas encenações de gente que tem tão pouco de séria como de impoluta?

De

Anónimo disse...

Ricardo Paes Mamede dixit:
"Andamos há três anos a tentarem convencer-nos que o problema da crise em Portugal é o facto de nos termos portado mal, de termos vivido acima das nossas possibilidades. Aliás, o actual presidente do Conselho de Administração do BES é o grande campeão desta mensagem..."

"No final de 2007 em plena crise do BCP, a CGD viu-se de uma acentada sem o Presidente do Conselho de Administração, Carlos Santos Ferreira e mais 2 Administradores, Armando Vara e Victor Fernandes, todos do Partido Socialista, que se mudaram de armas e bagagens da CGD para o BCP. O PS no Governo tomou conta do BCP.
No início deste verão em plena crise do BES , o presidente da SIBS Vitor Bento, o presidente do IGCP João Moreira Rato e Mota Pinto todos do PSD, mudam-se de armas e bagagens para o BES. O PSD no Governo tomou conta do BES.
A única diferença é que o PS estava antes no Governo e agora está o PSD."
José Alberto Lourenço

Dois fragmentos que valem mais do que os discursos políticos da Albuquerque

De

Anónimo disse...

e não há ninguém capaz de metger aqui o sítio onde se pode saber o nome dos tais 34 ex-ministros e secretários de Estado?

Não há uma porra dum livro ou de um artigo que alguém conheça?

Anónimo disse...

Gostava que os Ladrões de bicicleta comentassem esta notícia

http://www.dinheirovivo.pt/Economia/interior.aspx?content_id=4032407

que me parece abrir portas para um fartar vilanagem de proporções épicas.

Anónimo disse...

Parece que se continua sem saber onde encontrar uma lista ou uma refer~encia bibliográfica com os nomes dos 34 ex-ministros e secs. de Estado que integraram o BES.

Anónimo disse...

Na sexta-feira lá descobri quem era o pessoal que andou pelo BES, através de um gráfico do Louçã.

Parece-me um bocado impossível que ninguém neste blogue soubesse que os nomes constavam de um livro e de uma base de dados feita pelo ex-dirigente bloquista.

Obrigadinho, oh companheiros, pela interesse em responderem a uma questão que vos demorava dez segundos a dar.