sábado, 14 de junho de 2014

«É fundamental falar verdade aos portugueses»


«Cumprimos as obrigações que assumimos e evitámos a bancarrota. (...) Mostrámos ao Mundo que Portugal é um país credível, que os Portugueses são um povo que cumpre a palavra dada. (...) Não podemos desperdiçar o capital de credibilidade que conquistámos à custa de tantos sacrifícios.
(...) Os Portugueses desejam que o seu País nunca mais venha a encontrar-se numa situação semelhante àquela a que chegou em maio de 2011 (... ), quando fomos obrigados a recorrer ao auxílio externo. (...) É fundamental evitarmos os erros do passado. (...) Devemos, pois, permanecer atentos e vigilantes, designadamente em matéria de disciplina das contas públicas e de controlo do endividamento externo, para não cairmos de novo numa "situação explosiva".
(...) As incertezas que pairaram sobre a nossa economia estão agora mais atenuadas. (...) Conquistámos o direito de exigir que seja atribuída maior prioridade a uma agenda europeia orientada para o crescimento económico e para a criação de emprego. (...) Não podemos esquecer as regras de disciplina orçamental a que todos os Estados-membros da Zona Euro estão sujeitos.
(...) Importa igualmente lutar para que os valores da justiça social sejam concretizados através de uma distribuição mais equitativa dos rendimentos e de políticas públicas orientadas para o combate à pobreza e à exclusão e para a promoção da mobilidade social. (...) A escola e a excelência do ensino, aliadas à dignificação da atividade docente, constituem elementos fundamentais para a construção de um Portugal mais justo. (...) Os Portugueses revêem-se e têm apreço pelo seu Serviço Nacional de Saúde e desejam que este modelo seja preservado e melhorado.
(...) Adiar por mais tempo um entendimento partidário de médio prazo sobre uma trajetória de sustentabilidade da dívida pública e sobre as reformas indispensáveis ao reforço da competitividade da economia é um risco pelo qual os Portugueses poderão vir a pagar um preço muito elevado. O tempo de diálogo que se estende agora até à discussão do próximo Orçamento do Estado será o mais indicado para que as forças políticas caminhem no sentido da concretização do direito à esperança dos Portugueses, numa perspetiva temporal mais ampla, situada para além de vicissitudes partidárias ou de calendários eleitorais.»

Cavaco Silva (Guarda, 10 de Junho de 2014)

O discurso do Presidente da República na Sessão Solene das Comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, que vale a pena ler na íntegra, bem pode ficar para a História como um fiel retrato dos seus mandatos presidenciais, marcados pela dissimulação, pelo situacionismo cúmplice e subserviente e pela desinformação deliberada. Tudo em nome de uma memória futura que isente Cavaco Silva de quaisquer responsabilidades directas pelo que aconteceu ao país nos anos da crise e da troika e pelo que aconteça nos tempos vindouros, assim prossiga a via da austeridade e do empobrecimento, que o presidente sempre protegeu e acarinhou.

A intervenção no passado dia 10 de Junho, a que o Jorge Bateira já fez aqui referência, num post anterior, articula as ideias centrais que têm garantido a sobrevivência da narrativa fraudulenta, e ainda dominante, sobre a génese da crise e os efeitos da intervenção externa. Segundo Cavaco, tudo se explica pela «situação a que o país chegou em Maio de 2011», fruto do descontrole deliberado das «finanças públicas e do endividamento externo». Mas felizmente nessa altura, segundo o presidente, veio o «auxílio da troika», que permitiu recuperar a «credibilidade perdida e evitar a bancarrota», encontrando-se hoje mais «atenuadas as incertezas que então pairavam sobre a economia nacional». Todo um romance, onde não entra nem a crise financeira de 2008, iniciada com a falência da Lehman Brothers, nem o fracasso da gestão do euro e da resposta europeia à crise, nem o efeito decisivo e ilusório das declarações de Mario Draghi, em Julho de 2012, de «fazer tudo o que fosse preciso para salvar o euro», e que explicam a descida, desde então, das taxas de juro das dívidas soberanas dos países periféricos.

Para o futuro, Cavaco renova o estafado apelo ao consenso, para lá das «vicissitudes partidárias e dos calendários eleitorais», que permita prosseguir «as reformas indispensáveis ao reforço da competitividade» e a «sustentabilidade da dívida pública». Sem deixar de aludir, como convém a um dissimulado, à necessidade de implementar políticas de «combate à pobreza e à exclusão», de dignificação da escola e da educação, e de «preservação e melhoria» do Sistema Nacional de Saúde. Tudo muito simples, no romance ilusório, evasivo e suicida do presidente, que ignora de forma deliberada e irresponsável as verdadeiras questões de fundo e as escolhas decisivas que estão em jogo.

Longe vai o tempo, de facto, em que Cavaco considerava haver «limites para os sacrifícios que se podem exigir ao comum dos cidadãos» e ser «fundamental falar verdade aos portugueses», achando o presidente que, com «uma boa informação, cada um comporta-se e tem uma atitude coerente». Assim fosse, a começar pelo próprio.

7 comentários:

Jose disse...

Enquanto os políticos eleitos para governar ou intervir na governação se sentem autorizados a todas as dissimulações e perversões, reclamam de um presidente eleito para Não governar que faça o que eles não se presdipõem a fazer - falar como quem governa com verdade!
E ainda por cima cada partido exige-lhe que se reclame da 'verdade' que mais lhe convém!

bird disse...

O emplastro José, de serviço a quem nós sabemos, quer ficar em todas, espreitando por cima dos ombros. Num próximo dia da "raça" (Cavaco dixit) receberá uma comenda ...

Paulo Sousa disse...

Este José deve ser o pseudónimo do célebre Fado Alexandrino...concedamos um pouco mais civilizado

soudocontra disse...

Não sei se sabe, mas quase de certeza que o desprezível, ainda PR, está com alzheimer. Veja-se no site seguinte:
http://www.noticiasonline.eu/cavaco-silva-mito-realidade-ou-volta-da-censura/
Parece que até a censura salazarenta voltou, com estes facínoras a soldo do PR, a (des)governar!
MCTorres

meirelesportuense disse...

O Fado Alexandrino?...Onde anda ele?
Se calhar esqueceu-se de quem era!

Anónimo disse...

É mesmo, este Zeca Diabo das 18,45 mais dia menos dia vai receber uma comenda tantas e tantas são as suas idiotices.

Anónimo disse...

A forma como se tenta "inocentar" um presidente que jurou cumprir a constituição da República atrás da fórmula " um presidente eleito para não governar" é um pouco sórdida.
Porque escamoteia que não é isso que diz a CRP.Porque escamoteia a cumplicidade do presidente com quem governa.Porque escamoteia a verdadeira natureza do poder: um presidente, um governo, uma maioriaa...troikista, criminosa,sem escrúpulos.

E finalmente esconde a mediocridade, a cobardia e o fundamentalismo beato dum presidente que ficará para a História como um ser ...

De