domingo, 8 de junho de 2014

Crescimento, emprego... e já agora um unicórnio

No rescaldo das eleições europeias, os líderes europeus anunciaram uma aposta reforçada no crescimento e no emprego. Vão pô-la em prática através de reformas estruturais e do recurso à política monetária. Não vai resultar.

Assustados com os resultados das eleições europeias, os principais líderes europeus, incluindo Merkel, Hollande, Barroso e Draghi, anunciaram nas últimas semanas uma aposta reforçada no crescimento e no emprego. Têm em mente, como habitualmente, o recurso a dois tipos de instrumentos: as chamadas reformas estruturais e a política monetária. Sucede que as primeiras são contraproducentes e a segunda é ineficaz.

Estruturais e contraproducentes 


As "reformas estruturais" são um termo especialmente fluido que se destina a esconder mais do que revela e que parece algo de inquestionavelmente positivo... até que se torna visível o conteúdo programático concreto que efectivamente encerra. A esse nível, o que encontramos é invariavelmente um conjunto de medidas de liberalização e flexibilização do lado da oferta, com ênfase na flexibilização do mercado de trabalho. Acontece que, no contexto actual, a estagnação do investimento e do emprego, em Portugal como na Europa, não se deve a qualquer tipo de rigidez do lado da oferta. Isso é especialmente óbvio no caso do mercado de trabalho: na última década e meia, por exemplo, foram várias as reformas do código do trabalho levadas a cabo em Portugal, sempre no sentido da flexibilização... e o desemprego não só não diminuiu, como aumentou de 4% para mais de 15%.
Isso nada tem de surpreendente. É o que o problema não está do lado da oferta, mas do lado da procura. E por isso, na medida em que a maior parte do que está em causa quando se fala em "reformas estruturais" são medidas que tendem a pressionar os salários em baixa, estas medidas são na verdade contraproducentes do ponto de vista macroecónomico, pois os baixos salários e a desigualdade do rendimento são, a par do endividamento acumulado, os principais factores que constrangem actualmente a procura.

O expansionismo estéril do BCE


É verdade, porém, que a estratégia de combate à crise dos líderes europeus não assenta exclusivamente no lado da oferta, apostando também no incentivo à procura através do recurso à política monetária expansionista. A ideia, como vem nos manuais, é reduzir o preço do crédito de modo a estimular o investimento, o emprego e o crescimento económico, e isso é feito quer de modo convencional (redução das taxas de juro directoras, que estão já em 0,25%) quer de modo não-convencional (LTRO, OMT e outras formas de cedência de liquidez aos bancos).
O problema - e esse não vem na maior parte dos manuais - é que o mecanismo de transmissão da política monetária assenta na hipótese de uma relação estável entre a base monetária e a oferta de moeda... e essa relação supostamente estável simplesmente deixou de se verificar nos últimos anos, se é que alguma vez foi mais do que uma ilusão em termos do sentido da causalidade. Entre 2010 e 2012, por exemplo, o BCE quase duplicou a base monetária da zona Euro, mas nem por isso a oferta total de moeda (que na sua maioria é constituída por depósitos bancários, criados através dos empréstimos concedidos) sofreu alguma alteração significativa. Neste tipo de contexto, inundar o sistema bancário com liquidez adicional não se traduz em empréstimos à actividade produtiva porque, lá está, a procura encontra-se constrangida, pelo que as oportunidades de investimento lucrativas são escassas. A oferta de moeda não é verdadeiramente controlada pelas autoridades monetárias mas sim, em última instância, endogenamente constrangida pela procura. A liquidez adicional injectada no sistema bancário tende a permanecer inerte no próprio sistema, a ser eliminada (através da respectiva devolução ao BCE) ou, em alternativa, a alimentar a formação de bolhas especulativas como aquelas a que temos assistido em sucessivos mercados nos últimos anos: habitação, matérias-primas, derivados de produtos alimentares ou, a mais recente de todas, dívida soberana da zona Euro.

Realidade e fantasia


Para restaurar duradouramente o emprego e o crescimento na zona Euro, seria necessário algo muito diferente do que é permitido pelo actual contexto político-institucional: um nível de inflação que permitisse eliminar gradualmente o fardo do endividamento privado e público; uma política de rendimentos que restaurasse o dinamismo da procura por via do aumento sustentado dos salários reais; e uma verdadeira articulação entre as políticas orçamental e monetária. Como o que temos são "reformas estruturais" e uma política monetária condenada à impotência, bem podemos continuar a pedir crescimento, emprego... e já agora um unicórnio.

6 comentários:

Jose disse...

Haverá problemas que possam atribuir-se à Europa ou à zona euro, mas o qye tenho por seguro é que há problemas em Portugal que só a Portugal dizem respeito e que só podem ser resolvidos pelos indígenas.
E são tantos e tão graves e tão evidentes que invocar a Europa para os soluconar é tão só o meio de os ignorar.

Anónimo disse...

Por falar em unicórnios:
... nível de inflação que permitisse eliminar gradualmente o fardo do endividamento privado e público ... aumento sustentado dos salários reais ...
Tudo na mesma frase !!

Jose Fernandes disse...

Se recuarmos até ás mais antigas filosofias vemos que em comum têm uma mesma conclusão:
o nível de evolução de uma sociedade
mede-se pelo tamanho da classe média, quanto maior,maior a distribuição de poder.
Ou muito me engano na minha simples opinião ou estas políticas estão a ir precisamente na direcção contrária, mais irónico que isto só mesmo rever o filme METROPOLIS De Fritz Lang, que me 1927 fez um retrato fiel do que hoje é a Europa.
Também com isto não vamos entrar em esquizofrenias de "brothers and sisters" mas os países do topo percebam que só com uma Europa toda forte é que isto é um projecto viável.

Anónimo disse...

Problemas que Portugal tem e que lhe são peculiares:coelho,portas, cristas, cavaco, dias loureiro, os corrécios...
Mais uma caterva idêntica de catrogas, de mendes, de oliveiras e costa, de duartes lima, de jonets, de pires de lima...

De

José M. Sousa disse...

«um nível de inflação que permitisse eliminar gradualmente o fardo do endividamento privado e público; uma política de rendimentos que restaurasse o dinamismo da procura por via do aumento sustentado dos salários reais;» O Anónimo das 23.02 citou mal as duas frases, e não uma. É a política de rendimentos que tem que garantir os salários reais; não há nenhuma contradição com desejar um nível de inflação mais elevado....

Anónimo disse...

Ao contrário do que diz o Zéquinha das 22,49 do dia 8/6, os grandes problemas de Portugal( como bem diz o anónimo de 9/6/ 00:29) são os fulanos que ele indica e outros tantos semelhantes áqueles.