segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

O direito de decidir do seu próprio destino



Os federalistas que ainda estão à espera de uma mudança de rumo na política económica da UE, talvez com os olhos fixos nas eleições alemãs de Setembro e no impacto da recessão europeia, certamente desvalorizam as declarações dos mais altos responsáveis europeus: “A austeridade está a funcionar; a Europa precisa de manter o rumo” (comissário Olli Rhen); “A crise da zona euro, como já disse, ficou para trás […] O que temos a fazer já não é simplesmente sair da crise da zona euro, isto está feito” (presidente François Hollande). Mas, se lessem o programa eleitoral dos sociais-democratas alemães, ficariam a perceber quanto o ordoliberalismo está entranhado na cultura política da oposição a Angela Merkel. Aliás, o que é decisivo na avaliação do futuro do projecto europeu é o facto de a Alemanha não poder recuar nesta política. Ela é parte integrante da sua estratégia de germanização da UE, a economia política mais favorável à sua expansão na chamada economia global. Trata-se, portanto, de impor à UE: a) o modelo jurídico prussiano de Heinrich Triepel, um consórcio intergovernamental hegemonizado pela Alemanha, dando à França o tratamento que Bismark deu à Baviera (ver “Le Monde Diplomatique”, edição portuguesa, Dezembro, p. 18); b) a política de austeridade executada por Heinrich Brüning no início dos anos 30 do século passado, que gerou o desemprego de massas favorável ao nazismo.

Com a intervenção mais agressiva do BCE, o risco de uma corrida aos bancos que pudesse pôr em perigo a moeda única está, por agora, atenuado – mas não eliminado, porque a garantia europeia dos depósitos continua à espera de uma união bancária que só pode existir nos termos e no calendário que a Alemanha entender. Assim sendo, é minha convicção que a germanização da UE acabará por ser derrotada no campo da política. Serão os povos sujeitos à austeridade que, invocando “o direito de decidir do seu próprio destino”, acabarão por eleger governos de ruptura.

(Do meu artigo no jornal i)

3 comentários:

O faroleiro disse...

Caro Jorge

Tens razão sobre a germanização da Europa

Mas, se não se conseguir uma globalização mundialmente regulada, equitativa e solidária, a alternativa à germanização é a chinesisação.

posso não gostar dos teutões

mas entre um modelo democrático e respeitador dos direitos humanos e um modelo violador dos mais elementares direitos inerentes à dignidade humana prefiro estar deste lado da trincheira até uma globalizaçao dos direitos

a Alemanha quer de facto germanizar a Europa: porque é a única maneira de o modelo europeu sobreviver face ao capitalismo selvagem chinês

Anónimo disse...

A União Europeia , o Euro e os tratados Europeus estão feitos para favorecer o Eixo Paris -Berlim e os seus satélites que são O Benelux e a Áustria.

João Carlos Graça disse...

Caro Jorge
De acordo na generalidade.
Na medida em que a "esquerda europeia" insistir em vir com a conversa de que "esta Europa não é a que queríamos", mas ainda assim insistir em "mudá-la por dentro" (como faz por exemplo a Susan Watkins, aqui: http://newleftreview.org/II/75/susan-watkins-another-turn-of-the-screw , contrapondo à realidade factual "the genuine political union—a true democratic federation—that NLR and others have historically championed"), isso faz na prática da "Esquerda Europeia" mais um problema, ou parte dele, em vez de parte da solução.
A solução é sair da Eurolândia, ou passa por isso de forma completamente imprescindível.
Quem não compreendeu isso, não compreendeu nada de nada.
Mas olha que pelo meio ainda vai demorar muito a que o pessoal acorde para esse facto.
Entretanto, lá vai comendo mais algum "europeísmo" (de direita e de "esquerda"), mais uma quanto dose de sinofobia (sempre conveniente reactualizar de quando em quando...)
E nesta miséria vamos apodrecendo.
E morrendo aos poucos.
(Mas democraticamente, claro, claro; e com muito respeito pelos direitos humanos...)