Seguimos o que se passa no Egipto minuto a minuto, mas já agora......como é que ficou mesmo aquilo da Costa do Marfim?
...e aquilo das Honduras?
...e aquilo da Tailândia?
Seguimos o que se passa no Egipto minuto a minuto, mas já agora...
Ficámos hoje a saber, através do jornalista Carlos Cipriano, que os caminhos-de-ferro perderam 99 milhões de passageiros em duas décadas, uma redução de 43%; Portugal tem 20 metros de auto-estrada por Km2 (a média europeia é de 16 metros) enquanto que na rede ferroviária temos 31 metros por Km2 (a média europeia é de 47 metros). São os efeitos de uma política pública míope, mas coerente com o regime socioeconómico em que vivemos, que favoreceu excessivamente o automóvel em detrimento do que só pode ser transporte público. Para além de todos os custos sociais, opções destas não terão certamente ajudado nas nossas relações económicas com o exterior. De resto, e como sublinhou Tony Judt num ensaio sobre caminhos-de-ferro, tratou-se também aqui de desaprender “a partilhar o espaço público para beneficio comum”.

Nancy Birdsall, presidente do Center for Global Development, publicou aqui uma lista de dez medidas de custo zero que permitiriam fazer progressos significativos em matéria de desenvolvimento internacional em relativamente pouco tempo. Sendo o CGD um think tank progressista no contexto norte-americano mas certamente não radical, seria difícil esperar propostas especialmente avançadas. Ainda assim, a maior parte das ideias é sensata, exequível e merece ser publicitada. Birdsall refere principalmente medidas a adoptar pela administração norte-americana, mas, na maior parte dos casos, estas são directamente transponíveis para o contexto europeu. Aqui ficam algumas:Para ler e debater, discordando de algumas coisas e concordando com outras.
(O mapa em cima reflecte a distribuição mundial da riqueza em 2002 e foi retirado de http://www.worldmapper.org/)


Bom dia caríssimo professor.
Venho-lhe enviar as condições que me propuseram na entrevista de emprego em (X).
As funções que tinha que desempenhar consistiam em: procurar clientes, convence-los a aceitar propostas de seguros, de vendas de imóveis, de abrir contas bancárias obscuras, resumindo, seria convencer os clientes a assinar um conjunto de serviços financeiros que deixam muito a desejar.
As condições que ofereciam eram as seguintes: teria que me deslocar na minha própria viatura, encontrar os respectivos clientes, tratar dos documentos todos e todas as burocracias a que esses serviços financeiros obrigam, teria que ser eu o responsável caso essas contas bancárias misteriosas [contas de aplicações em produtos estruturados] e serviços não decorressem da melhor forma e, no final ficaria com 15% dos lucros, tendo ainda que repartir esse 15% com a equipa (vendedores) a que iria pertencer.
O entrevistador sugeriu-me que achava por bem contratar-me como licenciado e não futuramente como mestre, pois isso implicaria mais custos, custos esses que para ele seria algo supérfluo. Seguidamente, após o entrevistador ter tentado de todas as formas que eu assinasse de imediato o contrato, comunicou-me que o ordenado base seria de ZERO, pois eu poderia constituir o meu próprio ordenado, dado, que quantos mais produtos financeiros realizasse, melhor ordenado poderia obter. Confrontei-o de seguida, com a situação em que me encontrava, ou seja, uma vez que não conheço a cidade de (X), seria complicada a tarefa de nos primeiros tempos constituir uma carteira de clientes, respondendo-me ele de imediato que caso eu não encontrasse clientes, teria que suportar todas as despesas.
Aproveito também para lhe comunicar que foi esta a minha primeira entrevista de emprego como licenciado, onde o entrevistador me comunicou que estava já constituída uma equipa com outros quatro licenciados, o que me deixou estupefacto, dado que esses outros elementos aceitaram as condições em cima descritas.
Confesso que estou muitíssimo apreensivo e assustado com esta realidade terrível com que me deparei.

Conferência Portugal 2011. Vir o Fundo ou ir ao fundo?
Nuno Garoupa, destacado economista do direito e da direita intransigente, queixa-se do suposto oligopólio da lucidez sobre o erro deste euro atribuído a João Ferreira do Amaral por jornalistas pouco rigorosos. Como Garoupa tem o mau hábito de ser demasiado vago, preferindo quase sempre prescindir de nomes, suponho que está a referir-se à informada entrevista feita por Ana Sá Lopes e Nuno Aguiar. Os jornalistas introduzem bem a questão: “Foi das poucas pessoas fora da área do PCP que criticaram a adesão ao euro.” De facto, tirando mesmo Carlos Carvalhas ou Octávio Teixeira, por exemplo, lembro-me de Francisco Louçã e de poucos mais economistas. Os economistas académicos da direita com intervenção pública sobre esta matéria andavam com os da esquerda dita moderna a fazer estudos por encomenda sobre os amanhãs europeus que cantariam. Quem foram então os numerosos economistas portugueses de que fala Garoupa? Nomes e textos, por favor. Fora de Portugal, a coisa era diferente, claro. Em Portugal, o consenso era de tal ordem que Pedro Pita Barros, que tem obrigação de ser um bom conhecedor destes assuntos, atribui o monopólio a Ferreira do Amaral: “Do que me recordo apenas João Ferreira do Amaral era convictamente contra a entrada no euro.” Têm de falar na SEDES sobre isto.
Este gráfico de Eichengreen e O'Rourke, parte de uma análise em constante actualização, compara a evolução da produção industrial mundial nos meses que se seguiram à crise de 1929 e à de 2008. Parece que a Grande Depressão foi evitada. É o que diz Lains: défices públicos e dívida pública ajudaram. O monstro que nenhuma economia capitalista avançada dispensa, com as suas garras monetárias e orçamentais, evitou, até agora, que a história se repetisse. Como já várias vezes aqui se defendeu, a questão central de economia política não diz respeito ao peso do Estado, o seu aumento ao longo da história dos capitalismos é em si pouco informativo, mas sim às ideias e aos interesses que guiam as políticas públicas, entendidas como acção colectiva que necessariamente condiciona, restringe e liberta as diversas acções individuais, indicando a cada um os custos e os benefícios, em sentido amplo, que poderá ou terá de considerar ou de transferir para terceiros...
Imagem de gui castro felga. Publicado no arrastão.



Os dois relatórios do Research on Money and Finance sobre a crise europeia e os cenários para a sua resolução, de que o Nuno Teles é co-autor, acabam de ser editados em livro na Grécia. É preciso difundir as boas ideias na periferia...
Entrevista de José Reis ao Sol sobre a crise europeia e os meios para a superar e novo sítio do EuroMemo Group, rede de economistas europeus por uma política económica alternativa, onde já está o relatório de 2010/2011 subscrito por 400 economistas.


Ligações ao economista grego Yannis Varoufakis. Em primeiro lugar, informa-nos sobre a toxicidade das engenharias financeiras subjacentes ao fundo europeu, a tal “ajuda”, aspas, muitas aspas. Em segundo lugar, e mais importante, a sua “modesta proposta”, em co-autoria com Stuart Holland, economista britânico na Universidade de Coimbra, permitiria salvar o euro: alteração do papel do BCE, que deixaria de ser um comité executivo dos interesses colectivos do disfuncional sistema financeiro europeu, para passar a assegurar liquidez aos bancos em troca da aceitação por parte destes de títulos da dívida pública em condições mais favoráveis para os Estados, a chamada reestruturação da dívida; parte da dívida dos Estados, até aos famosos 60% de dívida no PIB, passaria a ser garantida pela emissão de euro-obrigações da responsabilidade do BCE, assegurando-se assim que os Estados pagariam taxas de juro mais baixas; reforço do papel do Banco Europeu de Investimento, um dos pilares da recuperação da economia europeia através da promoção do investimento. A questão é clara: se não caminharmos nesta direcção, o euro pode colapsar, vítima das suas neoliberais fundações, ou transformar-se num cemitério de economias. Estas ideias só podem avançar com pressão diplomática dos governos das periferias, em aliança com os que no centro já abriram a pestana, seja porque são federalistas, seja porque são pragmáticos. De que é que estão à espera?

