terça-feira, 12 de abril de 2022

Os gráficos das coisas


Paulo Coimbra é um dos que tem a mania de ilustrar empiricamente hipóteses de economia política para lá da sabedoria convencional: durante vários anos, com particular intensidade nos anos de chumbo de Passos-Troika, o peso dos rendimentos do trabalho no rendimento nacional decaiu, dada a discrepância entre a evolução dos salários reais e a produtividade. A partir de 2016, houve uma reversão ligeira deste padrão, acentuada no ano de 2020, dada a proteção social do emprego e dos rendimentos salariais, num ano de queda da produtividade, de crise brutal. 

Arrisco uma previsão: este ano, a diferença entre a linha vermelha e a linha azul do segundo gráfico vai acentuar-se brutalmente de novo, se depender de um governo apostado em assegurar uma evolução negativa dos salários reais (diferença entre o crescimento lento dos salários nominais e a taxa de inflação puxada pelo aumento de custos, onde avulta a energia), num contexto de recuperação da produtividade. Desde o euro que a tendência é clara, de resto. 

A maré alta da maioria absoluta e a maré baixa da esquerda e do movimento sindical dão maus resultados. Já sabemos quem ganhará esta luta de classes, uma vez mais, se depender do governo. O truque gasto do anúncio de medidinhas paliativas serve para tentar ofuscar todo um padrão de classe depois dos interregnos da solução governativa e sobretudo da pandemia: ideologia social-liberal, no fundo. 


1 comentário:

Guilherme Rodrigues disse...

https://twitter.com/zerohoursworker/status/1505306652253343751