quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

É a procura, estúpido!

Os economistas e os comentadores económicos que vêm defendendo a austeridade e a desvalorização interna como forma de sair da crise continuam a ignorar os avisos dos empresários. Não deixa de ser caricato que os maiores defensores da livre iniciativa e dos “empreendedores” não levem a sério estes apelos. Que achem que os trabalhadores e os desempregados tenham de aguentar as consequências da austeridade, à luz do que defendem, ainda se percebe.

No entanto, já é mais difícil entender que ignorem o que dizem os empresários. Em mais um inquérito semestral do INE a milhares de responsáveis empresariais ficámos a saber que, depois de uma quebra de 26,4% no investimento empresarial durante o ano de 2012, se perspectiva uma nova queda de 4,2%.

Quando é pedido às empresas que elenquem as principais razões da redução do seu investimento, 63% respondem com a deterioração das perspectivas de vendas, 12% com a incerteza sobre a rentabilidade dos investimentos e apenas 9% mencionam a dificuldade em obter crédito bancário. Assim, ao contrário do que apregoam o primeiro-ministro e todos os economistas e comentadores económicos ao serviço da estratégia da desgraça, a razão principal da queda do investimento privado é a redução da procura e não a dificuldade em obter financiamento bancário. Numa economia em que dois terços do que se produz é dirigido ao mercado interno, o dinamismo da procura interna é determinante para a viabilidade e a sobrevivência do nosso país.

O estrangulamento a que está a ser sujeita a nossa economia interna, através da austeridade e da desvalorização salarial, é estúpido e criminoso. Não é a destruição do mercado interno que vai aumentar as exportações portuguesas; apenas destrói empresas e emprego. E algumas dessas empresas, que ontem viviam do mercado interno, amanhã poderiam tornar-se exportadoras. Infelizmente, com esta estratégia, acabaram por morrer antes de poderem viver essa oportunidade.


(crónica publicada às quartas-feiras no jornal i)

7 comentários:

Henrique da Luz disse...


Boas, Exmos
Será o discurso ousadíssimo mas verosimil de
John Ralston Saul : "Não há razão para salvar os bancos"
economicamente (no sentido teorico/"cientifico") viável?
Esta é a questão que vos ponho.
Saiu na revista do El País no Domingo, entretanto tenho-a transcrita aqui: http://ssoltasdaluz.blogspot.pt/

obrigado.

defender o quê? disse...

Nunca,bolas a gente defende o pleno emprego para todos, um SNS à base de acumpunctura ou então reabrimos a urgeiriça para arranjar rádio.
Defendemos também que devem ser impressas 15 notas de 500 por cada português, preferiamos 85, mas aceitamos 20%.
Desvalorização imediata do euro em 30% para aumentar a competitividade e adicionalmente 10% de aumento da massa salarial para estimular o consumo.

Anónimo disse...

Se o que está a ser feito à nossa economia, ao nosso sustento é criminoso, terá que haver quem seja responsabilizado criminalmente pelos seus actos. Concorda?

Anónimo disse...

O que o PSD e o CDS, ajudados pelos seus capangas, internos e externos, estão a fazer ao país constitue não só crimes de lesa pátria( e só por isso deviam ser criminalmente responsabilizados.!), como constitue crimes contra a humanidade, consubstanciados, nomeadamente,nas multiplas medidas intencionalmente geradoras de desemprego, de abaixamento dos rendimentos de toda a gente e ainda nas medidas intencionalmente restritivas do acesso á saude.
Por isso, não tenho dúvidas que os autores destes actos politicos intencionalmente criminosos podem e devem ser penalmente perseguidos e punidos.
Uma coisa são actos politicos e outra são actos politicos intencionalmente criminosos e por isso geradores de responsabilidade crimninal.
E neste último caso este governo em particular, tem sido o pior governo deste país nos ultimos 40 anos.
Ficará sem dúvida na história como o governo que mais mal fez a este país.
Espero que o PSD e CDS sejam pura e simplesmente varridos do sistema politico, assim os portugueses não se esqueçam do mal que estes partidos, em tão pouco tempo de governo, lhes têm feito.
Não merecem outra coisa, senão desaparecerem e os seus dirigentes presos pelos crimes acima referidos.

joao disse...

O anónimo anterior continua a pensar em termos de futebol, convencido que o partido A ou B é melhor ou pior que o partido C ou D. Há um partido único, o Estado que em tudo se mete no intuito de satisfazer a entidade que o parasitou e o vai matar: a maçonaria. Uma pequena multidão de gulosos que tanto se ajudam como se comem uns aos outros como escroques sem moral que são. Patifes subservientes a piratas financeiros que desviam, pelo imposto, os recursos criados pelo trabalho honesto. Cesse o escândalo estupidamente ingénuo (o dos partidos de esquerda, supostamente bonzinhos - que hipócritas!) e organize-se o combate pela liberdade.

Anónimo disse...

"... ao contrário do que apregoam o primeiro-ministro e todos os economistas e comentadores económicos ao serviço da estratégia da desgraça, a razão principal da queda do investimento privado ...e não a dificuldade em obter financiamento bancário."

Estará o PS também ao serviço da estratégia da desgraça?
http://expresso.sapo.pt/seguro-quer-linha-de-credito-de-5-mil-milhoes-para-empresas=f676940

O problema está precisamente aqui: "economia em que dois terços do que se produz é dirigido ao mercado interno" e o ajustamento é inevitável.

Quanto ao facto de "algumas dessas empresas, que ontem viviam do mercado interno, amanhã poderiam tornar-se exportadoras" acabarem, o problema foi precisamente que nas últimas décadas a estratégia de aumento artificial de procura interna (induzida pelo Estado nas obras públicas, por exemplo) ter desincentivado a que a mudança se fizesse com tempo e com "menos dor". Chegados à situação actual, o tempo acabou e a oportunidade perdeu-se.

Anónimo disse...

É evidente que o problema está na procura. Mas a solução, ao contrário do que defende, não pode estar na manutenção artificial de procura interna através de investimento público. Tomando como exemplo o sector da construção civil, como esperaria gerar procura interna suficiente para acomodar, de forma sustentada, os 100 mil desempregados no sector?
No passado recente, a estratégia de curto prazo adoptada (renovação maciça do parque escolar, PPPs para construção de auto-estradas, início do TGV, ...) não só se revelou insustentável (basta ver o nível da dívida publica a que chegamos) como ainda teve o demérito de atrasar precisamente a orientação para a procura externa garantido artificialmente procura interna. Agora, passados os efeitos de curto-prazo, o problema voltou e a sua correcção vai revelar-se ainda mais dolorosa.