quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Não fomos a Grécia...

Paul Krugman apresenta um gráfico muito esclarecedor sobre a evolução percentual, em termos reais, da despesa pública, excluindo gastos com juros da dívida, em alguns países periféricos entre 2007 e 2014: a austeridade grega pelo lado mais recessivo, o da despesa que é procura certa, é muito mais intensa do que no resto da desgraçada periferia. Juntem a isto outra informação preciosa: segundo a OCDE, a Grécia foi o país mais reformador neste mesmo período, sendo que reformas significam neste contexto toda uma economia política da redistribuição de baixo para cima, da transferência de direitos para os patrões até à sempre venal expropriação de activos públicos. Nunca se esqueçam da história da “ajuda” à Grécia, aos quadradinhos e tudo, um marco na história da austeridade, na história de uma ideia tão perigosa como a moeda que lhe subjaz numa área cada vez mais desigual.

A crise socioeconómica passa por esta combinação tóxica, por muito que ordoliberais como Vital Moreira vos queiram convencer do contrário: a verdade é que a tépida recuperação económica do nosso país, assente na procura interna, deveu muito a uma travagem dos cortes da despesa, com aumentos dos impostos sempre menos recessivos, em larga medida obra de política económica do Tribunal Constitucional em 2013. Não há muito para saudar, claro: Portugal só de forma muito limitada é uma República soberana e, neste quadro cambial e comercial, a recuperação, mesmo que periclitante, ameaça o equilíbrio externo. De resto, ainda hoje, um socialista dos sem aspas, Pedro Nuno Santos, lembrava numa excelente intervenção na Assembleia da República que o investimento na economia portuguesa recuou, em percentagem do PIB, para valores de pelo menos 1960.

Ao contrário da Grécia, que teve um padrão mais volátil, com crescimento forte, entre 2000 e 2007, e depressão a seguir, graças à austeridade, Portugal oscilou entre estagnação e crise, com investimento quase sempre em queda. O próximo ano, devido às expectativas de venda medíocres, ou seja, à procura, é o que dizem os subversivos dos empresários ao INE, promete o mesmo desde o início do euro (e tenderá a ser assim até ao seu fim): um capitalismo sem acumulação de capital, um capitalismo cada vez mais medíocre para uma sociedade cada vez mais periférica.

8 comentários:

menvp disse...

Paul Krugman:
- mais um mestre anti-austeridade para a colecção!
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-> Foram mestres anti-austeridade [com o silêncio cúmplice de (muitos outros) mestres/elite-em-economia] que enfiaram ao contribuinte autoestradas 'olha lá vem um', estádios de futebol vazios, nacionalização do BPN, contabilidade fraudulenta (obs: relembrar a parceria governo grego Goldman Sach) etc, etc, etc...
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-> Por muitos mestres-em-economia que existam por aí... quem paga não deixar de ter uma palavra a dizer!!!
---> Leia-se, deve existir o Direito ao Veto de que paga: blog 'fim-da-cidadania-infantil'.

Anónimo disse...

uncker sobre a troika: "Pecámos contra a dignidade" de Portugal e Grécia
18 Fevereiro 2015, 20:02 por André Cabrita-Mendes | andremendes@negocios.pt

MÁRIO disse...

O líder da Comissão Europeia defende que a "troika é pouco democrática, falta-lhe legitimidade" e deve sofrer alterações. Agora, é preciso saber retirar "as lições da história e não repetir os mesmos erros". Também houve críticas à Comissão de Durão Barroso.

A troika cometeu erros durante a sua actuação nos resgates internacionais na Zona Euro. O "mea culpa" foi feito hoje pelo presidente da Comissão Europeia, que era o líder do Eurogrupo à altura dos pedidos de resgate, que admitiu que é preciso rever o actual modelo da troika.



"Pecámos contra a dignidade dos povos, especialmente na Grécia e em Portugal e muitas vezes na Irlanda", reconheceu Jean-Claude Juncker esta quarta-feira, 18 de Fevereiro.



"Eu era presidente do Eurogrupo, e pareço estúpido em dizer isto, mas há que retirar as lições da história e não repetir os mesmos erros", admitiu, em declarações citadas pela Europa Press.



Jean-Claude Juncker defendeu que, a seu tempo, é preciso rever o modelo da troika, que é composta pela Comissão Europeia, Banco Central Europeu (BCE) e Fundo Monetário Internacional (FMI).



"A troika é pouco democrática, falta-lhe legitimidade e devemos revê-la quando chegar o momento", declarou em Bruxelas no Comité Económico e Social Europeu. Apesar de pretender alterar este modelo, considera que o BCE e a Comissão Europeia devem manter-se na sua estrutura

MÁRIO disse...

FONTE http://www.jornaldenegocios.pt/economia/europa/uniao_europeia/zona_euro/detalhe/juncker_troika_e_pouco_democratica_e_devemos_reve_la.html

Antonio Cristovao disse...

Nem é preciso o apoio do P.K. basta ir ver o que dizia esse arauto da desgraça Medina Carreia que andava a predizer a banca rota desde 2009, com quase todos incluindo eu a chamar-lhe catastrofista.
Azar o nosso !

D., H disse...

Uma combinação catastrófica: quebra da despesa + tais reformas!

Por cá também acho que as decisões do TC tiveram impacto na recuperação, apesar da pressão que este governo ensaia, até hoje, tentando subverter as suas decisões…
ps: Não percebo a susceptibilidade de VM com o termo “socialistas de direita”, que por ser um contra-senso, tem que levar aspas; mas é facto que há gente de direita nas fileiras do PS. Deviam assumi-lo sem tabus, cada um faz as suas escolhas.

Acácio Pinheiro disse...

Meu Caro João Rodrigues

Vou seguindo os seus post com muito interesse embora nem sempre concordando.
A 'receita' que preconiza, uma combinação de medidas keynesianas e, mais recentemente, com uma opção soberanista, são uma boa ãncora para a sua demarche critica, mas pouco claras quanto ao seu real impacto ou adequação económica. Vejamos:
- A politica keynesiana só produz efeitos conjunturais e deve prioritariamente orientar-se para o Investimento. Mas supõe que o Estado tenha condições financeiras para isso. Sendo escassa a poupança interna e alto a esforço fiscal e ainda assim subsistindo defice orçamental, onde vai o Estado mobilizar o financiamento necessário?
- A opção soberanista, que tem a vantagem de nos possibilitar a autonomia cambial e monetária terá como consequência uma desvalorização da moeda nacional. Essa desvalorização vai tornar-nos mais pobres, em termos de poder de compra externo, e vai reflectir-se fundamentalmente sobre os trabalhadores e pensionistas. Poderá criar mais emprego, mas empobrece-nos. Realmente o que ganhamos com isso?

meirelesportuense disse...

Gostaria de vos colocar uma questão em termos académicos:
-Se a Grécia tem actualmente um superavit de 4,5% do PIB porque não utiliza esse diferencial positivo nas políticas que deseja levar a cabo e manda para as calendas -gregas ou não-, os pagamentos a efectuar à Troyka?
-Em paralelo deveria realizar cobranças coercivas aos ricaços Gregos, nem que para isso tivesse que Nacionalizar ainda que temporáriamente, a Banca e toda a Estrutura Financeira Grega!
Se isso fôr possível, o futuro deste Governo Grego estará garantido!
Se isso não é possível, digam-me, porquê?