sábado, 7 de fevereiro de 2015

História da Ajuda à Grécia (aos quadradinhos)

Na sequência dos resultados das últimas eleições gregas, têm-se construído grandes narrativas sobre a tragédia que tem fustigado aquele país. Depois de várias discussões sobre este assunto, resolvi coligir alguns dos dados mais importantes sobre os impactos do programa de ajustamento da troika naquele país. Poderá não ser tão colorido como histórias sobre cabeleireiras e paralíticos, mas espero que seja mais informativo.


Uma das afirmações mais repetidas acerca da Grécia é que os Gregos não cumpriram com o programa de austeridade, nomeadamente no que diz respeito aos cortes no Estado. Na realidade, os gregos cortaram muito mais do que estava previsto. O Memorando do primeiro programa de ajustamento previa 1.700 milhões de euros de redução da despesa pública nominal até 2014 mas, à medida que a austeridade se foi revelando ineficaz no ajustamento orçamental, várias vagas de medidas adicionais foram sendo introduzidas. No final, os gregos cortaram quase 20.000 milhões. Cerca de 12 vezes mais.

Esses cortes tiveram consequências desastrosas no sistema de educação e no sistema nacional de saúde, bem como noutros serviços públicos.

O único ano de alívio neste processo foi o ano de 2014 (antes destas eleições), em que o governo da direita grega parou a austeridade. Curiosamente, e como se verá à frente, essa suspensão da austeridade em 2014 produziu resultados positivos imediatos em todos os indicadores.




Esses cortes em salários e investimento público, associados à precarização do mercado de trabalho, que forçou à baixa dos salários, provocaram uma quebra sem precedentes da procura interna na Grécia. O Estado paga e investe menos e as pessoas consomem menos e, em consequência de tudo isso, o investimento privado também colapsou.


Entre os cortes no investimento público e a quebra do investimento privado, o investimento total desceu para metade do seu valor em 2009. Uma redução de 50% em 5 anos. De acordo, com os dados da AMECO (mais recentes), essa quebra ascende a 58% (43% no público, 65% no privado). As reformas estruturais que a Troika impôs para estimular o investimento privado falharam por completo.


O resultado destes desenvolvimentos foi uma recessão assustadora. O PIB real da Grécia caiu mais de 20% e só ensaiou uma ligeira recuperação em 2014, quando o governo de Samaras suspendeu a austeridade.


O desemprego na Grécia subiu para níveis nunca antes vistos, com o desemprego jovem a aproximar-se dos 60%. A previsão da Troika era muito mais optimista. Os peritos da troika asseguravam que as reformas no sentido da "flexibilização" do mercado de trabalho contribuiriam para a criação de emprego.


A quebra na actividade económica, rendimentos e consumo provocou uma redução a pique na receita pública, nomeadamente na receita fiscal, que comprometeu o esforço de ajustamento orçamental. Esta evolução ilustra bem porque é que uma recessão é sempre a pior forma de equilibrar as contas públicas.


A troika argumenta que, tendo falhado noutros indicadores, foi bem sucedida na "competitividade", prevendo que a balança comercial da Grécia se torne excedentária em 2014. Isso é verdade, mas convém perceber porquê.

A retoma do comércio internacional a seguir à crise financeira significou um aumento generalizado das exportações e das importações em toda a zona Euro. No entanto, na Grécia, as exportações estão a crescer bem abaixo do ritmo médio da Zona Euro. Ou seja, o argumento de que as reformas estruturais tornaram a Grécia mais "competitiva" é falso.


A verdadeira explicação para o equilíbrio da balança comercial da Grécia está neste gráfico. Enquanto em quase toda a Zona Euro, as importações crescem, acompanhando o crescimento das exportações, na Grécia aconteceu rigorosamente o contrário. As importações diminuíram 20%, ao mesmo tempo que, no resto da Zona Euro, aumentaram quase na mesma proporção.

Ou seja, o segredo do equilíbrio da balança comercial está no empobrecimento da população grega, no aumento do desemprego e consequente redução do poder de compra. Isso significa que nenhum problema estrutural foi resolvido. Se a economia retomar e o desemprego voltar a diminuir, o défice comercial voltará também.


O resultado da recessão provocada pelo memorando é que a dívida grega, apesar de várias vagas de austeridade, subiu a pique, muito acima das previsões da troika. Na realidade, a diferença em relação às previsões (cerca de 30 pontos percentuais), só não é muito maior porque, em 2012, a Troika empreendeu uma reestruturação da dívida.

Nessa reestruturação, porém, a troika impôs um corte da ordem dos 75% aos privados, mas não tocou nos seus próprios empréstimos, diminuindo o impacto da operação nas contas públicas da Grécia. Além disso, a (pouca) folga orçamental obtida não foi utilizada para estimular a economia. Pelo contrário, a austeridade continuou e reforçou-se.

No entanto, esta reestruturação serve para provar que as instituições europeias não têm nenhum problema com reestruturações da dívida (nem mesmo com perdões parciais) desde que não sejam afectadas nos seus próprios empréstimos e desde que a política de austeridade não seja beliscada. Mostra também que sem mudança de política económica, uma reestruturação é inútil ou contra-producente.


O fracasso do programa de "ajustamento" da troika é de tal ordem que os anos da austeridade (2010, 2011 e 2013) são precisamente os anos em que a dívida pública mais aumentou na história recente da Grécia. Foram anos piores até do que os que se seguiram à crise financeira de 2007/2008. A redução de 2012, claramente insuficiente, deve-se à reestruturação parcial promovida pela troika sobre os credores privados.


Este é um pequeno retrato do que foi a "ajuda" à Grécia.

E para quem possa estar a pensar que tudo isto acontece porque os gregos são uns grandessíssimos preguiçosos, leia este post do Nuno Teles
Esta apresentação foi inteiramente elaborada com base em números do FMI e da Comissão Europeia, nomeadamente dos relatórios sobre os programas de ajustamento da Grécia, sob supervisão da Troika. Fontes aqui, aqui, aqui e aqui.

16 comentários:

Joaquim Tavares de Moura disse...

Estou genericamente de acordo com a opinião expressa.
Devo contudo alertar que o primeiro gráfico está errado.
O montante de redução da despesa previsto no memorando era de 7% do PIB em 4 anos. Isso dá qualquer coisa como 16 mil milhões de Euros e não 1,7 mil milhões como é referido.

Marco Capitão Ferreira disse...

E agora queria isto para Portugal. Porque isto pedir não custa ;-)

André disse...

Excelente. Falta o mesmo exercício aplicado a Portugal.

Antonio Cristovao disse...

O que destaco no caso grego -que deverá mostrar algumas consequencias das medidas tomadas pelas novas autoridades até fins de fevereiro- é se foram positivas para o povo.
Não custa desejarmos, o que interessa é fazer, com mais ou diferente narrativa.
E se bem desejo que todas as retoricas sirvam para os eleitores portugueses votarem melhor na escolha do proximo governo de Portugal (a Merkl só governa a Alemanha)

Jose disse...

Fiquei a saber que foi o governo grego e não a troika quem exagerou na austeridade.
Tanbém me impressionou o facto de não ter sido evitado - sem haver necessidade de com isso desacreditar a análise - o chavão entre todos estimado: «o argumento de que as reformas estruturais tornaram a Grécia mais "competitiva" é falso».
Seguramente o aumento do salário mínimo vai resolver a questão!

Alice disse...

A escravatura é que é altamente "competitiva"...
*nojo*

Anónimo disse...

Segundo o Pordata, em 2013 a Grécia tinha um PIB per capita aproximado ao português e ao eslovaco e superior ao de outros 8 países da UE. Há alguma razão particular para que seja a Grécia o alvo de toda a atenção e ajuda? E se a estrutura produtiva da Grécia, mesmo depois de décadas a receber fundos estruturais para melhorar essa estrutura, não permitir aos gregos ter uma melhor qualidade de vida do que, por exemplo, os polacos que têm um PIB per capita inferior e parecem não viver uma situação de "catástrofe"?

pvnam disse...

Contrariando a 'germanização'... uma das primeiras medidas do novo governo grego foi a (re) contratação das 595 (!?!?!?!?!?!!!) empregadas de limpeza do ministério das finanças.
{http://31daarmada.blogs.sapo.pt/}
.
Agradecia que alguém explicasse como é que uma 'chuva' de empregadas de limpeza contribui para o aumento da produtividade... para uma economia mais sustentável...

D., H disse...

Parece-me que o A. Cristóvão ainda não percebeu que o povo grego não está nada satisfeito com a vida que lhe tinha sido destinada, pelos colaboracionistas.
Com mais ou menos gráficos, não adianta…

As políticas de austeridade foram um autêntico fracasso, como bem sinaliza o postal!O povo votou Syriza por alguma razão, o resto é conversa.

José Gusmão disse...

Caro Joaquim Tavares de Moura,

Estou longe de ser infalível, mas confirmei os dados do primeiro memorando e não é isso que lá está. O que poderá ter acontecido (e com isso respondo também ao José) é que as sucessivas revisões do memorando foram incluindo medidas adicionais à medida que as anteriores se foram revelando ineficazes. Pode confirmar no memorando original, no quadro 2 da página 27

José Gusmão disse...

Caro José,

Sobre a competitividade, chamo a atenção para vários factos:
1. O salário mínimo não é um factor de competitividade, é uma questão de direitos sociais. De qualquer forma, tenha em atenção que:
2. O salário mínimo é uma pequena parte da estrutura de custos das empresas. Há outros factores que influenciam a competitividade das empresas sem, já agora, contribuir deprimir a procura agregada.
3. Por essas e por outras é que o Governo travou a privatização da empresa pública de energia, bem mais importante do ponto de vista de uma política industrial activa.
4. O novo governo grego vai aumentar o salário mínimo faseadamente, precisamente para permitir às empresas readaptarem-se.

Joaquim Tavares de Moura disse...

Caro José Gusmão,

Acabo de consultar o memorando incial aqui: http://ec.europa.eu/economy_finance/publications/occasional_paper/2010/pdf/ocp61_en.pd

Na página 14 pode-se ler: "The planned adjustment relies primarily on expenditure cuts (Table 5). Expenditure cuts equivalent to 7 percent of GDP will be implemented."

Consultando o quadro 5 da página 17, onde estão detalhados as medidas e os objectivos dos cortes de 2010 a 2013, verifica-se que os cortes previstos são de 1,9% em 2010, 1,2% em 2011, 1,7% em 2012 e 2,3% em 2013. Tudo somado dá 7% do PIB que era de cerca de 230 mil milhões em 2010. Isso dá os 16 mil milhões que mencionei e não os 1,7 milhões que refere.
O quadro da página 27 (Table 7), a que faz referência não tem que ver com cortes na despesa mas sim ao "financial gap" que corresponde às necessidades de financiamento previstas.

Jose disse...

Caro José Gusmão
Sobre salários e o seu relevo para a competitividade as condicionantes são tantas que o que é indiferente para alguns sectores é crítico para outros.
Daí que o modo de adaptação das empresas é não raro despedir ou até despedirem-se.
A questão do salário mínimo é tanto mais relevante quando mais irrelevante é o papel dos sindicatos e é o modo preferido para quem quer ganhar na 'secretaria' sem cuidar do que se passa no terreno de 'jogo'.
O salário é um direito económico e como tal sujeito a uma condição de viabilidade; tanto não é um direito social que o Estado, nunca o garante e logo o rebatiza, diminui, e lhe define um prazo.

Anónimo disse...

Mas este jose que agora faz o papel de empresario na defesa da sua coutada é que andou por aí a queixar-se que lhe estavam a estragar os l"ucros" a que ele chama de "retorno justo"?À mistura com um ódio primário e desconexo a tudo o que lhe cheire de sindicato?

E que esbracejaca pelo justo direito à concentração do capital e ao aumento das desigualdades? Duma forma assaz inquietante e assaz trauliteira?

Consubstanciada na ameaça a todos os que não seguissem as autoridades troikistas deste jeito próprio de um ...
e vou citar ipsis verbis estando escrtio textu
"Às bestas serve-se a força bruta se forem insensíveis a outros meios"

Patrão, parasita e com saudades do repelente e bácoro Botas?

De

José Gusmão disse...

Caro Joaquim Tavares de Moura,

Os números que citei são as previsões do FMI para a despesa primária, não é gap nenhum.

A quantificação das medidas da troika não é uma previsão da evolução da despesa primária. Na realidade de uma economia, cortes na despesa aqui podem gerar despesa ali, como o FMI bem sabe.

Ricardo S. Coelho disse...

Dados muito úteis. Uma sugestão (ou preciosismo): não deveria o gráfico do crescimento ter as mesmas cores que os outros? De repente o vermelho deixa de ser o previsto para ser o real, torna-se algo confuso.