segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

A incómoda vitória do Syriza

Os comentadores passam do espanto à normalidade. Da Coligação da Esquerda Radical - com muitos sublinhados no Radical - já se fala da "esperada" e "normal" vitória do Syriza na Grécia. Agora, a nova linha de raciocínio é saber como é que o Syriza vai ceder à UE e, para isso, calhou mesmo bem o Syriza não ter maioria absoluta no Parlamento, para poder "vender" ao eleitorado que a culpa da cedência não foi sua.

Mas já se explica a vitória "esperada" e "normal" porque a Grécia sofreu uma contracção do PIB de 25% em quatro anos, com um desemprego a trepar para os 25% da população activa, em que o desemprego jovem se situa em 60%. Tudo como se se pretendesse dizer que a esquerda se alimenta da desilusão e da desgraça, mas sem que se retire a conclusão de que foi todo um programa radical de austeridade que levou a essa situação sem solução à vista.

Pelo contrário. Manfred Weber, líder do grupo PPE no Parlamento Europeu a que pertence o PSD e o CDS, já veio entristar-se pelas opções do povo grego que não reconheceu o caminho traçado pelo Governo de Samaras. "É decepcionante ver que o caminho correto e honesto escolhido por Antonis Samaras para a Grécia não foi reconhecido. O caminho de reforma está a dar frutos e precisa ser continuado. Em breve tornar-se-á claro que as promessas feitas pelo Syriza ao povo grego não são nada além de mentiras eleitorais", disse. Declarações incomodadas que não se distanciam do que tem vindo a ser afirmado em Portugal.

Passos Coelho, hoje de manhã, quando confrontado se a vitória do Syriza não punha em causa as políticas de austeridade da Europa, respondeu: "A Europa não tem seguido políticas de austeridade ou deixa de seguir. Países dentro da Europa com desequilíbrios orçamentais muito graves - a Grécia foi o primeiro - precisam de corrigir essas situações". A Grécia - "como caso único - tem tido mais dificuldades em ultrapassar as suas circunstâncias". E sobre o "novo capítulo de políticas europeias", Passos disse que o debate "é um bocadinho desfocado: Foi o Governo português que chamou a troika". Portugueses deverão entender que "a fase em que a Grécia está, nós felizmente vencemos. Nem Portugal nem a Irlanda têm esses problemas. Nós conseguimos trazer os nossos défices para limites aceitáveis (...), temos as nossas contas externas equilibradas, temos acesso a financiamento em mercado que é decisivo". Mas que espera que a Grécia "consiga conciliar a necessidade de crescimento com o cumprimento das regras". E essa "correcção" com "o apoio da UE" trará o crescimento novamente.

Sente-se o incómodo, o nervosismo. A ponto de repetir as velhas ideias ouvidas desde 2010 que não evitaram o que aconteceu em Portugal: Portugal não é a Grécia, o problema está no Estado. Para eles, o que se passa hoje é o que se vê no gráfico em cima (com base nos valores divulgados pelo Eurostat).

Mas a realidade é bem mais triste. E até um indicador tão genérico como o valor do PIB dá a imagem da desgraça, da situação de caos social em que a Grécia caiu e que não é uma variação das taxas homólogas que ilustra o que se passa no terreno.

Olha-se para o caso português e a direita respira de alívio porque estamos longe de uma desaparição do eleitorado do PS que venha encher os caminhos da uma esquerda "Radical". Mas a nossa estagnação - porque é disse que se passa em Portugal, uma estagnação prolongada - é bem mais forte, quando se observa a evolução do PIB em volume, divulgado pelo INE.

O valor do PIB em volume está ao nível do PIB no ano da criação da moeda única, em 2000. Desde o valor mais alto em 2008, o PIB não deixou de cair e agora está tão levemente a despontar que enche de alegria o Governo e o Conselho de Finanças Públicas que antevê que as previsões oficiais se irão cumprir. Mas que situação é esta em que vivemos há década e meia?

O investimento privado está abaixo do valor de 1995! O Consumo privado está ao nível do ano de criação da moeda única, tal como o Consumo público.

E tal como se antevê pelo Tratado Orçamental, nada disto ficará por aqui e ter-se-á de fazer cortes bem mais pronunciados para permitir défices mais reduzidos e uma redução da dívida pública.



E se houve equilíbrio nas contas externas, como se vê no gráfico ao lado (em que as importações caíram), isso deveu-se sim à forte contracção de actividade. Quando se começar a consumir mais e a investir, lá voltará o défice externo comercial.
Consegue-se perceber onde vamos parar, dado que, salvaguardadas as diferenças de situação, a Grécia tem um ano de avanço em relação a Portugal...


Mas, enfim, cumprimos as metas, como diz o Governo.

7 comentários:

Anónimo disse...

Uma coisa é certa.

O que acontecer na Grécia vai afectar Portugal.

O governo tem de cair na real.

R.B. NorTør disse...

Apenas um aparte: que ferramenta usam para elaborar os gráficos?

Quanto aos comentários, o factor medo de quem comenta, e os dois exemplos são talvez os que mais nervoso têm mostrado, são do que mais reconforta quando pensamos no amanhã. Ainda é cedo, acho, para dizer que pior não fica, mas o facto de haver um governo que aparenta querer fazer oposição responsável já aquece a alma.

Antonio Cristovao disse...

Ainda bem que vai haver mais dinheiro para investir; por outro assusta porque foi o PIB mais elevado que nos levou a não haver dinheiro para as despesas correntes e a pedir emprestimo usurário que fizemos.Será que quando o Costa ganhar vamos ter um PIB maior como o do Socrates?

Jose disse...

No quadro «PIB em valor» pode observar-se a enormidade da mama grega em comparação com a portuguesa que não é pequena!

Anónimo disse...

Porque é que se fala em situação de emergência humanitária na Grécia quando há, na UE, 8 outros países com PIB/per capita inferior ao Grego (http://www.pordata.pt/Europa/PIB+per+capita+%28PPS%29+%28R%29-1778)?
Os cidadãos desses países também vivem em situação de emergência humanitária? Ou merecem menos simpatia dos seus congéneres europeus?

Anónimo disse...

"mama" é um termo usado muitas vezes pelo bas fond neoliberal para o assalto ao poder.

À custa das invectivas sobre as mamas( que palavreado deprimente e rasca) tentam que nos esqueçamos das verdadeiras tetas que o grande poder económico sorve e acumula.

Aqui há dias um texto denunciava o aumento das desigualdades e a concentraçao da riqueza.Jose avançou para a defesa de ambas,"esquecendo-se" das "mamas" que agora cita.

Mas jose na sua ânsia de defesa dos corruptores vai mais longe:
"É estúpido ignorar que se há corruptores é porque há corruptos, e pelo que sei são os corruptos que promovem a corrupção e não o contrário".

A defesa do crime e dos criminosos.Com ou sem mamas?

Há que investigar estas mamas de quem acumula o capital desta forma tão esquecida pelo jose.

Mas não deixa de ser comovente agora sentir as mágoas do jose pela situação dos portugueses.Logo ele que passou anos a repetir a lingugem da governança e a mostrar a sua crispaçao face aos trabalhadores, empregados, desempregados, sindicalistas, funcionários públicos e todos os que no geral dissessem não à política austeritária.
De tal forma que num dia em que provavelmente adivinhando que a governança poderia ser mesmo posta em causa não se conteve e de jacto:
""Às bestas serve-se a força bruta se forem insensíveis a outros meios"

Esta é a "mama" pela qual jose quotidianamente labuta ?

De

Anónimo disse...

De facto os resultados eleitorais na Grécia trouxeram para a ribalta toda a velha e ferrugenta propaganda néscia, acintosa, xenófoba e falsa sobre este país
Um exemplo paradigmático é a reportagem do jose dos santos na RTP
Mal se vedam.O ódio envenena-lhes o juízo crítico

Numa abordagem mais "soft" há alguém que recorrendo ao pordata ensaie tentativas de comparação do PIB

Isto é cegueira ou é poeira para os olhos?

De