sábado, 3 de maio de 2014

E se criássemos um imposto sobre a mentira?

O Documento de Estratégia Orçamental 2014-2018 e a forma com foi apresentado pelo governo são o que parecem: um acto de propaganda descarada, no qual quase nada bate certo, mas tudo é apresentado como se fizesse sentido.

Apesar de transformar em definitiva uma parte dos cortes nas pensões que deveriam ser provisórios, o governo quer convencer-nos que estamos perante um acto de solidariedade intergeracional.

Depois de um enorme ‘aumento de impostos’ em 2013 e da promessa de que a carga fiscal não seria aumentada, o governo tem o descaramento de afirmar que a manutenção do agravamento fiscal dos anos anteriores, acrescentada de um aumento da taxa normal do IVA, não é nada de mais.

Embora o IVA seja o mais injusto de todos os impostos e o governo exigir um esforço ainda maior a todos os trabalhadores com o aumento da TSU, a ministra das finanças jura que estamos perante um acto justiça social.

Apesar de se prever um aumento das receitas fiscais de 25% do PIB em 2014 para 25,5% em 2018 – isto num período em que se prevê um crescimento permanente do PIB –, o Ministro Pires de Lima sugere que o governo pretende vir a baixar os impostos em breve.

Depois do aumento do horário do trabalho, do congelamento das carreiras, da redução de trabalhadores (o que aumenta o trabalho de quem fica), do aumento dos descontos para a ADSE e sistemas similares, de vários anos de cortes salariais, da alteração da tabela remuneratória e da redução dos suplementos, o governo consegue apresentar a reposição de 20% dos cortes salariais na função pública como se fosse algo mais do que um acto de propaganda eleitoral.

Pior: o governo passa aos jornalistas a ideia de que o ritmo de reposição dos cortes salariais é para manter nos próximos anos – apesar de prever que a massa salarial da função pública em percentagem do PIB, actualmente em 10,7% (perto da média da UE), atinja em 2018 os 8,2% - um valor que, na Europa, só é hoje comparável ao da Roménia e que seria impossível atingir sem a continuação do congelamento dos salários, acompanhada da destruição de uma parte significativa dos serviços públicos de saúde e educação.

Exijamos um imposto sobre a mentira. Seria meio caminho andado para a consolidação orçamental.

11 comentários:

D., H disse...

Bem escalpelizado este acto de propaganda do governo, nas várias vertentes.

Depois dos anos da propagandeada “virtude da meritocracia”, apresentados como o XPTO para a administração pública, mas que afinal foi para o caixote do lixo (onde isso já vai…), vem agora este governo acenar com mais uma cenoura: a “reposição” de 20% ao ano! A extorsão continua, essa é a única certeza. Aguardemos…

Anónimo disse...

Um excelente e muito claro post.

A ideia do imposto sobre a mentira é genial. A pagar pelos seus autores mas também pelos replicadores da mesma. E igualmente para os que tentam mascarar a realidade mediante os mais disparatados e falsos pretextos de zelosose extremistas neoliberais

De

Anónimo disse...

Para quê analisar sequer um documento (qualquer que fosse o seu conteúdo) que faz previsões a 5 anos? As pessoas ainda não perceberam que o novo normal é a volatilidade? Nem a 3 meses!!

vernon disse...

“Pior: o governo passa aos jornalistas a ideia de que…”
É verdade o governo está quase sempre a manipular a realidade. Mas os jornalistas que descaradamente sejam apanhados sem o trabalho de casa feito (fazer as contas ou ver outras já feitas por exemplo) são taxados com este imposto.

Jose disse...

40 anos a ceder a reivindicações e a prometer paraísos que outros haverão de pagar.
A reformas antecipadas a encapotar despedimentos, as majorações de pensões, as benesses de todo o tipo.
Tudo muito adquirido e um TC a determinar as políticas - impostos para todos.

Rogerio G. V. Pereira disse...

Bom post! Espero que seja editado o "Expresso da Meia-Noite" de ontem, para rever o seu desempenho... e as caras que por lá se faziam enquanto o ouviam!

A.L.R disse...

Já são tantas que até saíamos da crise num abrir e fechar de olhos....

Anónimo disse...

A maior parte dos jornalistas - há exceções - estão avençados. O= ultimo deve ter sido o MST...

Anónimo disse...

O jose já pagou o imposto pelo facto de tentar esconder o rosário de mentiras dos seus?

E a reincidência um pouco boçal não deveria ser mais taxada?

De

Anónimo disse...

( jose mais uma vez tenta afastar o debate do que se debate.Repete estribilhos ouvidos pelos locais por onde anda.
E faa de "impostos para todos"."Todos"?
E mente.

"Pela enésima vez, a troika fala na redução das rendas excessivas no sector energético, desta vez apresenta uma solução: um aumento anual do preço real da eletricidade de cerca de 1,9% (p.14).

Para quem tivesse dúvidas sobre o "ajustamento" aqui está: o grande capital monopolista é intocável, os portugueses "que se lixem", como dizia o primeiro-ministro acerca das eleições.

Para este liberalismo que enche a boca com "concorrência livre e não falseada", a criação de monopólios e oligopólios não pára. Tudo o que possa ter uma réstia de lucro privatiza-se. A privatização de serviços básicos e empresas estratégicas desvia o rendimento nacional para os bolsos sem fundo do capital monopolista e aumenta o preço dos bens e serviços. O país que fique abandonado à pobreza e à caridadezinha fascistóide da D. Jonet.

A troika quer que se privatize o Oceanário e as linhas férreas de Lisboa e Porto. Quanto às restantes o governo deve preparar um plano para as tornar rentáveis e privatizar. Para isso lá está o ex-Goldman Sachs, sr. Carlos Moedas. Continua também a farsa das poupanças com as PPP rodoviárias, reduzindo trabalhos e passando responsabilidades para o Estado. A taxa de lucro de empresas e bancos envolvidos permanece intocável.

Deverá também, ser preparado um plano de cortes nas Empresas e Hospitais Públicos, ou seja fazer desaparecer a noção de serviço público. Mas há mais "planos" para o governo se entreter: é o caso do endividamento excessivo das empresas, isto é, crédito mal parado da banca. Não há problema: contribuinte paga, "custe o que custar".
Daniel Vaz de Carvalho

Daqui:
http://resistir.info/v_carvalho/avaliando_os_avaliadores.html

De

Anónimo disse...

trata-se de uma uma operação
de propaganda da parte deste Governo para poder sobreviver.
Só vem confirmar que a situação económica financeira e social será cada vez mais grave.Alem disso,mais uma vez as medidas anunciadas( pelo menos uma parte ) constitui matéria de constitucionalidade duvidosa.
O Estado de Direito está em questão.