segunda-feira, 26 de maio de 2014

Arriscar ser populista e eurocéptico...

Como manter a sabedoria convencional, parecendo que se está a desafiá-la, ao analisar o enfraquecimento do centro euro-liberal? Leiam, por exemplo, Teresa de Sousa: “o pior de tudo será desvalorizar os resultados”. E, no entanto, são mantidas as mesmas amálgamas desvalorizadoras dos emancipatórios resultados que palavras como soberania democrática, proteccionismo ou desglobalização podem e devem ter quando se inscrevem em instituições. O resto é a tendência associada para distribuir epítetos a torto e a direito, que escondem mais do que revelam: de populista a eurocéptico, passando por desglobalizador. Infelizmente, esta tendência chega a uma esquerda que ainda hesita em mobilizar as tais palavras e todas as suas consequências.

A preocupação com a ascensão da extrema-direita esbarra na incapacidade de ver que esta desgraçada tendência está inscrita nas políticas euro-liberais, produtoras de crise, de desigualdade e de desemprego, inseparáveis da integração europeia realmente existente, especialmente intensas na sua pós-democrática declinação monetária e financeira. Os que sempre saudaram a social-democracia, quando esta contribuiu para o que nunca passou da expressão continental da construção política, essa sim arriscada sob todos os pontos de vista, a que se chama globalização, continuam a insistir que Hollande tem de persuadir os franceses a regredir para adaptar supostamente a França à tal globalização. Le Pen agradece a ajuda. Ela tem nas políticas de austeridade e de neoliberalização os seus melhores aliados e na esquerda que se recusa a recuperar instrumentos de política, rompendo com uma moeda forte, um fraco adversário. O euro teve e tem por efeito, e intenção, forçar esta recusa, habituar a esquerda a esta recusa.

De resto, invoca-se um sociólogo alemão chamado Wolfgang Merkel, que desconhecia, e a sua distinção entre os “passageiros frequentes”,  adaptados à globalização, e os outros, os “comunitários”. Um outro sociólogo alemão, Wolfgang Streeck, com o qual estou familiarizado, distingue, por sua vez, o “povo dos mercados”, cujos representantes políticos estão reunidos, por exemplo, em Sintra, e o “povo dos Estados”. Este último depende das democracias de base nacional, onde conquistou o essencial do que ainda se tem para defender. Streeck, como já assinalei em recensão ao seu último livro Tempo Comprado, defende a dissolução da utopia monetária chamada euro, como primeiro passo para salvar a democracia e o progresso social de que uma integração europeia, enquanto projecto de cooperação entre Estados soberanos, ainda pode ser feita. As acusações de populismo, a palavra preferida de certas elites, e de eurocepticismo valem bem a tarefa para uma esquerda que não anda a dormir e que sabe que não há mais tempo a comprar.

6 comentários:

adão contreiras disse...

CVTOC (CVidal) sobre Ernesto Laclau

e o "populismo; parece-me haver algo em comum nestas análises...

http://obeissancemorte.wordpress.com/2014/04/14/que-viva-o-populismo-uma-nota-breve-sobre-ernesto-laclau-1935-2014/#comments

D., H disse...

“Não consegue (a social-democracia) adaptar-se às novas condições económicas geradas pela globalização…”, escreve a Teresa de Sousa.

Pois…
Depois de tanta análise, lá volta a globalização pintada como o supra-sumo da modernidade, obviamente bem à medida de alguns “ passageiros frequentes”. A avestruz também fez o mesmo…

José M. Sousa disse...

Esquerda? Qual esquerda? A do Bloco anda mesmo a dormir. Só se for a da CDU, que não me entusiasma muito, mas ainda é a que mexe alguma coisa.

Pedro Estêvão disse...

Finalmente, alguém que denuncia a subversão simbólica que opera por trás das acusações de "populismo"!

É espantoso como, matraqueando sem parar o jargão da ciência política, se conseguiu atribuir uma carga pejorativa brutal à ideia de povo. E, pior, associá-la, num passe de magia semiótica, à xenofobia, ao racismo e ao autoritarismo.

Um governo que se atreva a ter ter no centro da sua ação o interesse das classes populares está a explorar emoções, é alvo de chacota e é brindado nos media com o anátema do "populismo". Já um governo que que tenha como principal objetivo a preservação e reforço das elites financeiras, esse revela "sentido de estado" e "visão política" e tem direito ao selo da "credibilidade".

Estou a ver mal ou a difusão deste sentido da palavra "populismo" é um enorme triunfo do elitismo - esse sim, o grande problema da nossa democracia?

É que se ser populista é achar que a melhoria das condições de vida das classes populares deve ser um dos objetivos fulcrais de javascript:void(0)qualquer governo democrático, então eu sou populista - e orgulhoso disso!

Luis Cabrita disse...

Se considerarmos o populismo como uma táctica política em si mesma, como um discurso intuitivo, facilmente compreendido, que diz aquilo e somente aquilo que é necessário para esconder os interesses que se movem por detrás dos discursos públicos e eleitorais teremos outra visão sobre o fenómeno.

-Aumentou o emprego? É um sinal óbvio de que estamos no bom caminho. - ainda que isso seja apenas um efeito da conjuntura.

- Sócrates é a raiz de todos os males em Portugal, a prova é que foi ele que quis a troika em Portugal; escondendo as causas estruturais e institucionais da crise e personalizando opções de longo prazo do regime.

Assim acusações de populismo são também uma arma, que funciona da mesma maneira, esconde a natureza das reivindicações que estão na base dessas acusações.

Aleixo disse...

Em DEMOCRACIA,

surpreendente, é a aceitação e defesa dos objectivos definidos pela "representatividade", em nome do povo,

mesmo sabendo, que não é essa a opinião e vontade do POVO!

O problema do sistema democrático vigente, está na captura dos centros de decisão, pelas diversas oligarquias instaladas...

Se corre por fora... é porque corre por fora...

Se corre por dentro...não resiste á osmose!

Não chega, dizer que é diferente!